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White People Problem

***Esse texto foi baseado em 4 histórias distintas REAIS, contadas em primeira pessoa. Todas as personagens não serão identificadas. Todas escolheram interromper a gravidez aos 22 anos e todas eram universitárias, brancas e de classe média alta. O texto contém alto teor de termos e aplicativos famosos nos anos 2.000, o que delata a minha idade e a idade das personagens.


Foi uma crise tremenda quando descobri a gravidez. Estava de ressaca, havia sêmem de outro homem na camisinha no canto da cama, naquele hotel da Rua Augusta. Eu olhei aquele teste, olhei para o pobre homem deitado na cama e pensei: “Transou uma grávida, coitado”.

Estava em uma crise tremenda com meu ex-namorado. Ele perdera a virgindade comigo. Menino do interior sabe? Vem pra faculdade e elege uma bonitinha para ser o amor de sua vida. Essa paixão acaba sempre em 1 ano, 2 meses e um verão de distância. Se apaixonou por uma outra moderninha do inferninho de rock. Eu, tão alheia, havia pedido um tempo na relação. Eu, com crises alimentares, vomitei a pílula em um dos porres que os 20 e poucos anos nos trazem.

Cheguei em casa. Era uma manhã bonita. Minha mãe não estava. Entrei na internet, e o Orkut acusava as baladas do ex-namorado. Não importava. Aquele era o pai do meu filho. Mas eu não sabia o que fazer. Não me sentia mãe, tampouco mulher. Era só uma menina tentando sobreviver nas efemeridades da metrópole feroz. Eu iria trabalhar em poucas horas na rádio. Meus horários ajudavam nas noitadas. Meu msn tocou. Era uma quase-desconhecida puxando assunto. E uma quase-desconhecida resolveu me contar detalhes da noite de putarias e roquenrou do meu ex-namorado, com outra.

Eu me perguntei: “Por quais motivos essa menina que nem fala comigo resolveu me contar isso?”. Eu, grávida, de ressaca, estava vivendo meu pior pesadelo. Sem responsabilidade, sem maturidade, sem nada. E pensava: Por que a pílula falhou, Deus? Por que engravidei do ex-namorado? Logo eu, tão neurótica com camisinha, com medo de HIV, medo de filho. Medo, muito medo.

Em quatro dias, duas amigas me levaram para uma comunidade. Sabe cena de “Cidade de Deus”? Foi assim que consegui dois comprimidos abortivos. Vinha com uma ampola ginecológica, daquelas que vende sem prescrição, com remédios nas farmácias. Uma moça me explicou: “É um oral e outro você enfia (sic) lá com essa seringa”. Paguei um salário mínimo. Deve-se conseguir por menos nos dias de hoje, ou pagar mais e fazer o procedimento com segurança. Mas essa foi a minha escolha e o meu processo.

Liguei para o criador, e ele, não acreditou. Na época, não havia whatsapp, tampouco sms com imagens, mas mostrei o exame de farmácia com uma foto da máquina digital, também via msn. Minha vontade era postar no fotolog aquela imagem. Mas eu sentia vergonha. E não me sentia mãe.

Decidir interromper a gravidez é melhor que sentir a dor de não querer e não ter preparo para cuidar de um filho.

Acordei na banheira do quarto da minha mãe, desmaiada, com muito sangue no meio das pernas. Doía muito. Parecia um ovo, mas de sangue, que havia escorrido. Desmaiei alí, depois de 2 horas de muita cólica, sofrimentos e medo. A diarista me encontrou. Guardou esse segredo, nunca revelado à minha mãe, que soube por mim, anos depois.

Encontrei o Ex-namorado em um festival de música. Eu estava mais magra, abatida, segundo ele, estava linda. O sofrimento desperta tesão nos homens, só pode ser. Ele havia sido assaltado, levaram todos os seus pertences e os amigos se juntaram para que ele não perdesse a viagem. E alí, cada um na sua dor, nos beijamos e nos consolamos. Contei para ele. E ele, me culpou. Primeiro não acreditou. Pediu exames comprobatórios. Disse que a imagem não servia. Depois viu que eu realmente não estava mentindo, porque doía em mim toda aquela verdade exposta. O relacionamento durou mais cerca de um ano, e a vida nos levou cada um para o seu devido lugar. Mas a certeza de que aquela gravidez marcaria nossas vidas, nunca nos foi tirada.

Nunca tive problemas posteriores. Não precisei de curetagem. Mas eu me culpava, porque vivemos em uma sociedade conservadora e com moral cristã. Eu havia traído à Cristo e matado um feto, uma vida. Que assassina sou. Mas a terapia e a vida me mostraram que eu fiz uma escolha, que poderia ter sido feita com apoio psicológico do Estado e da família. Conversando com amigas de outros países, o poder público provê apoio psicológico e tenta, ao máximo, que a mãe escolha ter esse bebê. Na Suécia, há uma rede de apoio para que as mães tenham a sua gestação e que coloquem os bebês para adoção, que são encaminhados para outras famílias assim que os bebês deixam o peito (tente entender o sistema de adoção brasileiro, é caótico!). A maioria das mães desistem, pois o Estado ajuda psicologicamente essa mãe. Mas o Estado não é Pai. Criança precisa de Pai. E existe também a rede de apoio às mulheres que decidem finalmente, por interromper a gravidez.

Eu nunca quis fazer um aborto. Não me arrependi no momento, mas carregava uma culpa que me foi colocada pela mídia e pela falta de mãos, que não se estenderam para mim. Consegui engravidar, depois de 10 anos, de um parceiro maravilhoso. Não penso como seria ter esse filho, porque o filho que eu desejei, hoje está aqui ao meu lado, enquanto escrevo esse texto. Mas não podemos passar pro Estado, responsabilidades tão delicadas como essas.

Legalizar o aborto no Brasil, será legalizar a culpa. Não há julgamento pior que esse. Então esse trabalho todo já escolhido pela população, não tem necessidade. Vai por mim. O julgamento é moral, existe, e duvido que aumentem os índices. É fácil abortar hoje. Falta legalizar.

Nas minhas andanças, conheci mulheres muito pobres, com filhos. Algumas perderam o filho para o crime, e falam abertamente que preferiam não ter tido aquela criança. Pai que evapora, Estado não contribui. Perguntei também o porquê da gravidez. Elas dizem, que o direito ao prazer é dos dois. Mas ele não quis gozar fora, ela não tomava pílula pq “fazia mal”. Sim, pílula faz muito mal pra saúde feminina. Imagine como é lá, no Capão Redondo, com pai no crime, irmão no crime e ela nos serviços domésticos.

Qualquer pessoa com salário maior a 1 salário mínimo, não pode opinar sobre aborto. Simplesmente porque o aborto será feito. As mulheres continuarão a abortar. Mas o Estado poderia dar a possibilidade de mais uma mulher não morrer. O Estado poderia prover ajuda para que essa mulher estivesse pronta para cuidar de um filho, financeiramente e psicologicamente. Mas ela abriu as pernas, não? No final, a gente deu. A gente paga.

Crédito da Imagem: Huffpost.

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Mariana Perin

A louca dos Buldogues Franceses, Yawo de Oya, feminista, dividindo seu tempo entre política e produção cultural.

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