por: Raphael Sebba

 

O Brasil inteiro parou para discutir a condenação em 2ª instância de Lula. Entre as milhões de postagens, artigos, vídeos e textos, duas linhas discursivas opostas se destacam: uma que comemora a condenação como o triunfo da justiça sobre a corrupção, e outra que a lamenta por entender que se trata de perseguição política, um assalto do judiciário à democracia. É evidente que existem posições diversas, que se distanciam de ambas as narrativas, mas é praticamente impossível ver alguma opinião que não beba em maior ou menor grau de uma ou outra perspectiva, podendo inclusive estabelecer sínteses entre as duas.

Sem querer cair nas obviedades exaustivamente presentes em qualquer timeline, acho importante apontar um consenso: este não foi um julgamento normal. A velocidade com que o processo andou na segunda instância é absolutamente diferente da cotidianamente lenta Justiça brasileira. Isto pode ser justificado, entre quem defende a condenação, pela relevância do caso, pelo simbolismo de se julgar um ex-presidente, pela dedicação do TRF-4 em ver a justiça ser feita a tempo de impedir a eventual eleição de um condenado. Já pelos defensores de Lula, se trata de flagrante exemplo da perseguição judicial, de que o que se pretende, ao fim e à cabo, é intervir na soberania do voto. Seja qual for a sua perspectiva, é inegável que houve ação engajada, desejo profundo de dar rápido seguimento ao processo, o que indica, de antemão, uma tendência dos desembargadores. Volúpia, força, paixão que também marcou a ação do Juiz Sérgio Moro, não por acaso elevado ao posto de herói ou rebaixado ao posto de carrasco nacional. Para este texto é indiferente a leitura que você faça sobre o caráter deste julgamento, bastando termos o acordo que se trata de situação única na justiça brasileira, tendo consequências inclusive em termos da sua tramitação.
E aqui vem o X da questão: não se tratando de trâmite normal, quem deve comemorar este processo? Afinal, dentre as narrativas apontadas, qual se fortalece mais com a situação material de tratamento excepcional ao julgamento de Lula? Do ponto de vista imediato, obviamente, quem quer ver Lula condenado pode comemorar. Mas, do ponto de vista histórico, simbólico e narrativo, temos consolidadas as condições para a formação de um mito. De Jesus à Mandela, a condenação questionável sempre serviu para alimentar crenças messiânicas, sobretudo quando o condenado encarna estigmas compartilhados pela maior parte da população. O simbolismo de cada processo histórico extrapola, inclusive, as figuras reais, existentes. Por exemplo, Mandela não apenas foi condenado, mas o foi por ser negro e, na condição de negro, não se submeter às injustiças de seu tempo. Pouco importa quem foi, objetivamente, Mandela ou os erros que provavelmente cometeu, por ser humano. A memória coletiva formou um símbolo maior do que indivíduo. E, talvez, estamos assistindo algo parecido acontecer. Quanto maior a convicção da culpa de Lula, maior deveria ser o desejo de assistir um processo absolutamente ordinário, comum, dentro da normalidade. Mais do que isso: maior deveria ser a militância e a pressão pela condenação de outros ex-presidentes. Afinal, não deixaria margem de dúvida sobre a pretensa neutralidade da justiça. Quanto menos opositores de Lula fossem seus julgadores, quanto menos personalizada fosse sua situação, mais peso teria uma eventual condenação. Mas ao tirar os véus dos olhos para se admirar no espelho midiático, juiz e desembargadores se afogaram como Narcísio e deram à figura histórica de Lula um novo capítulo que pode e será fartamente usado.
Lula e o PT alcançaram os menores índices de popularidade com Dilma ainda no poder. Não é coincidência que, após as evidências e escândalos impunes de Aécio e Temer, Lula tenha retomado força e credibilidade política com o avançar de seu julgamento. Independente de tecnicidades, pareceres, foros especiais ou comuns, fica no imaginário coletivo o sentimento de que a Justiça não é para todos, é para alguns. Sentimento que se alinha à percepção cotidiana de que, no Brasil, só pobre vai preso. Não tem como medir o peso simbólico de assistir, após 500 anos de corrupção, o primeiro presidente operário ser condenado, enquanto os ‘doutores’ seguem soltos. O inconsciente coletivo, sobretudo das populações marginalizadas, percebe, sente, se identifica e se solidariza com Lula, carregando uma leitura que não se refere ao recebimento ou não de propina, mas aos privilégios que mantém um país dividido em castas.



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