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Venâncio, flores e amor!

Por Sarah Lincoln

Venâncio era homem de barro e já tinha triturado pedra até virar poeira, tormenta corria nas veias e o silêncio derreteu seu coração. A cabeça ficava em direção ao horizonte, para frente ou para tras…

Um dia decidido arrumou uma trouxa com roupa e aguardente, foi para uma cidade qualquer de gente desconhecida.
Passou dias sentado no banco de uma praça só olhando um movimento que ele mesmo dava a direção pelo seu olhar. A fome ia apertando e a água era o consolo.
Começou a andar de um lado para o outro e deu conta de que a tal cidade já não era tão grande como imaginava, sua fuga foi destemida de onde saiu e estava certo de que o fim do mundo era o lugar onde havia nascido.

Nenhum som saía de dentro daquele homem, pessoa alguma lhe falava, a cidade parecia não ter sentido porque o desconhecido já não era novidade.
Arranjou um trabalho de jardineiro de um pequeno quintal nos fundos de uma igreja e conseguiu pouso na casa de uma velha de conversa interesseira , e rastreava Venâncio com os olhos e depois com as perguntas que eram as mesmas sempre:

– De onde o senhor é? O que que fazia? Quantos anos tem? Que pretende? E o jardim da igreja como anda?
O homem já não mais aguentava tanta indagação da velha intrometida, depois de juntar um dinheiro como jardineiro conseguiu alugar um quartinho na casa de um velho viúvo e surdo, era um alívio, o velho não fazia perguntas porque não escutava e se não escutava não adiantava de nada conversar, e assim estava bom para os dois, inquilino e proprietário foram se entendendo.
Venâncio já estava sendo conhecido na cidade como um bom jardineiro e passa a trabalhar em várias casas embelezando os jardins das casinhas e levando contentamento para as pessoas que comentavam cada rosa que desabrochava era cor chegando e ficando, cor de flor que parecia pintura de quadro importante, maior a flor maior era a importância.

O homem estava feito, trabalho e elogio, o que mais ele poderia querer como forasteiro e jardineiro?
Venâncio já andava sonhando com a sua própria casa e com flores que fossem só dele, toda noite antes de dormir ele pedia uma casinha e uma rosinha que poderia ser branca ou vermelha, o assunto da cor ele resolveria depois com o tempo, é certo que ele preferia flor de cor amarela, e sua ambição estava indo longe pois estava pensando em cultivar margaridas e cravos.
O jardineiro envelheceu junto com a cidade onde ele chegou sem saber se durava, construiu sua casa, arrumou uma esposa que botava flores no vaso todo dia, teve filhos e um jardim, o jardim mais bonito que uma pessoa desejaria. A vida para Venâncio foi seca e incerta, mais a cor foi chegando lenta e por ali ficou.

Venâncio da Silva, agricultor.
Reside na Comunidade Rosetinha, Baependi
Minas Gerais

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