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Uma ilha Tupiniquim: brasilidade em três imagens mexicanas!

Uma ilha tupiniquim: brasilidade em três imagens mexicanas.

Por Venancio de Oliveira

Quero escrever este artigo como crônica de economia e política, uma aproximação mais pessoalizada, uma interpretação sobre um mundo, México, que na minha experiência também vivencia a brasilidade. Espero que possa contribuir para aproximar este mundo que vejo, com o mundo dos brasileiros, que muitas vezes se ilha frente à América Latina, mas não sabe que os mundos estão mais próximos do que imaginam. Esta crônica trata de três imagens.

19 de setembro de 2017

Dois prédios retorcidos no chão. Estilhaços de cadeiras, de pedras e cadernos. Várias coisas pessoais. Ferro dobrado. E muitas pessoas com pás, capacetes, retirando tudo para poder encontrar gente ali dentro. Eram dois prédios caídos. Uma maca passa com uma pessoa, há uma leve abertura na lona que a cobre, me permite ver algo, não quero ver. Quero acreditar que está viva. Me junto ao rebuliço. Quero entrar. Logo junto entulho. Volto para casa, junto amigos e vamos para outro prédio caído, entre Zapata e División del Norte. As brigadas de brasileiros, chilenos argentinos e estadunidenses. Voltando para casa, sonho que o terremoto tinha voltado, que caía fagulhas na minha cabeça e meu quarto desmoronava. Corro de verdade, saio sonâmbulo para rua.

O brasileiro não sabe o que é isso. Não sabe mesmo, não é qualquer ignorância, é aquela ignorância histórica. E o seu despertar aos 30 anos é doloroso e desesperador. Assim foi como recebi o terremoto que matou e paralisou uma megalópole: vivenciar o terror da natureza e depois dos homens. Na onde eu vivo, bairro de Coyoacán, Ciudad de México, terra de Frida, nada aconteceu, na verdade em determinado espaço deste bairro, aonde era coberto por pedra vulcânica.

Nosso papel então: entrar nas brigadas, tirar entulho, mapear prédios e casas danificados, e cobrar o poder público. México mostrou-me uma economia popular espontaneamente organizada frente a tragédia. Horas de trabalho dedicadas a fazer comida para os brigadistas. Dinheiro redistribuído para aqueles que perderam algo. E o Estado? Quero chamar de Estado Amplo, os poderes de fato: polícia, governo federal, deputados e municipal, exército, televisão e outros meios de comunicação (mas principalmente a televisão), grandes capitalistas e banqueiros. Eles apareciam com frases grandiloquentes, mas odiavam os brigadistas. Haviam construído prédios ruins que caíram e enterraram a verdade sobre a fábrica derrubada, com trabalhadoras migrantes centro-americanas. Além de muitos outros crimes durante o terremoto, como desviar mantimentos doados, etc.

Eu lembro com antipatia do soldadinho de chumbo que só queria dar ordens estúpidas numa madrugada de trabalho de recolher escombros. Ele fumava num lugar que não podia, pois havia o fantasma da fuga de gás.

Mexicanização do trabalho no Brasil

Eu vi uma coisa horrível no metrô, uma mulher, indígena, que junto com sua menininha recolhia o lixo embaixo dos bancos, se arrastava, esperando gorjetas. No México do subemprego, do emprego que o Temer quer nos dar, é o país que tem cerca de 10% da população vivendo de gorjetas (esmolas?) e não tem salário fixo.

A mexicanização do Brasil me doía na saudade, será que quando voltar, vou ver esta mulher, sei lá, recolhendo lixo em algum ônibus ou metrô, ou como é recorrente aqui, ver idosos trabalhando por gorjetas como empacotadores que na minha adolescência, era trabalho para gente iniciar nossa vida. Segundo minha mãe, era o mais digno que poderia me ocorrer, “300 reais, carteira assinada, imagina, tão novo assinando a carteira”

Estudando mercado de trabalho mexicano me deparo com caídas salariais desde 2008, com fortes desvalorizações do salário mínimo real de até 25%. Lembro dos anos noventa, um amigo conseguiu um trabalho, éramos adolescentes pobres e não conseguíamos trabalho. Mas ele sim e estávamos orgulhosos dele. Conseguiu como datilógrafo. Salário mínimo: 100 reais. Claro, naquela época podíamos comprar muito mais coisas com isso. Para o desespero da mãe dele, comprou itens para ser um jogador de futebol. Se fora no México, no outro ano, com o mesmo 100 reais, ele não poderia comprar, por exemplo, a caneleira que custava 25 reais, pois pela inflação custaria mais.

Candidatura zapatista: Marichuy

Umas crianças indígenas, com seus capuzes de guerra, olhavam para dentro de você, sem medo, elas carregavam cartazes com nomes: esperança, dignidade, giravam entre elas como num caracol. A névoa parecia tornar estas frases mágicas.

Eu conheci os zapatistas, sempre quis, mas demorei, de 4 anos aqui. Enfim fui lá na cidade de San Cristóbal de las Casas, no Estado de Chiapas, em que parece que o problema do universo são os indígenas, “ignorantes que viviam na pobreza, agora desde que chegou o subcomandante Marcos, se matam uns aos outros”, segundo uma cidadã que trabalha para o Estado, governo do Verde, partido laranja do PRI, o mesmo que matou estudantes a céu aberto em 1968, além de outras mais chacinas.

Fui lá. Em Oventik. Território liberado. Onde tocavam músicas revolucionárias, segundo os radialistas, para gente esperar chegar a candidata, María de Jesús Patricio Martínez, chamada de Marichuy. Antes de vê-la, ali naquele lugar enevoado, entre montanhas e nuvens, com os indígenas e suas máscaras, escutava muito, “as pessoas vão rir da gente, mas manteremos nossas lutas, nossa dignidade”. Eu realmente via dignidade naquele mundo que me olhava com curiosidade, pois andava com um chimarrão, tinha de dizer, mate brasileiro, não argentino. Me sentia à vontade com aquele olhar digno, alegre, como se o pesadelo do México pobre, pudesse ser revertido.

A candidatura é independente, pois não há um partido eleitoral que a respalde. Está sendo organizada pelo CNI (Conselho Nacional Indígena), aonde participam o EZLN (Exército de Libertação Nacional Zapatista), que em 1994 se revelou contra as reformas do presidente Carlos Salinas de Gortari. Para mim, mais que revolução, eles trouxeram dignidade àquelas pessoas que sofrem da violência do racismo e da pobreza do subemprego.

Enfim, esta candidatura quer formar uma força política nacional e com isso romper com o cerco dos coronéis da política, pois ela quer ser uma representante com uma experiência de vitórias pessoais, de marcas e algumas derrotas, de planos de vida coletivos, de lutas com os seus companheiros.

Eu me encontrei nos meus desejos mais profundos de mudança, senti que todos meu trabalhos e planos de vida poderiam ser representados naquela mulher, filha de nativos da América, talvez se ganhasse, aquela moça do metrô não teria que se ajoelhar, pois haveria dignidade.

Leio no jornal que cerca de 20 milhões de brasileiros poderiam vir a votar num estúpido, que tenho nojo de nomear, em alguém que poderia literalmente pisar naquela moça do metrô mexicano. Alguém que se diz cristão, mas que acredita no poder da tortura, que acha que vingança é igual a justiça (código Hamurabi ou amar ao próximo?). Enfim pensei em tantas outras pessoas que poderiam representar nosso jeito simples e gentil (claro, parte também é representada por este outro jeito brasileiro, violento e racista). Claro, há muitos nós aqui.

Venancio Oliveira, Escritor e Economista. Atualmente reside no México.

Autor do livro: Quando a Chuva Chega.

https://www.facebook.com/cuandolaluviallega

https://cuadernofronteira.wordpress.com

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