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Transtorno Bipolar

Por Luccas Cechetto

“Ai, tô meio bipolar hoje”. “Fulano/a tava de bom humor de manhã e agora está emburrado/a. Parece bipolar”. “Semana passada eu tava super bem e hoje tô me sentindo muito mal. Acho que sou bipolar”. Frases como essas são comuns em nosso dia a dia. Se não nós mesmos quem as reproduz, certamente conhecemos alguém que as diz com frequência.

Para além do teor psicofóbico (uso de termos relacionados a transtornos mentais de maneira jocosa, desinformada ou intencionalmente preconceituosa – i.e.: o uso do termo retardado), é possível fazer algumas reflexões importantes sobre a “veracidade” dos autodiagnósticos, em especial, ao levarmos em consideração o avanço da lógica patologizadora e medicalizadora da vida, que insiste em nos dizer o que somos e como devemos nos sentir.
O Transtorno Bipolar é comumente caracterizado como a oscilação rápida ou lenta entre dois quadros distintos de humor: a mania (episódios marcados por irritabilidade, auto-estima elevada de modo incomum, redução no apetite e no sono, falas aceleradas e desconexas, etc) e a depressão (episódios marcados por avolia, baixa auto-estima, alteração no apetite e no sono, dificuldade de concentração, podendo ter ideação suicida e tentativas de suicídio).
Como de praxe em muitas doenças ditas mentais é considerado incurável, mas pode ser estabilizado com a medicação adequada e psicoterapia. Mais comum ainda é a investigação das causas dessa patologia – e de todas as doenças “mentais” – a partir de um viés internalista e biomédico (neurotransmissores, fatores genéticos, etc) e/ou mentalista (relacionando a traumas, pensamentos disruptivos, etc). Isto quer dizer que essas explicações são baboseiras ou devaneios? Não. Mas também não quer dizer que são explicações das causas. São apenas descrições de elementos comuns a um quadro de comportamentos que se repetem com determinada frequência.

Não se trata de levantar a bandeira de que doenças mentais não existem e é tudo criação da indústria farmacêutica (embora não se deva, nem por um momento, desconsiderar o monopólio dessa indústria sobre a maneira de nos relacionarmos com nossa dor e nosso sofrimento) ou de que a melhor compreensão dessas variáveis não possa ajudar pessoas que – na infinitude de possíveis mutações genéticas e de interações com o meio – apresentem maior sensibilidade a determinados estímulos e acabem por reproduzir determinados comportamentos.

Para compreender melhor este e outros quadros é preciso, primeiramente, abandonar o conceito de “mental”, como se este conjunto de comportamentos que constituem um determinado quadro de sofrimento acontecesse em um local à parte do organismo – a tal “mente”. Nossos pensamentos, sentimentos e emoções, tais quais nossos outros comportamentos públicos são igualmente resultados do que produzimos e, por consequência, de como somos produzidos na nossa interação com o meio. O fato de não podermos colocar o dedo na dor “mental”, como fazemos com uma lesão, não legitima a existência de uma entidade interna metafísica e abstrata.

Acredito ser importante abordar este ponto, pois entendo que boa parte, senão a totalidade, do discurso patologizador e medicalizador da vida encontra sustento nos discursos mentalistas e internalistas. Ao nos contentarmos com explicações a partir de neurotransmissores, traumas, pensamentos, etc. deixamos de investigar o óbvio – a relação dialética organismo-meio e justificamos o uso de pílulas e estratégias tão abstratas quanto o conceito em questão.
Quando alguém relata que acha que é bipolar porquê muda muito de humor o que ela descreve, em última análise – seja de fato alguém que se encaixe nos critérios diagnósticos ou não – é que nas suas interações com o meio e nas interações do meio com ela, o resultado não lhe tem sido satisfatório. Em um cenário como esse, não seria incomum que as reações à queixa fossem a invalidação da mesma (“é frescura”, “coisa da sua cabeça”, etc.) ou um recorte isolado e individualizante visando melhor “adaptar” o sujeito ao meio, seja aumentando sua “resistência” ao sofrimento (a famigerada resiliência) ou, seja o fazendo “entender” melhor o sofrimento que é só seu.

Parece difícil aos profissionais que trabalham com esse tipo de sofrimento, e para a sociedade de modo geral, colocar em peso de igual importância para a compreensão e enfrentamento deste e outros transtornos psiquiátricos o papel que um sistema como o em que vivemos tem na produção de doenças. Se eu afirmo que a maneira como me relaciono e se relacionam comigo me faz mal (e acabo até usando termos equivocados para me referir a isso, como os exemplos citados no início desse texto) ou que essas relações me fazem tão mal que adoeço, o que deveríamos estar investigando com mais atenção é que modos de se relacionar são esses e de que maneira são construídos no capitalismo.

Mesmo que existam componentes genéticos e individuais para estas e quaisquer outras doenças ditas “mentais” é nas relações que isso se transforma em sofrimento e doença. É no não se “adaptar”, no não ser “resiliente”, no não corresponder ao funcionamento “normal”, no não responder conforme esperado que isso acaba por se caracterizar como doença. Enquanto o discurso que prevalecer for o biomédico, internalista, mentalista e patologizante, continuaremos buscando rótulos, remédios e soluções mágicas para mascarar o que profissionais e sociedade devemos enfrentar: a lógica individualizante, alienadora, competitiva e adoecedora do Capital.

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