Por Samuel Marques

 

Tenho visto postagens há alguns dias, que idolatram a maneira como Bolsonaro tratou a questão da escravidão, e como Professor tenho a obrigação de fazer algumas observações. Primeiro, os negros não estavam disponíveis, ninguém está. Segundo, a afirmação de que negros escravizaram outros negros, porém, é necessário explicar algumas coisas. O homem branco, ao contrário que disse Bolsonaro, no caso o português, pisou na África, e a desculpa era levar boas novas, Cristianismo e Bíblia. Os negros porém, em suas tribos, resistiram a esse contato, mas não por muito tempo. Com o passar do tempo à dificuldade da língua atrapalhava as missões, o que foi sugerido então que algumas pessoas fossem levadas para ouvirem os sermões. Assim como em qualquer sociedade os africanos tinham suas guerras, e no final delas, a tribo derrotada era levada para servir à vencedora. E como em qualquer sociedade, existiam punições para crimes e todo um código de conduta. Os primeiros levados para ouvir as boas novas foram exatamente esses. E assim o homem branco teve seus primeiros escravos. Os nativos que lá chegaram os serviam bem, e o homem branco pedia mais. Mas nenhum deles queria ceder pessoas livres, e como vemos atualmente, para poder manter seus lucros, o estrangeiro fomenta a guerra, para poder assim ser abastecido por escravos. Esse homem branco, detentor da arma de fogo, atirava em que quisesse. O tempo vai passando e já sabemos o que ocorre, portanto, a história quando estudada revela que nada é como parece. Mas voltemos para alguns pontos, que provam a necessidade de uma reparação. Mas quem os comprou? Quem os colocou em navios que em viagens de dois meses, em condições miseráveis cortavam os mares? Quando os mesmo chegavam, eram comprados por quem? Enfileirados, eram analisados como produtos, separados e enviados para as fazendas, e quem fazia isso? Chegando nas fazendas, trabalhavam para quem? Enriqueceram quem? A riqueza cafeeira do nosso país foi produzido através do trabalho escravo, e na ponta da mesa, opulenta e patriarcal, estavam quem? Os negros? Depois da Lei Áurea, a liberdade para os escravos, os mesmos foram jogados nas ruas, em uma sociedade que os olhava como? Sem separações? Onde foram parar? Depois que foram despejados para dar lugar a um modelo francês urbanístico, quem foi parar no morro? Os brancos escravagistas? E analisem, que estou dando um recorte ao Rio de Janeiro. A escravidão no Brasil foi mais que escravidão, foi mais do que uma tese reducionista, que preguiçosos fujões das aulas de história adoram. A escravidão no Brasil foi base para a formação da sociedade, para a separação e execução de um sistema social. Em 1854, o decreto 1.331 dizia claramente que negros não poderiam frequentar escolas, assim como crianças com moléstias contagiosas e não vacinados. Em 1808 estrangeiros eram generosamente convidados a viverem no Brasil, recebendo inclusive terras para isso, quantos eram negros? A escravidão existe à muito tempo, e não foi algo exclusivo feito a negros. Mas a Europa massacrou e dividiu a  África. Sem perguntar aos africanos, levou-os as suas colônias, e lá os tratou como o escravos. No Brasil a escravidão norteou a formação social de uma elite que através do negro chegou a ser elite. E por essa miséria, vivemos hoje esse movimento de tentativa de se negar o óbvio, que a nossa sociedade ainda é regida pela separação de cor. Que a nossa sociedade é a consequência de anos de escravidão e de separação. A tentativa de negar isso, não é apenas desonestidade intelectual, ou exemplo de pós verdade, mas no subconsciente, a culpa. Culpa de saber que a reparação não foi feita, que precisa ser realizada, mas como se sentem elite, tem medo que todos possam ser iguais. Claro, que situações como essas são usadas por seres deploráveis como Bolsonaro, que se utilizam da preguiça de seus espectadores de se aprofundarem em temas complexos, mas necessários, e que adoram discursos fáceis, e por motivos óbvios. Não foi por menos, que o mesmo candidato escolheu um vice que considera os negros malandros, e índios indolentes. É hora de uma vez por todas, de entendermos que não dá para reduzir assuntos como esses a frases soltas e bordões baratos. Precisa de estudo e de vontade, porque querendo você ou não, todo camburão tem um pouco de navio negreiro.

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Samuel Marques

Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.



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