Entrevistas Sustentabilidade

Sustentabilidade e religião

Por: Jane Maria Vilas Bôas 

O conceito de sustentabilidade, antes mesmo de ser adensado e influenciar a visão de mundo da maior parte dos nossos contemporâneos, tem sido apropriado, de forma inadequada, pelos discursos mais díspares nos quatro cantos da terra. A possibilidade de um uso tão amplo nos diz que esse processo de apropriação banaliza o conceito porque ele se tornou aplicável a qualquer situação e passa a não ser ontologicamente denso e, portanto, não tem um campo de abrangência bem definido prestando-se à legitimação de qualquer conteúdo.

A concepção de sustentabilidade que usarei é uma construção que deriva de uma formulação feita em 1985 pela ONU e que foi posteriormente ampliada pelas elaborações da ex-Senadora e ex-Ministra do Meio Ambiente Marina Silva. A ONU adota o conceito de desenvolvimento sustentável utilizado pelo Relatório Brundtland, que se debruçou sobre as muitas condições de desenvolvimento e meio ambiente em todos os continentes do planeta. Esse documento atribui 4 dimensões ao conceito, que são a sustentabilidade ambiental, a sustentabilidade econômica, a sustentabilidade social e a sustentabilidade cultural. A essas quatro dimensões, Marina Silva adicionou outras três que são a sustentabilidade ética, a sustentabilidade política e a sustentabilidade estética.

Esse complexo de ideias pode ser traduzido na afirmação de que o desenvolvimento sustentável, observando todas essas dimensões, é aquele que garante a toda a humanidade o uso da base natural  para se viver em condições dignas, sem comprometer as necessidades das futuras gerações.

Assim, sustentável é um sistema cuja dinâmica permite o uso de seus serviços, sua recomposição e disponibilidade para usos futuros, de forma que o ciclo seja perene e garantido para todos os que precisarem desse uso em qualquer tempo.

A religião cristã, que é a que conheço e posso explanar dando exemplos de passagens em que a ideia da sustentabilidade está presente, tem em seu texto sagrado várias trechos em que a cosmovisão cristã promove as ideias de perenidade, universalidade, diversidade, resiliência e funcionamento sistêmico das coisas.

O primeiro livro do texto sagrado, que se chama Genesis, fala da origem não só da vida, mas de um sistema de suporte para essa vida. Uma vida que se manifesta em muitas espécies vegetais e animais e que se desenvolve tanto na água, quanto no solo e também no ar, o que cientificamente chamamos de biodiversidade. O cenário inicial de Gênesis descreve o surgimento de um ecossistema, onde o princípio é o servir, o serviço, o suporte de um elemento para o outro. A água precede tudo, precede o mundo e é a companhia do Criador no momento em que o mundo ainda não existia. O que resulta do trabalho de criação é um sistema que tem harmonia, variedade e estética. Um jardim.

Nesse primeiro momento, o momento originário, o Criador entrega ao primeiro ser humano uma possibilidade e um mandato cultural. O Criador faz o que é impossível para o ser humano realizar, que é fazer surgir a matéria com e através do verbo. Após ter criado todos os animais, o Criador convida o ser humano, chamado Adão, por sua vez criado do mesmo material químico do solo, para dar nome aos animais. Nesse ato repousa uma parceria, a autorização para que a criatura participe do ato criativo, na dimensão que lhe era possível ao manejar também o verbo. Dar nomes é atribuir significado, combinar nome e sentido, a elementos da base material produzida pelo Criador. Dar nomes é receber a possibilidade de criar a camada simbólica dessa base. Através do verbo, de signos linguísticos, da teia de significados, o ser humano recebeu a possibilidade de co-criar originariamente o mundo e recriá-lo eternamente na designação de novos nomes para novas realidades materiais surgidas ao longo da história da humanidade no planeta. A construção da cultura, portanto, é uma possiblidade deixada à disposição da humanidade pelo Criador. Não como um ato compulsório, não como um desígnio inarredável, mas como um potencial exercido no espaço da liberdade, da criatividade, da variedade de formas culturais. A sustentabilidade da vida material e simbólica garantida pela atribuição de potencial de criar, de recriar, com inteira liberdade.

O mandato cultural, apresentado no segundo capítulo, cria a ética do cuidado e faz do ser humano o guardião do jardim, com orientação para lavrar – exercendo seu potencial criativo, gerador, reprodutor da vida – e cuidar. Cuidar para que a estética, a harmonia e a variedade presentes no jardim, nunca se esgotassem nas mãos de uma geração de humanos. A plenitude do planeta, a abundância de vida, a forma sistêmica de sustentação dessa vida, são características ontológicas do projeto original do Criador.

Porém Adão permite que uma ruptura, que o senso comum cristão chama de pecado, entre no sistema da vida e o desorganize, desequilibre e introduza significados não sustentáveis nesse sistema, produzindo assim o que chamamos de morte. Diferentemente do que a moral conservadora de muitos cristãos entende, o pecado não é uma transgressão sexual. O prazer é um dos componentes da vida, de sua capacidade de se suceder eternamente em atos orgânicos do corpo e na química das emoções que liga um ser ao outro. A morte é uma ruptura da possibilidade do sistema da vida de durar eterna e perenemente de forma sustentável.

Para ilustrar um pouco mais a relação da religião com a sustentabilidade, vale a pena nos determos ainda sobre mais três passagens. Uma delas tem Noé, também no livro de Genesis, personagem bastante conhecido e difundido pela cinematografia contemporânea, como protagonista. A outra trata da necessidade de obedecer aos ciclos que permitem à vida a renovação e reposição e está no Livro de Levíticos, particularmente em seu capítulo 25. A terceira passagem nos traz Jesus, a inspiração maior do cristianismo, numa cena em que o conceito de poder como o pensamos contemporaneamente é totalmente subvertido.

Diante do grau de disrupção do projeto original, da corrupção dos princípios de funcionamento da vida, o Criador decide pelo extermínio de todas as formas de vida existentes no planeta, exceto por uma família humana e um casal de cada animal existente no mundo a serem preservados da extinção em uma arca que flutuaria durante um dilúvio universal. Noé é designado como responsável pela preservação de toda a biodiversidade existente no planeta. Recebe ordens para entrar na arca uma semana antes do início da grande inundação. O mesmo ciclo de tempo que se vê no momento da criação do mundo é requerido que decorra no seu extermínio. Noé e sua família convivem com a situação mais extrema de diversidade da vida. O que vemos regularmente é que temos a tendência de eliminar aquilo com que não nos identificamos, o que nos parece exótico, o que não obedece nossos parâmetros de existência. A eliminação é a busca do retorno ao conforto do nosso mundo familiar e conhecido. A sustentabilidade cultural é exatamente respeitar diferenças, aprender a se enriquecer com as trocas que existem na diversidade, pois a homogeneidade não oferece significados para a troca que amplia e enriquece nosso repertório cultural. Noé não podia eliminar nenhuma das vidas ao seu redor, muitas das quais ele jamais tinha visto e não podia subtrair-se àquela convivência sendo, ao contrário, obrigado a servi-las e preservá-las com respeito. A sustentabilidade dessa convivência dentro da arca foi a chance de recomeço do planeta e uma aliança do Criador não mais exclusivamente com o ser humano, mas com todas as formas de vida que vieram a ser a origem da segunda chance do sistema de vida na terra.

A passagem de Levítico nos traz uma grande lição sobre ciclos e a natureza diferente deles, para haver sustentabilidade nos sistemas e subsistemas de vida. O Criador fez o dia, uma ciclo de luz, para que todos os organismos vivos – com raras exceções – exerçam suas atividades orgânicas e sociais. Fez também a noite, um ciclo sem luz, para o repouso, a reposição, muitos processos fisiológicos de restauração dos organismos inertes e entregues ao sono. Mas fez ciclos mais longos para descanso e repouso da própria terra. Em cada sequência de 7 anos há um ciclo produtivo de 6 anos e um ano de repouso chamado de ano sabático. A finalidade desse ano sabático é descanso, repouso, restauração. E há ciclo mais longo ainda, de 50 anos, ao final do qual os escravos era libertos, a propriedade original da terra era restaurada ao dono originário. A restauração da justiça social e agrária. E tudo se recompunha e recomeçava. Poderíamos dizer que há aqui um exemplo de sustentabilidade ambiental e social.

Para encerrar esta pequena reflexão sobre a religião, no caso presente a religião cristã e a sustentabilidade, trato da passagem em que Jesus, na condição de preso político é torturado, julgado sem direito a defesa e condenado à morte na cruz. Uma morte reservada, naquele tempo e naquela comunidade judaica, sob domínio do império romano, aos que mereciam a morte mais indigna possível. Entre dois ladrões e associado a essa condição, Jesus ouve a multidão que foi assistir ao seu martírio insultá-lo e um dos ladrões começa a provocá-lo dizendo “Você não é Deus? Então salve a você mesmo e a nos também”. De todos os lados as pessoas pedem uma demonstração de poder de salvar-se livrando-se da cruz. Jesus permanece na cruz porque o poder supremo era ficar nela e cumprir o que imemorialmente se estabelecera como justificação: a morte, enquanto ruptura da ordem original do sistema de vida, só poderia ser vencida com o sacrifício de uma vida restauradora da harmonia previamente existente. O princípio que organiza o universo e o equilibra é o princípio da justiça. Assim, nesse episódio da cruz, o poder é serviço. O serviço gratuito, imerecido, que restaura uma ordem rompida. Nossa ideia de poder não tem esses componentes. Em geral o poder na nossa cultura é para alguma coisa. E esse objetivo nem sempre é em sim mesmo virtuoso. Jesus, ao ficar na cruz, estabelece o poder por alguma coisa. O poder tem significado quando tem causa e essa causa é generosa, está fora do utilitarismo egoísta do ator que exerce esse tipo de poder. A sustentabilidade política é a capacidade de extrapolar-se e fazer do poder uma oferta. Comumente se diz que Jesus morreu para nos salvar da morte que a ruptura adâmica nos trouxe. Mas o poder que Jesus exerce na cruz é a oferta não da salvação, mas da possibilidade de escolha para a humanidade, oportunidade de liberdade,  a oferta do exercício do livre arbítrio, de decidir-se pela salvação. Salvação essa disponibilizada com o sacrifício vicário, que é o sacrifício que restaura a condição de justiça do universo morrendo, sem pecados, no lugar do pecador.

Entendendo que o poder é uma delegação, que na democracia sua origem é o povo, o exercício do poder é representar e agir não em nome dos próprios interesses, mas no interesse público, sem corromper a fidelidade ao princípio ético da delegação do poder. Portanto, poder é ficar na cruz, não sair dela. É poder fazer, não para benefício próprio, mas para atualizar na própria vida o agir a serviço, servindo.

Há muitas outras passagens no livro sagrado dos cristãos que nos remete ao funcionamento de um sistema de forma sustentável, com seus elementos cumprindo ciclos, respeitando e valorizando as diferentes funções dentro do sistema, com capacidade de restauração para que o sistema funcione sempre. Não pelo mero desejo da eternidade, mas para poder servir aos interesses do fluxo sucessivo da vida que se desenrola no planeta. Mas no momento acredito que sejam suficientes os exemplos apresentados para a compreensão de como os cristãos tem a sua disposição um modelo civilizacional atual, embora escrito a muito mais de 21 séculos.


Jane Maria Vilas Bôas

Nasceu em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul em 1958.

Graduou-se em Ciências Sociais na UFRJ, em 1982 e especializou-se em Antropologia Social no Programa de Pós-Gradação em Antropologia Social dessa mesma universidade em 1984.

Desenvolveu a mobilização comunitária para a primeira experiência de orçamento participativo da Prefeitura Municipal de Rio Branco em 1985.

Chefiou a Coordenação de Pesquisa e Planejamento do Estado e finalizou a etapa nacional do Programa de Desenvolvimento Rural Integrado do convênio IPEA-BID, no Acre entre 1986 e 1988.

Chefiou a Seção de Apoio aos Projetos de Assentamento do INCRA-AC, com responsabilidades pelos projetos de Educação, Saúde, Infra-estrutura viária e de moradia, Associativismo e Comercialização da produção para 10 mil famílias assentadas no Estado entre 1988 e 1990, além de atuar como assessora da Superintendência na criação dos primeiros projetos de Reserva Extrativista no Estado do Acre.

Com a fundação da Federação das Indústrias do Acre em 1990 foi assessora na estruturação do Sistema FIEAC e responsável pela fundação do Departamento regional do SESI-AC, exercendo a função de Superintendente até 1994.

Entre 1995 e 1999 foi Gerente de Desenvolvimento Empresarial no SEBRAE-AC, desenvolvendo a adequação da metodologia e sua aplicação para projeto de desenvolvimento local visando gerar emprego e renda em Xapuri, Brasiléia e Epitaciolândia. Desenvolveu também o Programa de Capacitação Rural em seis comunidades de assentados no entorno de Rio Branco, um deles resultando em uma fábrica de laticínios de propriedade coletiva.

De 1999 até 2003 coordenou a articulação do Gabinete do mandato da Senadora Marina Silva com o Escritório Político na Acre. Entre 2003 e 2008 foi assessora de Gabinete no Ministério do Meio Ambiente, responsabilizando-se por temas sociais e pela organização da agenda da Ministra.

Em 2010 participou do Comitê de campanha da candidata Marina Silva, responsabilizando-se pelo diálogo com a organização da campanha para públicos de identidade confessional.

Entre 2011 e 2014 foi responsável pelo desenvolvimento do Projeto Acervo do Instituto Marina Silva, visando torná-lo um arquivo disponível para a pesquisa e projetos educacionais para desenvolvimento de uma cultura de sustentabilidade.

Em 2015 assumiu a presidência do órgão ambiental do Distrito Federal , o Instituto Brasília Ambiental – IBRAM.

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