Sociedade

“Sou e vim pra ser índio”

Por Mayara Jaeger

Quantas línguas se fala no Brasil? Quem pensou em uma, esqueceu ou talvez desconheça as mais de 200 línguas indígenas faladas em nosso país até hoje. Chega a ser quase inacreditável que se saiba tão pouco sobre as tantas etnias indígenas, sua cultura, história e diversidade. “Quase”, porque ao lembrarmos toda a violência que sofreram e sofrem os povos indígenas, nesses mais de 500 anos, todo esse desconhecimento se faz normal. Vidas assassinadas, expulsão de suas terras, conhecimentos desvalorizados.

No mês de abril, pelo menos, um pouco mais de luz é lançada sobre a questão indígena no Brasil. Recentemente pude ver um documentário, lindo e triste, que retratava histórias de crianças da Amazônia, das etnias Negarotê e Suruí. Nesse filme, vi a história da pequena Yara, assassinada por madeireiros, ao beber um suco envenenado que seria direcionado ao seu pai, que se posicionava contra a exploração da madeira. Não sei quando foi isso, mas sabemos que não foi a única nem a ultima criança indígena a ter um desfecho cruel assim. Chorei a morte de Yara, como se fosse a morte de um pedaço de mim mesma. E era, e é.

Quando penso em felicidade, poucas imagens conseguem me transmitir tão bem esse sentimento como a expressão de uma criança indígena brincando nas águas do rio. Mayara é meu nome, carrego, acredito, em mim um pouco do peso e da força da luta indígena, ainda que tão distante, mas também dessa alegria que é o viver. E é por isso que sigo, acreditando nos filhos e filhas das matas e dos rios.

Existir já é resistir. E quanta resistência! Guerreiros e guerreiras incansáveis e pacientes, que compreendem o tempo e a potência da natureza. Os pés sentem a vibração da terra, os olhos olham dentro de outros olhos.

São tantas coisas que nossa sociedade ocidental capitalista poderia aprender com os povos indígenas, mas ao invés disso, só consegue marginaliza-los e encurrala-los dia após dia, lutando pelo seu direito de existir. A cosmologia dos povos da floresta nos traria de volta o sentir e o respeitar a natureza, e uns aos outros.

Que possamos utilizar esse momento para agradecer sua existência e sabedorias e para refletirmos como podemos nos unir aos nossos irmãos e irmãs nessa luta por uma outra forma de ver e interagir com o mundo, por outra forma de existir no mundo. Que possamos ser e sentir mais as dores e os ensinamentos dos povos da floresta!  Que todo o sangue indígena derramado  entre pela terra e ajude a brotar as flores da esperança de novos tempos. É urgente!

Mayara Horta Jaeger, cientista ambiental e militante socioambiental.

 

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