Cultura de Direitos Entrevistas

Somos todos responsáveis pela educação para a cidadania!

Foto: Professor Murilo Peixoto da Mota

 

Rafael Santos: Professor, qual sua avaliação sobre os desafios da educação contemporânea?
Murilo Mota: Primeiramente obrigado por podermos dialogar sobre um tema tão desafiador como esses que você me aborda agora. Posso te garantir que tenho novas perguntas nem tantas respostas para estas interessantes questões.

Quando falamos em educação contemporânea vem logo em nossa cabeça a instância da escola como instituição total para a formação da cidadania e civilidade. Mas não é a única. A educação tem amplos sentidos e a família, a comunidade, as religiões têm influência estruturante na formação moral do indivíduo moderno e a promoção das relações civilizadas. Mas o lugar da escola é diferente dos espaços religiosos e familiares, a escola tem o papel da formação para uma ética relacional tendo como principio a promoção dos direitos humanos.
Penso que somos todos responsáveis pela educação para a cidadania. Mas a escola ainda é a instituição construída por esta sociedade para assumir o ideal de educar para formar sujeitos capazes de promover conhecimentos e o aprimoramento da qualidade de vida. Mas a escola não é neutra assim como não há neutralidade política frente a uma posição que seja mais libertária e comprometida com a diversidade em todos os sentidos capazes de garantir a amplitude dos direitos humanos.
Mas a pergunta que não quer calar está subjacente a essa que você me faz: qual o papel da escola neste cenário onde se agrava desigualdades no campo racial, sexual, classista e sexista em que a violência banaliza a vida? Então, me coloco de frente para a sua questão com a humildade. Cabe contextualizar, a partir da influencia da mídia, da internet e seus efeitos em nosso cotidiano, o quanto passamos a trilhar um caminho sem volta, envolvidos em redes sociais onde o “eu” e o “outro” estão interligados em contextos, espaços e territórios virtuais, que influenciam e transformam nossas identidades o tempo todo. Neste contexto, há perdas e ganhos. O meu “eu”, ou seja, o que exponho de “mim” não é mais unificado, possui múltiplas possibilidades de ação no espaço social, público e privado são questões sem fronteiras. Para cada território onde “me” coloco se dá um novo sentido de “mim”, cada vez mais multifacetado com identidades que possibilitam aprimorar o que esse “eu” tem de melhor para ser aceito, compartilhado e elogiado pelo grupo de convivência, que venha massagear o ego e interesses cada vez mais individualista. Mas essa conjuntura também expõe que esse meu “eu” tem muito de destrutivo. Há um contexto em que passa ter prazer no espetáculo perverso da perseguição e humilhação do “outro” principalmente aquele diferente de “mim”. Pela diferença da cor da pele, nacionalidade, posição econômica, orientação sexual, religião, local de moradia, corpo (gordo, magro, alto, baixo) “me” sinto autorizado a me divertir com o “outro”, que “me” incomoda por ser diferente por isso, não tem meu reconhecimento como pessoa. O pior é que esta sociedade do espetáculo, perversa e segregadora parece se consolidar neste Século XXI como sentido de verdade. Neste contexto, a escola espelha o que é a sociedade, território de todas estas contradições que estão sendo percebidas e vividas no cotidiano.
Segundo Zygmunt Bauman, tudo tem certa liquidez nada mais está seguro. Assim, na sociedade contemporânea o individualismo, a hiper valorização do “meu ego”, a fluidez e a efemeridade das relações se caracterizam. Então cabe indagar, até que ponto nós estamos no contexto da contemporaneidade mais livres, mais civilizados, mais comprometidos com a diversidade, com a tolerância e com as diferenças? Lamentavelmente, o que se percebe é que nós não estamos. Parece que o Século XXI nos afoga em muitos retrocessos e perdas de direitos, cujos parâmetros se sustentam como efeitos de verdade que funcionam como norma e tem a eficácia de construir sujeitos cada vez mais submissos, política e economicamente. Cada vez mais corpos dóceis, disciplinados, subjugados a certo tipo de norma reproduzem os efeitos simbólicos de uma doutrina ideológica ditada pelo mercado de consumo.
Então, o desafio da educação que se explicita na contemporaneidade é imenso. Expõe a necessidade de se reverter o que durante séculos se acreditou ser o caminho da verdade: buscar transformar multidões confusas, inúteis, perigosas ou subversivas em uma massa organizada e controlada em prol do ideal de sociedade disciplinar e de controle sob a égide do livre capital. Parece que essa sociedade, que está em nós, que somos nós, está trilhando um caminho que se constituiu para domesticar a diversidade, impor uma ordem e o sentido de normalidade, a partir de parâmetros que impõem a hegemonia do homem branco, de camadas médias, heterossexual.
Essa sociedade em que estamos inseridos nela, hoje, foi construída para incidir sobre os corpos. Para os corpos toda uma força e poder de controle, mais do que sobre a terra e seus produtos. O corpo vem sendo administrado pela hegemonia da dominação masculina e manutenção da produção capitalista. Como nos ensinou Michel Foucault, é preciso normatizar os corpos, neutralizá-lo de qualquer forma subversão, enquadrá-lo na heterossexualidade, na prática sexual reprodutiva e nos papéis de gênero, para assim, exercer o controle de maneira continua e pela vigilância. Isso produzirá corpos dosséis e economicamente menos custosos para o sistema hegemônico. Há um projeto definido para isso. Quando vemos o sucateamento das Universidades, vemos a UERJ na situação em que está. As escolas sem infra-estrutura e os salários dos professores como migalhas. Destruir a Universidade e a escola é parte de um projeto político, uma perspicaz implantação de um cronograma de ações que visa à alienação dos sujeitos e a manutenção do Status Quo.
De todo modo, difícil fazer uma avaliação sobre os desafios da educação na contemporaneidade. Mas posso compartilhar uma questão, uma preocupação, o que me desafia: – pesar mais sobre as consequências dessa sociedade do controle e da disciplina e os sentidos produzidos por ela, que aponta para a construção de sujeitos sob efeitos de valores próprios da barbárie, que desqualificam o “outro” diferente – e a escola com isso?

Rafael Santos: No contexto escolar, homofobia é bullying? Como combater? Como se defender? É possível realizar uma interface com os temas para educação voltada para cultura de direitos?
Murilo Mota: Não vamos ser românticos ingênuos em afirmar que a escola é a pura instituição libertadora, educadora, eficaz na produção de civilidade. A escola pode ser isso, mas é antes uma instituição produtora de distinções. A instituição escolar é cúmplice e produtora da sociedade disciplinar. O problema é que, grosso modo, as relações de poderes existentes entre professores e alunos não têm efeito libertador, que possibilite saídas críticas para esse mundo em que a vida não tem valor. Os professores estão cada vez mais acuados, sem esperanças em meio a este sistema que visa à formação de mão de obra barata e tecnicamente eficaz para a fábrica, indústria e todo esse sistema que mantém as relações como desiguais. Esse projeto que robotifica os sujeitos como mão-de-obra barata para o mercado tem nome: – é a “escola sem partido”, “educação religiosa”, “educação sexista não construtivista” que se nega o debater a sexualidade e as relações de gênero como questão fundamental para a cidadania. Nesta conjuntura, o professor entra como um supervisor das metas a serem alcançadas e repassadas dentro de um manual moralista que não atinge a ninguém.
O que há agora? Amplo estranhamento entre professores e alunos, que é claro, não é uma situação recente. Há um evidente mal-estar entre alunos e professores construídos por anos, desde a ditadura militar. Mas não quero aqui ser tão pessimista. Há de um lado, a evidência de uma escola que atende aos requisitos da dominação, reforça as diferenças ao invés de promover a igualdade e a liberdade respeitosa que sonhamos. Mas por outro lado, essa escola também impulsiona a transformação de valores, ou seja, ainda é a única instituição capaz de promover a igualdade perante a lei e a tolerância em relação às diferenças sociossexuais a partir de parâmetros condizentes com os direitos humanos.
De todo modo, não há como fingir que não percebemos, a escola está em xeque, o sistema escolar está em xeque. E os professores afrontados com o aluno “sem limites”. Esse aluno vem para a escola com noções interiorizadas, que permeiam o sentido de violência e a segregação como ação natural advinda de sentidos aprendidos na família e na comunidade. Cabe ressaltar que esse aluno é construído numa sociedade disciplinar em que ele se rebela, não criticamente produzindo novos sentidos mais libertadores entre as relações, mas se rebela a partir de um olhar que se afirma: – se o “outro” de diferente de “mim” ele não presta! Se não é igual a “mim” posso injuriá-lo, constrange-lo, eliminá-lo. São noções aprendidas extramuros escolares.
O racismo, sexismo, machismo, homo-trans-lesbofobia, capacitismo, gordofobia e intolerância religiosa correspondem a valores ligados a construção de uma linguagem corporal baseada na intolerância. Todos estes efeitos estão interligados, mas suas produções têm campos de construções sociais autônomas.
Se pensarmos bem, grosso modo, racismo, sexismo, machismo, homo-trans-lesbofobia, gordofobia, capacitismo se pautam por um discurso construído a partir da supremacia da dominação masculina branca e classista, cuja ideologia se naturalizou como norma na sociedade brasileira por séculos. Assim, como exemplo bem rasteiro cito as piadinhas que estão na ordem do dia e permeia os efeitos simbólicos dessa dominação. Por muito tempo isso perdurou como um fato normal nas conversas, nas relações.
O bullying vem muito a reboque desse contexto em que, de maneira sistemática, se violenta física e simbolicamente o “outro” diferente de “mim” como se esse diferente não importasse e injuriá-lo me divertisse. Mas não existe uma “receita de bolo” contra o bullying. Cada escola com todos os seus agentes profissionais devem estar de olhos abertos para combatê-lo. Esse combate faz parte de uma urgência eminente. É um trabalho diário combater as ações que humilham qualquer sujeito no recinto escolar.

Rafael Santos: Atualmente, a homossexualidade vem sido debatida em vários espaços, em seu livro lançado recentemente há uma abordagem sobre os dramas do homem moderno. Como seu trabalho contribui para o contexto escolar que tem que lidar com esses dramas cada vez mais emergentes?
Murilo Mota: Em meu livro “Ao sair do armário entrei na velhice… Homossexualidade masculina no curso da vida” analisei as experiências de homens gays com mais de sessenta anos. Nestas narrativas ficam evidentes como estes sujeitos percebem a sexualidade e as interações de sociabilidade no circuito gay carioca, ainda muito hedonista, sob o crivo da valorização do mito da eterna juventude.
As histórias destes homens entrevistados no livro fizeram parte de uma geração marcada pelo movimento hippie dos anos 1970, embora, no Brasil, encontrava-se o auge de uma ditadura militar terrorista e fascista. É claro que o enfrentamento desta situação política levou a certos maneirismos relacionais, pois as práticas homossexuais também faziam parte do aparato de controle e repressão militar. O que exigiu estratégias de convivência no âmbito da vida pública e privada em diversos contextos da sociedade e com imenso impacto emocional na vida de cada um.
No livro analiso as trajetórias de vida dos gays e como elas se constroem sob inúmeras perdas sociais que levaram muitos destes indivíduos a sublimarem seus desejos, manterem relações heterossexuais no casamento para encobrir suas homossexualidades. Então, o título do livro resgata uma fala de um entrevistado na qual ele diz: “ao sair do armário entrei na velhice”. Foram anos de luta para auto-aceitação até que chegou a maturidade, que também acentua perdas.
O que se percebe na geração destes homens com mais de sessenta anos são as transformações ocorridas que deram margem para que hoje possamos falar e lutar com mais força sobre o que denominamos de diversidade sexual como luta política. Esses homens viveram os efeitos das revoltas gays, em 1969, desencadeadas por uma batida policial no bar Stonewall, na cidade de Nova York, que se tornaram um símbolo de luta. Assim, Stonewall passa a ser considerado o nascimento do movimento contemporâneo do Orgulho Gay. Mas também viveram o auge de suas experiências sexuais nas décadas de 1980 e 1990 onde acontecimentos históricos marcaram e influenciaram os indivíduos nas questões que envolvem a homossexualidade e a construção da identidade gay no espaço público. O impacto da pandemia do HIV/AIDS; a transição da perspectiva patologizante na qual a homossexualidade que era tida como uma doença para uma de direitos, no âmbito dos novos movimentos sociais; o processo de construção de um circuito cultural nas cidades brasileiras com a criação de espaços livres para um ambiente de sociabilidade LGBT; a evidência do evento da Parada Gay; os Festivais de Cinema Gay e popularização dos seriados ampliando repertórios de análise da diferença entre os diferentes; e, o emergente movimento LGBT com estratégias políticas ampliadas de agenda globalizada que inclui denunciar o neoliberalismo engrossando o movimento de esquerda com outras pautas além das já inclusas em contexto feminist, como a ecológica, ante-xenófoba etc.
Considero que meu livro não fala sobre uma especificidade da homossexualidade de gays velhos, mas tem uma amplitude de abordar fatos que dizem respeito ao homem moderno, que aprendeu a driblar os amplos sentidos simbólicos que impõe a norma heterossexual como única possibilidade de aceitação social.
Outro aspecto apontado no livro é mostrar o quanto as gerações são impactadas por transformações sociais que possibilitaram hoje viver numa sociedade mais tolerante. Quando vejo casais gays ou lésbicas se abraçando com carinho no metrô, na praça pública percebo um sinal de mudanças sociais. E tudo isso são resultados de uma luta política de gerações anteriores que deram a cara para o enfrentamento, cabe as gerações atuais darem prosseguimento. Quem tiver interesse no livro pode mandar um e-mail.

Rafael Santos: Você faz parte do grupo Ganimedes como funciona? Quem quiser se envolver o que tem que fazer?
Murilo Mota: O Ganimedes Grupo de Estudos e Pesquisa em Diversidade Sexual e Direitos Humanos é um laboratório do NEPP-DH/UFRJ. Fazem parte alunos do mestrado, da graduação e simpatizantes ativistas LGBTs. Temos atividades abertas para participantes externos no curso de extensão com encontros presenciais. Vamos inaugurar nossos encontros abertos de grupos de leitura. Estamos finalizando uma pesquisa que fala sobre as histórias do “sair do armário” através das gerações.
Obrigado pela entrevista.

Murilo Peixoto da Mota é PhD em Serviço Social pela Escola de Serviço Social da UFRJ; Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da FIOCRUZ; Bacharel em
Ciências Sociais pela UFRJ; Sociólogo da UFRJ lotado no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos – NEPP-DH/UFRJ. É Vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação Lato Sensu Políticas Públicas e Cultura de Direitos – NEPPDH/UFRJ. Coordenador do laboratório de pesquisa Ganimedes – Grupo de Estudos e Pesquisa em Diversidade Sexual e Direitos Humanos. Editor da Revista METAXY do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas do NEPP-DH/UFRJ. muriloufrj@gmail.com

 

 

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