Educação

Sobre educar e resistir

Annelize Tozetto

Fechamento de turmas. Salas de aula super lotadas. Salários atrasados.
Professores de uma área de formação muitas vezes dando aula de outros assuntos para que se feche as horas do concurso. Falta de estrutura no ambiente escolar. Perseguição política. Esses são alguns dos problemas enfrentados por professores da rede pública de ensino – seja no Rio de Janeiro ou no Paraná.
Além disso, a rotina escolar é massacrante: diário de classe, trabalhos em
grupo e individuais, provas (formulação e correção), semanas temáticas. Tudo isso que faz com que o ser humano por trás do educador fique doente (seja física ou mentalmente).

Professores excelentes, que mudam a forma de pensar do aluno, que garantem que ele esteja sempre aberto ao debate e que muitas vezes reconhecem de longe quando algum aluno está passando por problemas fora do ambiente escolar, “do dia para a noite” precisam ficar afastados das salas de aula porque também precisam se cuidar para não surtar (quando não são afastados depois do surto).
E eles precisam cuidar da saúde física e mental porque professores são
capazes de mudar o destino de muitos.

Luccas Cechetto, em um texto recente, fala sobre “Cuidado e Coletividade na Militância” e que pode ser levado para a educação.
Diz ele: “É impossível falar em indivíduo sem falar em coletivo, do contrário do que o capitalismo e seus discursos hiperindividualizantes tentam nos convencer e superar essa lógica é dever de todos/as nós, especialmente em momentos tão graves como o que estamos vivendo. As condições de existência para quem está dentro ou fora da militância têm sido muito duras e isso tem acabado por nos embrutecer cada vez mais.
Se não nos debruçarmos urgentemente sobre o debate do cuidado e da coletividade, atendência é acabarmos reproduzindo e intensificando, dentro da própria militância, as violências que sofremos fora dela. “. Ou seja, se não cuidarmos coletivamente dos nossos professores, se não nos interessarmos pelo que acontece no Ensino, nós vamos desgastar nossos educadores a ponto de afastá-los da educação.

Muitas vezes também os alunos se afastam da sala de aula.
Ora, nós enquanto sociedade deveríamos querer que os alunos estejam
conscientes e preparados para o mundo. Deveríamos querer que eles estivessem instigados e que se movessem (assim como fizeram em 2016, ao ocupar mais de 800 escolas no Paraná). Paulo Freire defendia a educação como forma de conscientização do aluno, para que ele entenda muitas vezes a opressão vivida para que possa se libertar.

Segundo a Nova Escola, “Freire condenava o ensino oferecido pela ampla
maioria das escolas (escolas burguesas), que ele qualificou de educação
bancária. Nela, segundo ele, o professor age como quem deposita conhecimento num aluno apenas receptivo, ” dócil ”. Ou seja, seria uma doação de conhecimento daqueles que se julgam detentores do saber. Freire fala que era então uma escolar alienante mas não menos ideologizada do que a que ele propunha para despertar a consciência dos
oprimidos ; a educação que defendia tinha a intenção de inquietá-los.
Que nesse 15 de outubro a gente dê maçã (ou qualquer outra coisa) para os
nossos professores mas lembre também do papel fundamental que ele exerce na vida de cada um e na vida em sociedade. Que estejamos sempre abertos aos que eles nos dizem e que estejamos lado a lado nas lutas.

Annelize Tozetto é jornalista formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa,
fotógrafa formada pelo Centro Europeu e especialista em jornalismo literário pela
Associação Brasileira de Jornalismo Literário / FAVI. Faz parte do Revista Vírus e do
Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta.

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