Pilares da Reflexão Sociedade

Sobre ansiedade e outras questões

Nas últimas duas semanas, em específico, e também de tempos em tempos, apareceram incontáveis textos, das mais diversas fontes, sobre como a ansiedade faz as pessoas fazerem algo ou o que realmente significa ter ansiedade. Ciente da sensibilidade do assunto — já que não há intenção alguma de desmerecer a dor de ninguém que, sem dúvidas, é intensa e real para quem a sente — eu tento, nas próximas linhas, remover um pouco do verniz internalista e individualista que muitas das interpretações do nosso sofrimento (e dos outros) podem causar.

Para não enrolar muito, acho importante apresentar a ideia central do texto: a sua ansiedade não faz você fazer nada. Ela é você fazendo algo. É você tentando se relacionar com os recursos que você tem disponíveis. É, portanto, a tentativa de fazer o melhor possível, com o que se tem acessível no leque de aprendizados da vida e nos recursos do próprio organismo. Essa premissa, já adianto, não tem função demarcatória ou preciosista. Ela expressa uma concepção de ser humano e de mundo em disputa e que interfere nas compreensões que temos dessas questões e nos encaminhamentos disso decorrentes. É, portanto, uma ideologia — que a depender da discussão pode ser tanto no sentido “neutro” (conjunto de concepções sobre o mundo que se expressa em uma sociedade) como no crítico (convencimento persuasivo que tem como consequência a formação de uma falsa consciência); mas esse não é um debate para agora.

Sob pena de prolongar demais o texto, acredito que seja importante detalhar um pouco mais a noção de que a ansiedade não te faz fazer as coisas, mas é você fazendo algo. Na perspectiva teórica que eu sigo (não menos isenta das críticas que apresento aqui) — o behaviorismo — compreendemos que sentimentos ou estados emocionais não causam comportamentos; eles são comportamentos. Da mesma forma que não faz sentido dizermos que comemos porque temos fome, batemos em alguém porque estamos bravos, choramos porque estamos triste, não faz sentido dizermos que a ansiedade nos faz fazer algo. Comemos e temos fomes. Ficamos bravos e batemos em alguém. Ficamos tristes echoramos. Vale um exercício simples aqui, toda vez em que sentimos fome, comemos? E quando estamos bravos, sempre batemos em alguém? O que pode, então, ser a principal variável nesses exemplos? Seria, principalmente, o como aprendemos a nos relacionar nesses cenários e o que temos disponível (tanto enquanto organismo quanto no meio) no momento em que precisamos nos comportar. Vou tentar exemplificar isso ao longo do texto.

A prevalência de transtornos de ansiedade no Brasil ano passado era de 9,3%, segundo a OMS (a maior do mundo, vale ressaltar), mas só na minha linha do tempo do FB a prevalência deve ser o triplo. Isso quer dizer que essas pessoas estão todas de mimimi e querendo atenção? Quanto ao mimimi, eu acho bem pouco provável; querer atenção em tempos como os nossos, no entanto, é quase uma condição, não apenas uma consequência. O fato, para não desviar muito, é que o sofrimento dessas pessoas — nosso — é real e, entre o rol de explicações e soluções que o capitalismo oferece, nos identificamos mais com esse ou aquele, geralmente segundo a opinião de um especialista (ou de textos da internet).

O problema com isso está no fato de que essa explicação e solução já vêm imbuídas de uma ideologia que dificilmente discriminamos, como fica bem explícito nos textos que descrevem quadros ansiosos como aqueles em que se diz que: “Minha ansiedade me faz duvidar do meu valor, o que me leva a duvidar de todo mundo ao meu redor.”; “Ansiedade é um estado constante de preocupação, pânico e viver no limite. É viver com medos irracionais.”; “Ansiedade é tentar compensar e agradar demais outras pessoas.”. Todas afirmações apontando para dimensões internas — subjetivas — do ser humano, ainda que de maneira bem generalizada. Todas dizendo respeito a críticas dirigidas a si mesmo/a relacionadas a pressupostos reforçados pelo capitalismo de como “ser um humano”.

Se há similaridades nos padrões de sofrimento, como nos fazem crer os manuais diagnósticos e os textos impactantes, será que a explicação está apenas, ou fundamentalmente, em desregulações internas — seja da ordem neurobiológica, seja da “mente” ou qualquer outra instância interna? Parece óbvio que não, uma vez que não é difícil que alguém concorde com o fato de que as nossas condições de vida e acesso a recursos nos afetam diretamente na lida com o que nos incomoda.

Mas é mais do que apenas ter ou não ter acesso a condições de vida adequadas. É entender que essa relação com o sofrimento não é um acidente ou erro de percurso. Não é uma falha de caráter ou fraqueza. Não é incompetência ou incapacidade de fazer diferente. É um projeto, ideológico, que nos ensina não só a defender tal ideologia, como promove explicações que a legitimam, como as muitas que as diversas interpretações senso comum (e apropriações) da Psicologia divulgam.

Há de se destacar, entretanto, o quanto as próprias Psicologias contribuem para isso, com grande déficit de diversidade em seus quadros teóricos canônicos, fundamentando teorias de personalidade, sofrimento, indivíduo etc. (e suas relações com a estrutura), essencialmente, na interpretação feita pela branquitude heteronormatizadasobre essas questões. Não por acaso teorias psicológicas tão frequentemente caírem no erro de padronizar aspectos da personalidade ou sofrimento, tendo, por muito tempo admitido, no máximo, distinções entre homens e mulheres (héteros e brancos/as) ou entre estágios da vida apenas.

O que o projeto em curso nos ensina, principalmente, é a como se relacionar com o mundo e com o nosso sofrimento. A ênfase em determinadas habilidades (acadêmicas, técnicas, sociais: quase todas direcionadas pro mercado de trabalho), a concepção individualizante de sofrimento e o incentivo à competição — por si só — já seriam, e são, geradores potentes de ansiedade em qualquer indivíduo (não por acaso estes serem os traços comportamentais com prejuízo, junto aos da depressão, mais relatados e observados em nossa sociedade).

Isso quer dizer, então, que não há dimensão individual (ou subjetiva, como muitos fazem questão de usar como se isso atribuísse uma dimensão pinguinho de luz ao ser humano) no sofrimento? Tanto quanto um ser humano pode ser unicamente indivíduo. Há questões genéticas nas sensibilidades aos estímulos do ambiente, particularidades nos processos de aprendizagem de cada um; certamente. Mas o ser humano é tudo isso e também suas relações. Não um ou outro em algum momento. Construímos nós mesmos e os outros e somos construídos em nossas relações, inclusive no que diz respeito à nossa interpretação e relação com o sofrimento.

Por que será que os relatos de pensamento e sofrimento da maioria das pessoas diz respeito a valores que são considerados essenciais pelo capitalismo? Nos textos que mais circularam em minha bolhinha nas últimas semanas o que aparece em comum são as expectativas de valorização, as preocupações constantes, os prejuízos ao ritmo de sono e vigília (numa retroalimentação) etc. Todos muito reais, e muito relacionados a valores capitalistas. No entanto os discursos mais frequentes atribuem isso a algo dentro da gente (o cérebro ou a mente) e não a uma construção a partir de nossas relações com o mundo.

Se concordarmos que isso surge a partir das relações com o mundo, então porque só o indivíduo é o/a responsável por resolver isso? Prontamente surgiriam respostas (eu mesmo uso algumas delas mais vezes do que gostaria) como: “porque você não pode controlar os outros/o mundo”; “porque as pessoas são assim mesmo”; “é cada um por si mesmo”, e outras tantas desesperanças por aí.

Ora, é certo de que apenas “nós mesmos” podemos nos colocar na direção de mudar a maneira como nos relacionamos com o mundo e de lidar com as dores disso decorrente. Mas nunca vai ser só “nós mesmos”, de fato. Sempre precisaremos de uma rede mínima de apoio, disponibilidade de informação em algum nível, e o próprio acesso a isso já determina mais uma variável de sofrimento.

Além disso, não quer dizer que nosso sofrimento só diz respeito a alguma dimensão interna e individual que nós mesmos precisamos enfrentar. Que nós devemos aprender a ser ~resilientes~; essa palavra tão bonita e tão ideologicamente alinhada ao capitalismo — que nos convence de que o que precisamos é aprender a ter mais “inteligência emocional”, pensamentos positivos, postura proativa, otimismo, e tantos outros privilégios por aí. Ou seja, como nos conformarmos melhor à violência projetada.

É importante enfatizar que a legitimação desse projeto ideológico não se dá, na maioria dos casos, de maneira perversa, maniqueísta ou intencional. Nós a validamos e a reproduzimos o tempo inteiro. Não poderia ser diferente, sendo uma visão de ser humano e de mundo tão enraizada em nossos processos de aprendizagem. Superar essa lógica envolve passar por mais sofrimento e por questionamentos, muitas vezes, sem resposta. Mas aponta para mais autonomia e condições de construir alternativas, ao invés de conformações.

Para além das necessárias perguntas em qualquer situação de sofrimento como: “Qual meu papel nisso?”; “O que eu não estou conseguindo fazer que pode estar contribuindo pro meu sofrimento?”; “O que acontece quando eu me comporto assim?”; “Qual o efeito em mim e nos outros?”; etc., será que não é igualmente válido nos questionarmos sobre os porquês de termos aprendido a nos relacionar dessa maneira, ou de tanta gente se relacionar com o mundo e consigo de modo que sofrem intensamente, ou quais os tipos de habilidades para se relacionar que nos são ensinados nas mais diversas esferas de aprendizado e porque isso persiste, mesmo fazendo mal a tanta gente, ou ainda, porque é um privilégio poder rever o meu papel no sofrimento que eu sinto, ainda que as condições de se relacionar existentes impactem todos/as?

Longe de invalidar a própria dor, essas questões apontam na direção de uma responsabilização coletiva pelos sofrimentos, no sentido de nos atentarmos a e de disputarmos os modos de se relacionar que são valorizados pelo projeto vigente.

Nós podemos até aprender a desenvolver mais resistência à violência da ideologia capitalista, mas nessa perspectiva esse será o máximo que conseguiremos, senão entendermos que tanto quanto nossas questões “individuais” (se é que é possível algo ser só individual),o projeto ideológico capitalista é responsável pelo nosso sofrimento.

Mas se o capitalismo não é um ente abstrato, fruto do controle de reptilianos ou uma nova ordem qualquer, e é tanto as pessoas que o impõem à força (nas quais, talvez, poucas esperanças se possa ter de um olhar coletivo) quanto as pessoas que o legitimam em seus discursos e práticas, parece que não há o que se possa fazer. Voltamos ao problema do “as coisas são assim”, “não tenho controle sobre isso”, e o jeito é garantir o meu porque não tem como mudar isso.

Por mais que essa conclusão não seja de todo absurda, ela responde mais à visão de ser humano e mundo que critico aqui — individualizante e internalista — do que a uma que permite reaprendermos a nos relacionar e que não coloca dentro da gente toda a responsabilidade por como lidamos com nosso sofrimento.

Compreender nossa dor como produto das relações desse organismo que se comporta com e no mundo que o cerca, assim como as estratégias que aprendemos para lidar com isso, nos coloca em condições de olhar pra essas questões com uma perspectiva de que não só é possível aprender a se relacionar de maneira diferente, como não é de nossa responsabilidade individual as condições para que menos “medos irracionais” (considerando o controle exercido pelo Capital, de irracionais nossos medos têm nada) exerçam tanto controle sobre nossas vidas.

Não há uma receita mágica para isso e poder acessar auxílios como a da terapia medicamentosa ou psicoterapia de qualidade são privilégios disponíveis a poucas pessoas (seja no SUS ou nos consultórios privados). Construir condições para que a aprendizagem sobre nossa relação conosco e com o mundo seja pautada em valores coletivos, solidários, acolhedores e promovedores de autonomia é uma tarefa por demais ingrata em nossa conjuntura atual, mas pode ter, em longo prazo, efeito muito mais terapêutico para os em constante crescimento índices de transtornos de ansiedade e depressão.

Enfim, a pretensão deste texto não é diminuir a dimensão individualmente sentida por cada um em seu sofrimento, mas sim enfatizar que tanto essa percepção individual como o sofrimento em si carregam profunda relação com a ideologia vigente e não apenas com nossas limitações (que também são, muitas vezes, expressão dos produtos das visões de ser humano e mundo correntes). Superar as condições desse sofrimento depende, portanto, não apenas de insights e aprendizados de novas habilidades, mas também de conseguir construir condições para que a lógica em que esse sofrimento é necessário para a sustentação de um projeto ideológico seja completamente eliminada.

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