Por: Marcos Woortmann

É de comum percepção a crise profunda que se abate sobre o indivíduo nos tempos modernos, com uma epidemia de depressão, violências difusas e explícitas e a automedicação para fins de sustentar o dia a dia. No seio desta profunda desconexão do indivíduo consigo mesmo, também a sociedade desconhece os rumos para onde trilha seus caminhos, pela primeira vez vivendo num mundo novo onde os antigos não conseguem ensinar os mais novos, onde se vive sem um mapa por onde trilhar, num mar aberto e com dúvidas profundas sobre o barco em que navegamos – seja ele nosso país, nossa família, ou mesmo nossa religião.
A desconexão com a vida interna com nossas interrelações profundas e subjetivas, a falta de auto-conhecimento dessa forma plena de si que somos nós, mesmo que passageiros por sobre a Terra, tem consequências para muito além das vida que vivemos. Não é possível projetar um equilíbrio no mundo que não se têm, e essa é a razão das decisões não tomadas e do altruísmo que não se manifesta.  O medo tem levado o buscador a se defender daquilo que desconhece, que é sua própria natureza.
Somos, nós, todos seres humanos.  Na condição humana de incompletude, ansiamos sempre por algo. Ansiamos por amor, por aceitação, por pertencimento, por Deus ou por um mundo novo. Ansiamos por encontrar, por nos libertarmos, por sermos ou deixarmos de ser. Ansiamos sermos felizes, embora raramente saibamos o que nos traz felicidade, com desejos que geram novos desejos e terminam por ser aqueles a quem pertencemos, e não o contrário. Pertencemos a nossas roupas, nossos móveis, nosso carro, e nossa casa, muitas vezes mais que todas essas coisas nos pertencem, e com isso perdemos a liberdade de expressarmos quem somos. Temos demais e sabemos disso, mas não temos coragem de ter de menos para sermos mais. É arriscado.
O ser humano é na Terra algo único, não pela razão cognitiva que tantas vezes é esquecida, e que por sê-lo, muitas vezes o torna pouco mais especial que um animal com grandes habilidades de alterar o mundo em seu redor. O ser humano é algo muito especial, precisamente por saber que tem a chama da razão dentro de si, uma espiritualidade e nobreza profundas, e junto a tudo isso, continua sendo também uma espécie pertencente ao reino animal e que tem fome, tem sede, tem medo. Somos mamíferos, primatas, gregários e podemos nos classificar como uma espécie biologicamente agressiva, também. Contudo, como espécie já sabemos muito sobre nossa natureza, à luz do que a ciência nos ensina sobre o comportamento animal, à luz do que a filosofia esclarece sobre a razão que cogita a si própria, e à luz de todas as expressões do espírito que anseia profundamente manifestar-se pela arte, pela poesia, pelas sinfonias, pelo cuidado com a vida. Sabemos sobre nossa natureza também à luz da experiência profunda, da epifania de conexão com a vida que a experiência mística toca a muitos de nós e nos provoca a viver aquilo que não pode ser descrito senão pela própria experiência. Como descrever o saber do sal a quem nunca o provou? Esse é o grande desafio dos mestres, e o temos dentro de nós, seres humanos.  
Mestres, intelectuais e primatas assustados coexistem no mar da humanidade em pé de igualdade, igualmente todos humanos e igualmente legando ao planeta em que coabitam o efeito de suas vidas. Ainda são poucos aqueles que enfrentam o medo que sentem em suas frágeis embarcações, em cima das quais navegam sem saber por onde, sem a orientação de quem já haja conhecido aqueles caminhos. Somos nos tempos atuais uma humanidade inteira de exploradores, mesmo que muitos queiram apenas uma vida tranquila, pois não podemos prever como será nossas vidas em 10, 15, ou 20 anos. Apenas podemos prever que será diferente.
Sir Bertrand Russel discernia a diferença entre ciência e espiritualidade, uma como a razão última do ser humano, outra como uma profunda reverência pela vida. Temos atualmente a possibilidade de sabermos cientificamente que sem essa reverência, sem o cuidado pela vida, o patamar de auto-conhecimento a que o ser humano evoluiu corre um grande risco de desabar sobre o próprio peso daquilo que construiu.
Krishnamurti dizia:
“O autoconhecimento é cultivado através da busca individual de si mesmo. Não estou colocando o indivíduo em oposição à massa.(…) Você, o indivíduo, é a massa, o resultado da massa. Em nós, como você descobrirá se entrar nisso profundamente, estão os muitos e o particular. É como uma correnteza que está constantemente fluindo, deixando pequenos rodamoinhos e esses rodamoinhos chamamos de individualidade mas eles são resultado deste constante fluxo de água.”

É necessária a reverência profunda pela vida. A Carta da Terra, a Laudato Si, primorosa obra de ressignificação da relação do ser humano com a vida, pregada ao mundo católico, e mesmo a ciência mais rigorosamente construída têm a clareza que entramos na chamada era do antropoceno, quando o impacto de nossa presença no planeta passa a ser sentida pelo próprio planeta. Em suma, precisamos reformar nossa casa comum do desgaste que nosso uso, ampliando a todos os moradores dessa mesma casa o reconhecimento de igualdade perante o ser humano. Precisamos dos lírios nos campos se quisermos que os ensinamentos mais valiosos dos mestres cheguem a quem irá nos suceder na terra. Esses são os ensinamentos do silêncio interior e a presença na natureza. Esse silêncio também somos nós.

Marcos Woortmann, Cientista Politico e Mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília, é Líder RAPS e Administrador Regional do Lago Norte e Varjão pelo Governo de Brasília.
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