Sustentabilidade

Religião e sustentabilidade

Por: Vladimir Luís de Oliveira

É muito comum em contos ou narrativas xamânicas a descrição de ritos mágicos em uma viagem extraordinária ao mundo dos espíritos. Tais viagens somente são possíveis quando os homens fazem um contato mais profundo com a natureza que se coloca para além da consciência racional e ordinária.

Mediante danças ao som de tambores e outros instrumentos e cantos musicais, facilitados por alucinógenos ou plantas sagradas ou práticas respiratórias intensas, o xamã ou iniciado abandona seu corpo e adentra dentro do universo do sagrado, no universo dos deuses. Uma viagem perigosa, envolvendo experiências de morte e renascimento em uma dimensão arquetípica repleta de imagens, sons odores e que perpassam e transcendem  os sentidos corporais. Inspirando-se em Eliade poderíamos afirmar que o mito é uma experiência viva e real.

Há diversas experiências religiosas que envolvem o transe, a conexão interior, o contato direto com o divino e o rompimento com a consciência ordinária: xamanismos, budismo, jainismo, sufismo, o yoga e algumas experiências do cristianismo adentraram profundamente neste universo e expressaram em universos simbólicos distintos a experiência da alma conectada ao espirito Gaya – a consciência planetária.

A partir deste olhar, podemos deduzir que as religiosidades mais profundas foram aquelas que mantiveram ou recuperaram  a dimensão do sagrado manifesto na natureza  associada aos arquétipos da espiritualidade.

Quando a vivência do sagrado suplanta a consciência da espécie, pensando a espiritualidade para além do homem, possibilita-se a retração dos valores antropocêntricos que identificam a natureza como objeto, sem alma ou essência.

Em outro campo, a espiritualidade sensível pode buscar algo além da consciência sexista e androcêntrica, alimentada por um humanismo patriarcal e conservador e por um racionalismo autoritário que subordinou todas as demais formas de vida como inferiores e que representou a natureza apenas como um recurso a ser explorado e convertido em capital. Recupera-se o espírito do poder feminino do cuidado com equidade entre humanos e não-humanos.

A experiência do sublime que mulheres e homens vivem em que suas consciências individuais e que se conectam a consciência da biodiverdidade, é tida como uma das experiências mais sublimes, em que não há limites ou hierarquização entre as diversas formas de vida manifestas.

Em tradições xamânicas e em muitas religiosidades sensibilizadas por uma mentalidade ecológica profunda, todos os elementos da natureza, tais como a água, a terra, o fogo e o ar são entendidas como entidades vivas e conectadas profundamente com todas as formas de vida na natureza. Há uma sensível conexão entre espirito e natureza.

Não se pode vivenciar o sagrado em sua totalidade sem o locus do sagrado que são as florestas, os rios, as montanhas e os desertos.  Destruir a natureza à serviço da acumulação do capital é destruir o templo da própria espiritualidade. É como se o homem rompesse sua condição ontológica: o homo sacer – o homem sagrado passa a ser um ser fragmentado e exilado do cosmos aprisionado em sua vida enquanto espécie.

Quando religiosidade e espirito ecológico se tornam inseparáveis, a consciência planetária se estabelece. Há um continuum entre natureza e a sensibilidade humana que vive profundamente a experiência do sagrado.

Foi assim com são Francisco de Assis que dizia que todas as criaturas são filhos de Deus. Ou como expressa o sufismo, que a natureza e o universo em sua totalidade são seres vivos, perpassando pelo mundo manifesto da  natureza até as reinos interiores e espirituais. Ou como expressara Mahavira, o fundador do Jainismo, ao sustentar o principio do Ahimsa ou não-violência, isto é, jamais causar mal ou sofrimento a qualquer ser.

O grande desafio das religiões hoje está em conectar uma ponte entre a consciência mística com uma racionalidade sensível e ecológica. Permitir aos homens, mulheres e crianças se conectar ao espirito da terra e do planeta, vivenciando uma experiência e devoção a todas as formas manifestas e ou mesmo imanifestas da natureza.

Esta dimensão imanifesta do mundo sensível é encontrada nos mitos de diferentes espiritualidades. No pensamento hindu é constantemente descrita nas Upanishads com o Absoluto – Brahman, pois a mesma essência que está em mim, está em toda a natureza. No budismo é associado ao princípio do Boddhisattva, que é colocar-se à serviço do  bem-estar e a felicidade de todos os seres e de todas as espécies para além de nosso ego.

Como enfatizou Feuerstein em seu livro Yoga verde: a natureza reflete a imagem da humanidade que construímos, isto é, biosfera é uma percepção decorrente da noosfera, ou seja, do estado mental coletivo da humanidade. Enfim, é pela sensibilidade do espírito que nos reintegraremos novamente à natureza, pois, sem um espírito ecológico, não há uma humanidade possível.

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