Entrevistas

Racismo por Lilia Schwarcz

 

 

LILIA MORITZ SCHWARCZ

Lilia Moritz Schwarcz , nasceu em 1957, em São Paulo. É professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton (EUA). Seu livro As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos ganhou o prêmio Jabuti de Livro do Ano, em 1999. Além deste, publicou também: O espetáculo das raçasO sol do Brasil (prêmio Jabuti de melhor biografia, 2009), D. João carioca — história em quadrinhos sobre a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em co autoria com Spacca —, entre outros e Um enigma chamado Brasil, com André Botelho (prêmio Jabuti ciências sociais, 2010). Dirigiu a coleção História do Brasil Nação em seis volumes, sendo três volumes indicados para o Jabuti.

Em monumental biografia de Lima Barreto, Lilia Moritz Schwarcz investiga as origens, a trajetória e o destino do escritor carioca sob a ótica racial no Rio de Janeiro da Primeira República.

Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, com seu afiado olhar de antropóloga e historiadora, para realizar um perfil biográfico que abrangesse o corpo, a alma e os livros do escritor de Todos os Santos. Esta, que é a mais completa biografia de Lima Barreto desde o trabalho pioneiro de Francisco de Assis Barbosa, lançado em 1952, resulta da apaixonada intimidade de Schwarcz com o criador de Policarpo Quaresma – e de um olhar aguçado que busca compreender a trajetória do biografado a partir da questão racial, ainda pouco discutida nos trabalhos sobre sua vida. Abarcando a íntegra dos livros e publicações na imprensa, além dos diários e de outros papéis pessoais de Lima Barreto, muitos deles inéditos, a autora equilibra o rigor interpretativo demonstrado em Brasil: Uma biografia e As barbas do imperador com uma rara sensibilidade para as sutilezas que temperam as relações entre contexto biográfico e criação literária. Escritor militante, como ele mesmo se definia, Lima Barreto professou idéias políticas e sociais à frente de seu tempo, com críticas contundentes ao racismo (que sentiu na própria pele) e outras mazelas crônicas da sociedade brasileira. Generosamente ilustrado com fotografias, manuscritos e outros documentos originais, Lima Barreto: Triste visionário presta um tributo essencial a um dos maiores prosadores da língua portuguesa de todos os tempos, ainda moderno quase um século depois de seu triste fim na pobreza, na doença e no esquecimento.

 

Título original: LIMA BARRETO – TRISTE VISIONÁRIO
 

 

Rafael Santos, Geógrafo e Jornalista fez uma breve entrevista com Lilia Schwarcz, mesmo num breve momento a Professora Lili define alguns conceitos de comportamento.

O Livro Lima Barreto, Triste Visionário, vale a leitura e releitura pois nos traz um Brasil verdadeiro, uma personagem intensa e um visionário, Lima Barreto!

 

 

 

Entrevista realizada por Rafael Santos

Rafael Santos: Professora, você realizou uma pesquisa sobre racismo no Brasil e escreve sobre isso em seus trabalhos. Você acha que o Brasil hoje, se reconhece um pais racista ou ainda temos muito a avançar? 

Lili: Valem as duas respostas: o país se reconhece hoje em dia mais racista e temos muito a avançar. Tudo junto e misturado. Penso que hoje em dia não é mais fácil dizer que esse é o país da “democracia racial” pois ninguém desconhece os dados de discriminação e desigualdade existentes entre nós. Os próprios dados oficiais mostram como os afrodescendentes têm menos acesso à saúde, à educação, ao lazer e ao trabalho. Portanto, não há como negar o racismo estrutural existente no Brasil. Por outro lado, e pelos mesmos motivos, temos ainda muito a fazer. É preciso investir em educação, em políticas públicas e alterar esse passado que ainda se inscreve no presente.

 

Rafael Santos: Como a você enxerga o “racismo á brasileira”? 

Lili: Não existe qualquer racismo “ bom” ou “melhor”; todos são igualmente perversos. O suposto básico do racismo é criar uma desigualdade supostamente natural onde só existem desigualdades políticas, históricas e culturais. No nosso caso, não há nenhum qualificativo positivo. Fomos o último país a abolir a escravidão mercantil; recebemos 40% das populações africanas compulsoriamente transladadas para o Brasil e admitimos a existência de  escravos no território inteiro. Tal aberração histórica produziu um enraizamento cultural e a ideia de que a desigualdade é natural. Não é!  E não há nada na natureza que hierarquize os homens de maneira fixa, ontológica e essencial. Raças não existem. Apenas existem “raças sociais”, que é a maneira como os homens produzem e constroem a diferença.  

 

Rafel Santos: Datas como 13 de maio, tem apenas efeito simbólico em uma sociedade como a nossa?

Lili: Antropóloga que sou, acredito na eficácia política dos símbolos. Símbolos produzem realidades. Portanto, é importante usar o 13 de maio como um dia de conscientização. Nossa história oficial permite supor que a liberdade foi um presente. Um presente da princesa e dos brancos. Ora … ninguém tem com “dar liberdade”. Liberdade é um direito de todos. E ainda. Se existiram grupos abolicionistas importantes, o papel dos ex-escravizados, libertos, escravizados foi primordial nessa luta pela liberdade. Portanto, o 13 de maio tem que ser entendido como uma conquista; não como presente. 

  

 

Lilia Schwarcz, e o racismo no Brasil!
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