“A fala e a escrita para esses povos é exercício de poder”

Uma parte do projeto de alfabetização de adultos “Sim, eu posso”, que ocorreu no Maranhão em 2018, foi voltada para as populações indígenas, principalmente a etnia Guajajara, possivelmente o maior grupo indígena do Estado. Habitantes da zona rural, ameaçados pelo avanço do agronegócio, os Guajajaras mantém um contato regular com os brancos. Possuem lavoura de subsistência e comercializam algum excedente. Uma parte de sua comunidade já foi evangelizada pela presença da igreja neo-pentecostal (com bíblias em guajajara!). Com o avanço da política anti-indigenista do governo federal nos últimos anos, a escalada de agressão aos povos indígenas aumenta e os Guajajaras se tornam socialmente mais vulneráveis, agravando problemas como o acesso a saúde pública, segurança alimentar, uso da terra e, também, educação. Para contextualizar melhor um pouco a situação e eu conversei com a Vânia da Silva, coordenadora pedagógica do “Sim, eu posso” no Maranhão.

Como você vê a questão indígena no país hoje?

A questão indígena no Brasil tem sido o calcanhar de Aquiles da classe dominante, genocida, pois não conseguiram, nesses 519 anos de exploração e violência em nossas terras Pindorama, exterminar a população indígena. Eles [os indígenas] resistem com sua ancestralidade, espiritualidade, danças, cultura, hábitos e modo de vida. Resistem produzindo uma narrativa de construção de poder a partir de suas lutas pela terra, território, identidade, cultura. Estão construindo uma nova cultura política que tem na sua essência a luta em defesa do meio-ambiente, da vida na floresta, das águas e do ar. O mês de mobilizações em abril demonstrou a força dos povos, a unidade sendo construída a passos dolorosos, remando nos rios dos grandes projetos que buscam isolar a luta indígena. O nome desses povos é resistência.

Qual a situação dos Guajajaras no Maranhão?

Infelizmente as políticas públicas de assistência a saúde e educação é insuficiente e, na maioria das vezes, não chega nas aldeias de difícil acesso. O ensino fundamental e médio funciona ainda em lugares precários. Em algumas comunidades mais populosas, de fácil acesso, o Governo do Estado do Maranhão construiu escolas dignas, com estruturas apropriadas e melhores condições de ofertar uma educação de qualidade. A saúde indígena tem sido uma preocupação constante ainda mais agora que o Governo Federal realizou cortes no financiamento, medicamentos e médicos do programa Mais Médicos. No tocante às questões agrárias, essas comunidades vivem cercadas de fazendeiros, grileiros, empresas de plantação de eucalipto e empresas madeireiras. Sofrem constantes ataques de madeireiros que invadem suas terras, provocando mortes e todas as formas de violências. A maioria das terras Guajajaras foram demarcadas na década de 90 e depois homologadas.

Qual a importância para os Guajajaras se alfabetizarem em português?

É de fundamental importância a apropriação do código linguístico para se comunicar, tanto na oralidade como na escrita. A fala e a escrita para esses povos é exercício de poder. Podendo assim, denunciar e anunciar, com sua própria fala e do seu próprio punho, seus sonhos, reivindicações e luta. Uma outra questão é recuperar, pesquisar e aprimorar seu próprio código de linguagem. Significa também sair da tutela das instituições indigenistas tanto governamentais quanto não-governamentais. Possibilita autonomia, participação, autogestão.

Você acredita que o “Sim, eu posso” poderia ser levado a outras etnias indígenas?

Sim, porém, o “Sim, eu posso”, para ter maior eficácia no processo de ensino e aprendizagem, necessita passar por adequações à realidade da população indígena, à sua língua-mãe, ao seus modos de vida. Assim como a elaboração do material didático bilíngue, de acordo com a demanda das próprias etnias.

Rafa Stedile

@rafasted



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