Em 2018, me convidaram para ir ao Maranhão fotografar o projeto de alfabetização de adultos “Sim, eu posso”. O projeto atende às cidades com o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Estado onde, em alguns casos, a taxa de analfabetismo atinge quase metade da população. O “Sim, eu posso” é um método de alfabetização desenvolvido pelo IPLAC (Instituto Pedagógico Latino-Americano e Caribenho de Cuba) e aliado aos círculos de cultura da pedagogia de Paulo Freire. No Brasil, ele é aplicado pelo setor de educação do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O projeto, em sua segunda edição, atendeu cerca de 20 mil alunos em 15 municípios. Boa parte dos alunos são idosos, agricultores, pescadores, carvoeiros, costureiras, indígenas, que nunca tiveram oportunidade de ir à escola, seja por questões econômicas, culturais ou estruturais. As salas de aula possuem de 5 a 15 alunos, dependendo do município, e boa parte das salas são nos próprios quintais dos professores. Não é raro ver uma educadora alfabetizando o próprio pai ou a própria mãe. Existe um sentimento comunitário muito forte entre eles, em geral, vizinhos de bairro. As aulas costumam ser à noite, após um dia de trabalho na roça, no campo, em casa. O cansaço não parece ser obstáculo para àqueles que tiveram um direito historicamente negado. Poucos lugares me lembrou o interior do Haiti como o interior do Maranhão: casas de pau-a-pique, teto de palha, saneamento básico incompleto, chuvas torrenciais coexistem com falta de água, agricultores desprotegidos de assistência técnica, direitos trabalhistas negligenciados e — esperamos que por pouco tempo — uma quantidade enorme de trabalhadores analfabetos.
Ainda assim, os maranhenses, como os haitianos, sustentam aquilo que nem o Estado nem o Mercado podem produzir: solidariedade. É bonito ver como as professoras se envolvem no projeto, como os aluno se ajudam, como eles desfrutam do aprendizado, como se sentem orgulhosos de aprender a escrever o próprio nome. Crianças pequenas acompanham os pais e criam intimidade com a cartilha e o abecedário. Se apropriar das ferramentas que pareciam distantes, elitistas, como um lápis e um caderno, mexe na auto-estima desses estudantes, reforça laços sociais e produz mudanças subjetivas significativas. Uma senhora me dizia que vivia deprimida após se tornar viúva e foi o curso que a ajudou a sair de casa e voltar a sorrir. Uma outra me dizia que foi justamente se tornar viúva que permitiu começar a estudar, pois o marido não permitia. Um cadeirante que nunca pode ir a escola porque as ruas são de terra, a escola não tem rampa, porque não havia ninguém para auxiliá-lo. Uma garota com uma limitação cognitiva que não permitiu que entrasse numa escola regular agora já pode aprender o básico da alfabetização. Tem caso de trabalhador que já esteve em atividades análogas a de escravo, tem comunidades que vivem em regimes similares ao da servidão, esquecidos pelo poder público. Tem cada história que daria um livro. Viajar aos rincões do Brasil te dá a dimensão da desigualdade estrutural desse país, de lugares com relações sociais medievais onde a manutenção da ignorância e da miséria é garantia de poder. São centenas de histórias do Brasil profundo. Chega a doer. Mas também comove. Quando eles se formam e escrevem o próprio nome, a primeira carta, a família orgulhosa, os abraços, a cidade em polvorosa canta. Apesar de tudo, como dizia o poeta, “serão bonitas, não importa, são bonitas as canções”.  Espero que cada nome seja uma música. 

Abaixo fiz uma pequena seleção das fotos que produzi em Afonso Cunha, Águas Doces, Aldeias Altas e Santana do Maranhão. No próximo post vou falar especificamente do projeto de alfabetização voltado para as comunidades indígenas.

Rafa Stedile
@rafasted

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