Sociedade

Prisma do Desenvolvimento, por Mateus Ferreira

Por Mateus Ferreira

Prisma do Desenvolvimento

 

Celso Furtado, em sua obra, “Em busca de uma Ideologia de Desenvolvimento”, discorre sobre o desenvolvimento capitalista pós revolução industrial; a partir de um comparativo entre a história dos países mais desenvolvidos com os países ditos, subdesenvolvidos, nos trás uma reflexão sobre a forma como esse desenvolvimento se instalou e se transformou de formas distintas nessas diferentes categorias de países.

Ao ressaltar que a indústria permitiu formas cada vez mais tecnológicas de produção, coloca o cerne da questão no processo industrial capitalista. A evolução tecnológica permite que os preços sejam reduzidos para que novos investimentos possam ser feitos na produção, a fim de maximizar os lucros a partir do aumento da produção com uma demanda de mão-de-obra estável. Uma vez que os trabalhadores exigem salários mais altos e precisam receber capacitação, obtêm investimento intelectual para que as técnicas do processo industrial sejam aperfeiçoadas. A formação de reservas de divisas permite ao capitalista de países ditos desenvolvidos reinvestir esses recursos na própria produção com relativa estabilidade social, o processo de desenvolvimento que se observa nos países subdesenvolvidos, no entanto, se mostra distinto na concepção de Furtado, se tornando impossível repetir a história de países europeus.

Os países subdesenvolvidos iniciaram sua evolução industrial capitalista de forma tardia, quando outros já haviam alcançado elevado grau de desenvolvimento tecnológico e econômico e se tornaram dependentes de tecnologia estrangeira para acelerar seu processo de desenvolvimento, em contrapartida, os países desenvolvidos concentraram seus esforços em ampliar sua indústria e buscaram em países subdesenvolvidos obtenção de seus recursos primários.

Furtado explica que a dependência tecnológica dos países subdesenvolvidos e a necessidade de entrar no mercado econômico internacional deu origem a um fenômeno de instalação de grandes empresas internacionais nesses países, que ora exploram o mercado local, ora produzem para suas matrizes. O grande trunfo dessas empresas está em explorar uma mão-de-obra mais barata, tendo em vista as diferenças de disponibilidade existente por mão-de-obra nos diferentes países subdesenvolvidos em relação aos países mais ricos. Desta maneira, a tecnologia embutida nesses bens produzidos, que representam um valor agregado de anos de evolução, não tem seu valor repassado para esses trabalhadores, que por sua vez, não possuem o capital necessário para adquirir esses bens, pois, seus salários são baixos em relação aos trabalhadores dos países desenvolvidos. Com esse raciocínio, Furtado consegue explicar a permanência da desigualdade social presente em países subdesenvolvidos, onde apenas uma parcela da população tem acesso a esses bens de consumo e pontua a ideologia presente onde as pessoas são encorajadas a trabalhar para obter esses bens e ter uma forma de vida semelhantes àquelas que vivem nos países desenvolvidos. Neste sentido, é possível imaginar que o controle perpetuado pelo Estado, a fim de permitir apenas uma relativa ascensão social está relacionado ao fato de que o aumento de salários precisa ser limitado, para que o país continue competitivo no cenário econômico internacional.

Ampliando o conceito, os chamados países periféricos (Subdesenvolvidos) se tornam ainda mais dependentes e de certa forma menos soberanos em relação à sua política nacional por serem reféns de grandes conglomerados industriais com origem em países cêntricos ou desenvolvidos. A formação de empresas internacionais da autonomia para sua atuação de forma global, desafiando políticas econômicas locais e até mesmo em seus países de origem. O monopólio outrora combatido, agora dá lugar a grandes redes industriais que quando não fazem parte de um único dono se articulam entre si de forma organizada, com o objetivo de maximizar seus lucros driblando regras cambiais e estabelecendo suas próprias determinações acima das políticas locais, seja através da administração de toda cadeia de produção, seja desafiando os poderes Estatais nacionais, que se tornam dependentes de sua tecnologia e potencial econômico para o país.

As grandes corporações internacionais atuam como uma forma de neo-colonialismo juntamente com todo o aparelho ideológico ocidental de consumo. A dominação, que em outros tempos acontecia a partir de um Estado diretamente sobre outro, passou a ser feito pelas empresas presentes nos países periféricos.

O Estado em países periféricos precisa manter a desigualdade social e econômica e para isso utiliza não poucas vezes de formas menos sutis de controle social, controle esse submetido ao controle econômico internacional. Esses países administram para o capitalismo internacional sua mão-de-obra como um tipo de produto para exportação e nessa lógica, seu produto precisa ser competitivo.

Se um rompimento radical não é possível por risco de colapso da economia integrada ao mercado internacional, um Estado mais conectado às demandas sociais se faz necessário, a fim de conter o avanço catastrófico do desenvolvimento que se faz dentro da perspectiva dos países cêntricos. O futuro que se desenha para os países periféricos é uma acentuação das desigualdades, com uma maior concentração de renda, o que proporcionará um crescente de tensões entre trabalhadores e as classes dominantes, bem como uma constante desvalorização da produção puramente nacional. Cabe aos países periféricos pensar em uma nova lógica de desenvolvimento menos agressiva e mais sustentável e conter a ideologia de consumo que é perpetrada.

É possível que no futuro o desenvolvimento dos países seja medido pela capacidade de gerir seus recursos não renováveis, visto que o capitalismo se desenvolve de forma ilimitada sem considerar os recursos como finitos, a degradação dos ecossistemas não é considerada na equação do desenvolvimento que se desenrola e impõe desigualdade, concentração de renda e caos social principalmente nos países periféricos.

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