Cultura de Direitos

"Precisamos lutar pelas nossas vidas"

Por Annelize Tozetto*

Segundo o Mapa da Violência de 2015 divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil é o 5º país mais violento do mundo com nós mulheres. Nossas mortes não são feitas por monstros ou desconhecidos, pelo contrário: em mais  de 50% dos casos somos mortas por nossos familiares e em 33,2% por companheiros ou ex-companheiros.  Esse mesmo mapa aponta que o homicídio de mulheres negras cresceu 54,2% entre os anos de 2003 e 2013 enquanto, no mesmo periodo, o homicídio de mulheres brancas caiu 9,8%. Caso você seja mulher trans ou travesti a realidade é ainda mais assustadora: o nosso país lidera o ranking de assassinatos do Trans Muder Monitoring, criado pela rede Transgrender Europe.

E essa realidade tão dura pode ser mudada como? Através de reivindicações e de luta diária. Luta que vai muito além da opressão, da violência, da nossa não liberdade sexual e reprodutiva. É uma luta onde a questão de gênero está transpassada pela questão de raça e classe. Afinal, é justo que uma mulher negra com a mesma formação de um homem branco ganhe menos exercendo a mesma só porque é negra? É justo que ouçamos que a mulher precisa ganhar menos “porque ela pode engravidar”?Obviamente que não. Então, precisamos mudar urgentemente nossa realidade. O objetivo final deve ser sim uma construção de uma sociedade sem classes em que cor da pele e gênero não sejam motivos de discriminação.

Além dessa luta cotidiana e organizada, que levou milhares de mulheres às ruas no que chamamos de Primavera Feminista, que fez com que as secundaristas mulheres, negras e LGBTs tomassem frente às inúmeras ocupações de escolas que tivemos no país, precisamos também ocupar urgentemente espaços políticos legislativos . Mesmo sendo maioria no Brasil, nós mulheres ocupamos apenas  10% na Câmara Federal e 13% no Senado. Dentro de nossos estados e cidades, a situação não é diferente. Esse cenário se explica porque, infelizmente, a política não nos é acolhedora. A política de uma maneira geral não é pensada para que abarque muitas de nossas necessidades – seja por reuniões intermináveis que vão até tarde da noite ou que ignoram que levamos jornadas duplas e triplas de trabalho,  seja por não acolher e não pensar em espaços que também acolham crianças (e aqui vale pensar sobre o quanto deixamos apenas as mulheres o cuidados de nossas crianças).

Cada vez mais precisamos pensar em formas diferentes de conversar com as pessoas, que construa – seja em meios alternativos e /ou populares – uma comunicação diferente. Precisamos de uma comunicação que pare de reproduzir estereótipos. Que não diga que a culpa é nossa de termos sido espancadas na rua ou termos levado uma cantada. Precisamos que a imprensa de uma forma geral pare de romantizar a violência, falando que tudo bem termos ciúmes, que não é um problema o namorado ler todas as suas conversas de whatsapp, facebook ou qualquer outra coisa do tipo. Quero que o jornalismo dê nome ao que se noticia por aí. Relação sexual não consentida tem nome: estupro. Morte por ódio/ciúme de uma mulher: feminicídio.

Quero uma mídia que não hiperssexualize e veja meu corpo como mercadoria – embora ela sempre o faça, em especial se for o corpo de minhas companheiras negras.
Quero uma comunicação que não coloque a responsabilidade da criação dos filhos somente nas minas – já que filho, para usarmos um jargão, não se faz sozinho. E, se não for desejar muito, gostaria de ver filmes que visibilizem a existência das LBT, incluindo as mulheres trans.

Chega de lermos sobre mulheres empaladas, de mulheres esquartejadas ou mulheres queimadas vivas. Mesmo com todas as nossas conquistas – direito ao voto, direito ao trabalho fora de casa, do direito ao divórcio, entre outras- temos muito ainda o que fazer. Precisamos lutar pela nossa vida, pela vida de todas as mulheres.


*Annelize Tozetto é jornalista, fotógrafa e professora, faz parte do Coletivo de Comunicação Revista Vírus e do Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta.

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