Entrevistas

Por mais mulheres na política, Luciana Boiteux…

Entrevista realizada dia 9 de Junho de 2017 por Sarah Tempesta

O mundo pertence à Luciana, Maria, Juliana, Tereza, Ana, Laura… e todas as mulheres que fazem deste mundo um lugar feito de esperança e uma utopia que se concretiza quando as mulheres, todas as mulheres do mundo são capazes de realizar.

As mulheres realizam os seus sonhos e os sonhos de todos, porque as mulheres são fortes!

Luciana Boiteux, é uma pessoa especial e que se torna mais especial estando ao lado de outras pessoas acreditando e construindo a democracia para o nosso país, Brasil!

Luciana Boiteux, e sua construção nos ensina que desistir jamais!

Sonhar e seguir em frente sempre!

Esta edição é dedicada a todas as mulheres que diariamente lutam pelas suas casas, pelo seu trabalho, as mulheres que mantém as suas famílias unidas, as mulheres que através do ativismo social e político agregam os sonhos de um coletivo que por vezes precisam de uma “voz”!

Luciana Boiteux, é a voz! A voz e o coração de uma nova geração que vem por todo o Brasil, uma geração que busca seu sonho e seu espaço neste país.     

Sarah: Luciana, como você analisa o Brasil hoje?

Luciana: O Brasil hoje atravessa um dos momentos mais dramáticos de sua história recente. As expectativas de concretização de uma democracia material, que tinha por base direitos previstos formalmente na Constituição de 1988 se frustraram. O que temos no horizonte é uma encruzilhada, e os brasileiros serão chamados a tomar uma posição: conviver com o golpe e a retirada de direitos em curso, retrocedendo a patamares anteriores a 1988, aceitando calados e sem luta a implementação de políticas de interesse exclusivo das elites do país, ou então ir às ruas e lutar coletivamente contra as reformas e o golpe, tanto para impedir retrocessos quanto para poder avançar em conquistas e ganhos para a classe trabalhadora e reduzir desigualdades. É um momento de transição.

Sarah: Por que as mulheres precisam tanto de acolhimento das políticas públicas, como mudar esse cenário?

Luciana: As mulheres precisam ocupar os espaços da política para elas próprias garantirem a formulação e a efetivação de políticas públicas em sua defesa. Para mudar esse cenário de tantas violências, precisamos nós próprias tomarmos as rédeas do poder. Não podemos nos restringir a espaços privados, devemos ir além e ampliar o ativismo feminista para a ocupação de espaços de poder para propor e deliberar sobre todos os assuntos, inclusive temas relativos a gênero, mas não exclusivamente. Ao invés de esperar que façam por nós, temos que atuar coletivamente para nos fortalecermos umas às outras e efetivarmos nossos direitos e nosso espaço na política.

Sarah: Quais os motivos que levaram as mulheres para o ativismo político?

Luciana: Cada uma de nós tem uma estória, algumas, como Maria da Penha, nem tinham muita noção, mas sofreram tanta violência que resolveram agir para que outras não sofressem as violências que elas passaram. Outras mulheres foram criadas para não aceitar que homens nos dissessem o que poderíamos fazer, e com isso vamos avançando, a cada geração teremos mais avanços nos feminismos.  O ativismo político de mulheres de esquerda está cada vez mais forte e organizado, como se diz “a revolução será feminista, ou não será”.

Sarah: Educação, as mulheres são ensinadas a “sofrer”, nas escolas e nas famílias ou a sociedade afirma isso no cotidiano, quem lucra com a degradação das mulheres?

Luciana: O patriarcalismo se estrutura na desigualdade entre homens e mulheres, e naturaliza a opressão de mulheres como algo cotidiano, mas cada vez mais as feministas tem pautado esse debate para longe do sofrimento e da culpa. Não acho que as mulheres são ensinadas a “sofrer”, mas sim o patriarcado nos oprime ao tentar nos impor um papel secundário, o qual não aceitamos mais.

A reação do patriarcado vem na linha de tentar nos culpar por não mais interiorizarmos os papéis sociais submissos, como é o caso da mãe que trabalha fora e é culpada por não cuidar devidamente dos filhos (e não tem o apoio do companheiro); da mulher que aborta por não ter condições de criar um filho e é repudiada e criminalizada; de mulheres que ousam ocupar espaços masculinos e sofrem preconceito. Para romper com essa lógica machista é urgente o debate sobre gênero nas escolas, ampliar políticas públicas para mulheres e população LGBTT, e combater o feminicídio, a violência contra as mulheres, a transfobia e a homofobia. São medidas urgentes.

Sarah: Um mundo que discute sustentabilidade, é capaz de “sustentar”, uma educação que integre as pessoas numa sustentabilidade educacional ou seja, eu posso e todos podem participar de uma sustentabilidade geracional, comportamental e política?

Luciana: O termo sustentabilidade tem várias interpretações e significados. Prefiro falar numa educação integral, de qualidade, pública, gratuita e socialmente referenciada, que inclua o debate sobre gênero e direitos humanos. Com base nessa educação emancipadora teremos cidadãos conscientes para sustentar uma transformação radical da política e da sociedade.

Sarah: É mais importante abordar meio ambiente, agricultura familiar, segurança alimentar ou civilidade e a soma de todos os conjuntos da construção social?

Luciana: Todos os temas são igualmente urgentes, mas atualmente defendo que devemos dar ênfase prioritária no momento ao combate ao desemprego e a garantia da cidadania em cidades nas quais direitos sociais sejam garantidos e se reconheça o direito à cidade, como síntese urgente.

Sarah: Os professores neste país são desprezados pelo sistema, você percebe que as professoras são rechaçadas? Por que são mulheres ou por que a sociedade não enxerga o fundamental protagonismo da educação em nosso país?

Luciana: Não acho que os professores sejam “desprezados”, pois ainda é uma profissão valorizada simbolicamente pela sociedade, ninguém discorda em tese quando à importância da educação e a valorização dos professores. A questão é que fica só no discurso, pois não se investe o suficiente e os professores tem enormes responsabilidades, mas são pouco apoiados e muito mal remunerados. Creio que todos enxergam sim, que educação é prioridade, mas poucos tentam mudar isso na prática. Não creio que professoras sejam “rechaçadas”, mas elas enfrentam também o machismo todos os dias, por isso temos que falar de gênero nas escolas.

Sarah:  O Brasil é um dos piores países para se viver atualmente, o que aconteceu?

Luciana: Não considero que o Brasil seja o pior país, nem quais os critérios para alguém afirmar isso. Temos muitos desafios pela frente, desigualdades, latifúndios, machismo, exploração, racismo, preconceitos, muita casa sem gente é muita gente se, casa, muitas violências, inclusive contra mulheres e crianças, um genocídio em curso contra jovens negros e pobres, um discurso Punitivo e moralista que só reforça a exclusão social, uma elite que herdou do nosso passado colonial uma cobiça desenfreada e uma grande maioria de pessoas oprimidas que ainda não tem consciência de sua força coletiva. Mas eu sou otimista, será com muita luta, mas iremos mudar radicalmente a nossa sociedade. A revolução será feminista ou não será.

Sarah: A discussão sobre meio ambiental virou pauta de moda casual, aliás todas as pautas fundamentais para uma sociedade justa como reforma agrária, indígenas e educação, tornou-se um clichê. Como você avalia esses novos intelectuais criados em séries fomentando a desconstrução do debate aprofundado?

Luciana: O que vejo hoje é um grande retrocesso, especialmente diante da tragédia de Mariana como um exemplo de falta de uma política protetiva ao meio ambiente, o que causará sérios danos à grande maioria da população e às futuras gerações. Essa pauta foi esquecida, e alguns políticos inclusive defendem abertamente contra. A política atual desenvolvimentista assumiu escancaradamente o lado das grandes empresas e do capital, deixando a política ambiental de lado. A questão indígena tb se insere nessa linha do descaso, estando hoje fortalecidos projetos de interesse de latifundiários contra os povos indígenas, que são alvo de muita violência, estando a demarcação de terras em risco por conta de interesses econômicos. Isso tem que mudar.

Sarah: O Brasil sobrevive?

Luciana: Claro que sim! 

 

 

Cantiga  Luciana
Paulinho Tapajós  

Manhã no peito de um cantor
Cansado de esperar só
Foi tanto tempo que nem sei
Das tardes tão vazias por onde andei
Luciana, Luciana
Sorriso de menina dos olhos de mar
Luciana, Luciana
Abrace essa cantiga por onde passar
Lara lá
Nasceu na paz de um beija-flor
Em verso em voz de amor
Já desponta aos olhos da manhã
Pedaços de uma vida
Que abriu-se em flor
Luciana Luciana
Sorriso de menina dos olhos de mar
Luciana Luciana
Abrace essa cantiga por onde passar
Lara lá……

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