Há um tempo, encontrei uma pessoa com quem estudei no Ensino Médio em um Centro Cultural que frequento. Nunca fomos próximas. Lembrei que fizemos uma recuperação de matemática juntas (eu ia muito bem em humanas, mas sempre fui uma negação em exatas). Enfim, histórias do passado, de quem morou a vida toda em São Bernardo do Campo, cidade marcada pelo movimento sindical, pelo proletariado, pelo subúrbio operário e também pela elite minoritária formada pelas famílias tradicionais imigrantes européias.

Estudamos em uma escola de freiras, bem tradicional na cidade. A Priscila teve uma história parecida com a minha: se tornou artista plástica, deixou o ABC Paulista para desbravar a pobre São Paulo e retornou ao lar anos depois. Mas ela retornou já mãe da bela Estrela, uma linda filha. Retrato básico da mãe solteira, cujo pai abandonou a filha, que rala para criar o fruto de seu ventre, em uma cidade onde a classe média é cruelmente tradicional e conservadora.

Desde que nos reencontramos, nos tornamos bem amigas, apesar do meu ciúme inicial. A Priscila é uma mulher intimidadora, fora do senso comum e se eu não me controlasse, poderia ter deixado florescer  uma competitividade boba. Nós duas criticamos ferozmente a forma antiquada como as pessoas do ABC Paulista lidam com o seu dia a dia e o quanto nós resistimos ao fazer e produzir arte nessa região, tão fértil intelectualmente e politicamente. Priscila é crua politicamente e nós duas nos completamos. Aliás, ela tem buscado inspiração em mulheres do movimento feminista. Não só em mim, mas em outras mulheres: tatuadoras, poetas, empresárias. E o resultado tem sido visível em sua obra.

Priscila procurou uma das melhores escolas para sua filha: uma escola particular com base humanista (não sei explicar pedagogicamente), mas com excelentes professores, didática maravilhosa, cardápio balanceado, com uma área de lazer ensolarada, esportes aquáticos, artes e línguas. A elite São Bernardense também escolheu essa mesma escola perfeita para seus filhos. Há apenas uma aluna negra na sala da Estrela.

No primeiro ano, Estrela e Priscila foram convidadas para as festinhas, reuniões e confraternizações, mas a mãe solteira nunca se enquadrou nos padrões dos pais da escola. Desde então, Estrela, apesar de adorada pelos amiguinhos, não é chamada para as datas comemorativas, pois os pais não gostam de sua mãe, que aparenta ser “doida demais”. A cada festinha de amigos que Estrela não é convidada, Priscila a compensa com uma comida que Estrela gosta, ou com uma ida a um restaurante japonês, favorito de sua filha.

Quando conheci o lar dessas mulheres, me surpreendi com as cores do apartamento. A sala lúdica mostra o compromisso da mãe com a educação da filha: Quero que ela cresça sonhando, afirmou minha amiga sobre Estrela, ao explicar as nuvens do teto de “céu” na sala. Me lembrou a história da Casa Batló, em Barcelona, que Gaudí projetou para que fosse o sonho da família em forma arquitetônica.

Nesta última semana, Priscila foi deletada do grupo de mães da escola da Estrela. Em algumas postagens de seu facebook, foi ridicularizada por algumas mães, dado o seu posicionamento político. Priscila foi contra a polarização política de vermelhos X amarelos neste momento histórico, após decretada a prisão do ex-presidente Lula. Priscila acredita em uma tendência midiática na sentença. Ela pedia a paz. A artista levantava a bandeira branca.

Em seu inbox, dezenas de mães enviaram ofensas. Disseram que Priscila sofreu lavagem cerebral, típica de artistas, e que sua “arte” era ruim. Outras a chamaram de vadia. Outras de vaca. Outras pediram “postura” à artista. Outras disseram que mãe de verdade não faz aquilo (aquilo o quê?). Outras diziam que o que Priscila pinta não é arte. 

O padrasto de uma amiga de Estrela se deu ao trabalho de dizer que Priscila merecia ser Mãe Solteira, pois quem defende bandido tinha que sofrer sozinha e ser abandonada, sem saber nada da história matrimonial da artista.  

Priscila sofre hoje, machismo na pele, de homens e mulheres, e pensa em trocar sua filha da melhor escola de São Bernardo do Campo, por causa dos pais do corpo discente. Priscila é muito bonita. Priscila não se veste como as demais mães. Priscila veste meias coloridas até a canela, shorts e bonés. Priscila tem 37 anos. O principal tema de seu trabalho são mulheres e seus corpos nús. Priscila pouco entende de política partidária, tampouco tem lado. Lê, se informa, mas nunca compraria brigas por partidos.

Na mesma São Bernardo do Campo, estuda o filho do meu companheiro. Numa escola pública de periferia. Eles comem pão com manteiga no lanche e tomam suco industrializado, nada pensado por nutricionistas. Também brincam de pique no ginásio da escola. A professora de artes nos pede para mandarmos caderno sem pauta para desenho, se possível, no material. 70% dos alunos da sua turma não “têm” Pai. São 5 alunos brancos, num universo de 30 em sala de aula. Neste mesmo universo, somente 10 crianças já foram ao cinema. São crianças de 6 anos criadas por mães solteiras. São criadas por Priscilas, Marias, Deises, Betes, Cristinas…

Feminismo não é pauta de elite, pelo contrário. Sexismo é pauta de todas as classes sociais. E não dá mais para nos calar.

 

Mariana Perin

A louca dos Buldogues Franceses, Yawo de Oya, feminista, dividindo seu tempo entre política e produção cultural.

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