Em 2016, junto com o jornalista e amigo Tadeu Inácio, naquele clima de Olimpíadas, pensamos em um projeto de fotografar atletas (profissionais ou amadores) paradesportistas de São Paulo, e produzir algum debate sobre o assunto. O tema do esporte paraolímpico era pouco difundido (ainda que as Paraolimpíadas de 2016 tiveram mais destaque do que eu imaginava) e achamos que buscar os paradesportistas anônimos pela cidade era uma maneira de chamar a atenção para um tema pouco falado. Se já entendemos que o Brasil não é um país que investe em esporte, imagina no esporte paraolímpico. Se nossas cidades não tem infra-estrutura para viabilizar a locomoção de pessoas com algum tipo de deficiência, o que dirá de produzir condições para a prática esportiva desse público.

Porém, por questão de agenda de ambos, compromissos e trabalhos, esse projeto ficou parado. Falta personagens, falta modalidades específicas, falta esportistas mulheres nesse ensaio. Ainda sim, as pessoas que conheci me proporcionaram um experiência de vida muito interessante. Casos de superação de depressão, resiliência, criatividade, alegria e uma reinvenção do próprio projeto de vida. Não são histórias de produzir comiseração mas de se contagiar pela dedicação ao esporte que essas pessoas têm e a força que o esporte tem em nossas vidas. Não importa qual a sua condição (física, financeira ou psicológica), o esporte é uma ferramenta de produzir saúde, socialização e qualidade de vida. Como eu não sei se vou conseguir terminar esse ensaio até o fim do ano, achei que este espaço era uma boa oportunidade de mostrar que já foi feito.
Todos os fotografados foram muito solícitos e generosos. Abaixo, um breve resumo.
O Leandro sempre gostou de esporte, competição e atividades ao ar livre. Após o acidente que o deixou paraplégico, a prática do paraciclismo (handbike), entre outros esportes, foi uma maneira de conseguir se manter fisicamente e psicologicamente saudável e próximo de uma paixão. Treina semanalmente na USP e participa regularmente de competições de paraciclismo e corrida de cadeira de rodas. Trabalha numa grande empresa de seguros.
O Wagner herdou dos pais cegos uma doença congênita que só lhe permitiu 15% de visão em um dos olhos. Desde pequeno treina judô com deficientes visuais e não-deficientes visuais, e seu talento prematuro o levou a treinar em equipes profissionais até se desenvolver no chamado alto nível. Disputou torneios pelo Brasil e pelo mundo, ganhou uma penca de medalhas e hoje já pensa em se aposentar. Treina semanalmente com um grupo de judocas com deficiência visual num parque da Prefeitura na Mooca. Trabalha numa empresa de comunicação e é apaixonado por fotografia.
O Renato, como muitos jovens de classes mais baixas no Brasil, sonhava em ser jogador de futebol. Trabalhava como motoboy para poder bancar o sonho de jogar no São Caetano. Um acidente de moto o fez perder a perna e rever todos seus planos. Com o apoio fundamental da família e da religião, buscou um esporte que mais se adequava a sua situação. Encontrou no vôlei sentado de alta performance uma chance de continuar seu sonho de ser um atleta competitivo. Joga pela seleção brasileira paralímpica e treina semanalmente no incrível Centro Paralímpico Brasileiro. Trabalha num banco e dá palestras sobre sua experiência de vida.
O Rodrigo vem de uma família muito pobre. Uma doença congênita o fez ficar cego durante a infância. Como já não enxergava a lousa, saiu da escola analfabeto. Ficou completamente cego numa família com muita dificuldade financeira, sem pai, com uma mãe sobrecarregada de trabalho. Entrou em depressão quando sua mãe morreu. Encontrou numa ong para cegos um espaço de socialização e afeto. Se alfabetizou em braile. Na ong, fez amigos e descobriu o futebol (que nunca praticou quando ainda enxergava). Treina quinzenalmente numa quadra do clube da Polícia Militar na região central de São Paulo. Recebe uma bolsa-atleta.
 


Por Rafael Stedile (@rafinhastedile)
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