No último feriado, tive o prazer de viajar para Belo Horizonte, para compor uma mesa sobre produção cultural nas “quebradas” no V Encontro Nacional da Nação Hip Hop. A entidade é uma das raras do segmento que se preocupa em inserir o contexto da cultura de rua nas discussões de políticas públicas.

Estou envolvida com a Nação há mais ou menos uns 7 anos, quando aceitei receber e apoiar um evento da entidade no Centro de Referência da Juventude – Estação Jovem, espaço qual fui gestora durante saudosos quatro anos. Beto Teoria, que na época era presidente da Nação Hip Hop de São Paulo, me procurara e, a partir daquele momento, começamos uma grande história de parcerias e amizades.

Mas esta é uma coluna sobre feminismos, e Beto, me perdoe, mas a pauta não será você. Estou aqui para falar sobre algumas mulheres do Hip Hop. Eu não venho do movimento hip hop. Sou consumidora de Hip Hop em todos os sentidos. Tento na minha profissão, empoderar artistas de rua, break e ouço rap.

Mas sinto que o caminho do hip hop está traçado para mulheres. Lá atrás, em meados de 1996, eu e minha irmã nos viciamos no CD do grupo americano The Fugees, e mais tarde, acompanhamos a carreira da Lauryn Hill com muita admiração. Não sou estudiosa para conhecer detalhes, mas observo que os artistas, que em sua maioria atingem uma certa notoriedade e sucesso neste segmento, são homens.

Nesse mesmo Estação Jovem, em 2011, a produtora e minha mana Michelle Mesquita, chama minha atenção para a necessidade de trazermos uma atração feminina para o local. E contratamos, na época, um show da Flora Mattos, MC Brasiliense que estava na mídia underground naquele momento.

Acredito que alí, já pairava no ar, que a tendência do Hip Hop seria feminina. Surgem nomes como Carol Konka, que eu particularmente sou fã, cuja carreira é brilhante ao flertar com o pop e eletrônico underground. Ressalto agora nomes que fazem o movimento ser diferente: Negra Li, M.I.A, Yazalú, Lurdez da Luz, Spektra de La Rima, e tantas outras que dão voz ao que necessita ser dito. E mais, aqui na minha região, vejo um fortíssimo envolvimento de sororidade entre grafiteiras, como Prila Maria, Mel Zabunov, além da já renomada Minhau, que ilustra gatinhos fofos e coloridos com seu companheiro, Chivitz, pelas ruas de São Paulo (e também em galerias e chinelos de dedos por aí!). 

O próprio Mano Brown, em entrevista ao Lázaro Ramos, diz que a grande novidade do Rap virá das mulheres. Os Racionais se redimiram e retiraram frases machistas de suas músicas. Os mesmos que foram criados por suas mães pretas trabalhadoras nas periferias de São Paulo.

E foi em Belo Horizonte que conheci grandes mulheres e aprendi com todas elas. Foi em Minas Gerais que a Nação Hip Hop elege pela primeira vez, uma vice-presidenta Negra, Lésbica, cotista universitária e moradora de favela no Rio de Janeiro. Mel Gomes não é só o símbolo do que está por vir, é uma mana empoderada, que entrou na Universidade Federal Fluminense, se tornou presidente do DCE, entra na UNE (União Nacional dos Estudantes) para comandar a pasta de cultura e leva pela primeira vez, o Funk e Hip Hop como discussão central no movimento estudantil. Mel é uma menina doce, carregando a mascara de ser quem ela é. Dividimos com mais algumas pessoas, um quarto num hostel, onde lá, deixou a mostra uma careca, decorrente do tratamento de um câncer, escondida pelo boné. Ao pegar no microfone, ela é alguém que queremos ouvir e que nos faz parar. Brilhante em suas colocações, Mel brinca que foi o Hip Hop que a tirou das estatísticas, já que foi uma garota que flertou com o crime. Ela foi a grande estrela deste encontro.

Mel Gomes fala de sua mãe e avó com muito carinho, e diz que é impossível não ser ambientalista na quebrada. Que não se preocupar com o meio ambiente é quase que não ser econômico e não entender que, na favela, tudo é coletivo. E nesse mesmo espírito de coletividade, mesmo sem uma resposta concreta, que a MC me responde que hip hop é ferramenta sim para reduzir os impactos ambientais. Para mim, interpreto que qualquer movimento coletivo e em prol de um conjunto de pessoas, já nasce para ajudar nos aspectos sustentáveis do meio ambiente. A vice-presidenta é o tempero que precisamos para discutir espaços de poder, com pessoas que são aguerridas e carregam o movimento como bagagem. Ela é filiada a um partido político de esquerda e está ligada, direta ou (in)diretamente, pela filiação e pré-candidatura de MC Carol à deputada pelo Rio de Janeiro.

Não existe só uma Mel. Existe Triz, rapper transgênero não binário que tem conquistado espaço gigantesco nas redes sociais. Temos Liniker, que traz a Soul Music para ilustrar uma militância trans nos espaços de resistências. Existem as organizadoras de batalhas, que lá na ponta, na sua quebrada, lutam de igual para igual com um movimento de contracultura que, paradoxalmente, é machista por natureza. Existem as manas grafiteiras que silenciosamente, sempre coloriram muros por aí e precisam ser divulgadas. Existem centenas de DJs espalhadas por todo o Brasil. Existem as funkeiras, que buscam seu espaço e que despontam como Mc Loma e as Gêmeas. Existem as Spin Girls, crew de break histórica feminina dos anos 80, esquecida nas memórias das batalhas da São Bento. Todxs elxs ainda ganham menos que os homens. E isso precisa ser pautado. Por isso, aqui é papo reto.

 

Foto: Mel Gomes, por Vitor Vogel / CUCA da UNE

 

Mariana Perin

A louca dos Buldogues Franceses, Yawo de Oya, feminista, dividindo seu tempo entre política e produção cultural.

 

 

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