Sustentabilidade

Os corpos de água e sua força

André Vasques Vital

Por: André Vasques Vital

Quando escutamos falar de água, a referência que nos vem a mente são os corpos de água utilizados no nosso dia-a-dia. A água encanada que proporciona o banho diário, a água que utilizamos para lavar utensílios, o chão; a água potável para beber e cozinhar os alimentos. Quando pensamos em água, pensamos nos seus usos. Mas também pensamos nos rios e mares poluídos, a natureza ameaçada e destruída pela a ação humana. No contexto das mudanças climáticas e da crise ambiental, a água é, majoritariamente, em um arrogante exercício da mente humana se colocando como centro do universo, um recurso natural ou um miserável fluxo líquido alvo da depredação humana.

Entretanto, a diversidade de corpos de água e sua presença no planeta, na constituição dos seres vivos e nas coisas torna extremamente difícil delimitar o que é a água e sua presença na vida humana. E mais: a água como um recurso natural é apenas uma das muitas dimensões que os corpos hídricos adquirem em nosso contato diário. A começar que cada um de nós é produto da interação e mistura entre vários corpos de água diferentes: sêmen, sangue, líquido amniótico… Dessa complexa interação emerge o corpo humano, composto por aproximadamente 75% de água. Humanos são corpos de água e vivem imersos em água. Não a água em estado líquido, como os animais aquáticos, pois, como diria o escritor George Stewart em sua obra A Tempestade (1941), somos “criaturas do ar”.  Mas o ar possui vapores d’água que os meteorologistas geralmente medem como umidade relativa. Umidade relativa do ar tem impacto sobre a nossa saúde. Somos corpos de água, estamos imersos em água e somos transpassados por água.

E nossa comunicação ocorre por meio das águas. Os europeus chegaram ao continente americano e o infectaram com sua presença por meio de mares, oceanos e rios (para a desgraça dos povos nativos). Aquela forte gripe que você pegou meses ou dias atrás ocorreu graças ao virus que invadiu seu organismo por meio de gotículas de água expelidas por outro indivíduo. O Brasil que conhecemos hoje foi constituído a partir dos caminhos fluviais. Muitos desses caminhos, atualmente estão barrados, produzindo a energia elétrica necessária para a comunicação via internet com nossos computadores, laptops, celulares, TV’s e outros, enquanto transforma esses rios em corpos tecnonaturais que destroem modos de vida tradicionais e espalham miséria, morte e dor em suas margens. A comunicação promovida pelas águas promove vida e criação. Mas também promove morte, destruição. Pelo caminhos fluviais e suas transformações vislumbramos os privilégios em uma sociedade marcada pela desigualdade.

Com as mudanças climáticas e a poluição em larga escala, a água potável passou a ser um tema central devido aos riscos de escassez. Alguns vislumbram na escassez uma oportunidade: mercantilizar a água gerando lucro e mais desigualdades. Diante das mudanças planetárias fruto da arrogância humana, a água doce adquire força ajudando na criação de futuros cenários catastróficos para a vida humana. Esses cenários incluem a escassez de água potável e também a abundância de fenômenos aquosos que promovem migrações forçadas e morte de centenas (as vezes milhares) de pessoas anualmente (caso das tempestades e furacões, cada vez mais intensos com a elevação das temperaturas). O gelo ártico e antártico derrete, os mares sobem, e as incertezas sobre o futuro das cidades litorâneas são uma realidade. Escassez e abundância andam de mãos dadas, assombrando o futuro.

Apesar de todas essas indicações ainda pensamos na água como um ‘recurso natural ou um miserável fluxo líquido alvo da depredação humana’. Pensamos assim, como se tivéssemos  algum controle sobre o planeta e seus corpos de água. Ainda estamos apegados ao mito do homem como o centro do universo e por essa razão debatemos o uso e não a nossa relação com as águas. Até quando o mito sobreviverá é uma incógnita. Mas enquanto sobreviver, as águas continuarão o seu trabalho de vida e de morte ao sabor das relações equivocadas ou não que mantemos com elas.   

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