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O SAGRADO NA ARTE QUEER:

O destino insano da política no simbólico

por: Eduardo de Campos Garcia

Pós-doutorado em Educação e Saúde. PhD em Psicanálise. Notório Saber em Psicanálise. Doutor e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. Professor Honoris Causa em Educação Inclusiva. Especialista em Libras e em Magistério do Ensino Superior. Graduado em Letras e Pedagogia. Formação livre em Dança e Artes Cênicas. Membro dos Elos Diversidade e PCD da Rede Sustentabilidade. Atualmente é professor visitante dos Programas de Mestrado e Doutorado em Educação e Comunicação da Logos University International Miami/Flórida. Site Oficial: www.eduardocg.com 

Falar sobre o sagrado é desmistificar o dogma, romper com a tradição arcaica e compreender a necessidade de viver a diversidade. O sagrado está presente nas ações cotidianas e na empatia humana desde as micro relações à aquelas que são elevadas a categoria de rito religioso. O sagrado não é e nunca foi uma propriedade do cristianismo, tampouco de qualquer outra vertente religiosa. Contudo, a de se compreender que as religiões fizeram e fazem uso do sagrado porque compreendem o seu poder sobre a vida humana. Seres humanos possuem a necessidade de fortalecimento, da própria existência, por meio da fé. A fé, da qual eu falo, está alicerçada em seu conceito mais profundo, existe, inclusive, em quem se auto declara ateu, porque acreditar que nada existe para acreditar, é, por si só, um ato de fé. 

Sagrado, de modo etimológico, tem como sentido a dedicação e o oferecimento em sensu stricto (Cunha, 2011, p.576). Nesse cenário, consagrar é oferecer e dedicar algo para outro algo: Deus, Orixás, Entidades, Santos, Personas, Totens, Imagens, ao Cuidado de outra pessoa ou a não existência de nada – que torna uma consagração autocentrada. Portanto, a consagração é um rito de entrega. Nesse sentido, toda apresentação, ainda que para homenagear uma comunidade, comportamento, identidade, gênero, espírito; será no contexto do sagrado, algo consagrado. A política é sagrada porque sua ação está consagrada ao bem da população (ou deveria estar). Não obstante, toda arte é um ato de consagração na medida em que seu processo criativo esbarra na observação do real e sua transformação em simbólico, tendo como base o oferecimento da denúncia, da ruptura com o conservador, com as mazelas e misérias sociais. A arte é a recriação da vida, consagração ao símbolo. Como explicado por Rizolli, arte é signo (2005).

Queer é um termo empregado para designar o “estranho”. Sua teoria, tem como base a análise do não convencional. Como movimento, reage as imposições secularmente instituídas pelo patriarcado e o poder euro-centrado. A categoria Queer, não faz referência, apenas, as questões de gênero e identidade, mas a tudo que contradiz a ordem do poder hegemônico nascido e desenvolvido pelo projeto civilizatório europeu e cristão. A própria Judith Butler, conhecida como grande divulgadora da Teoria Queer, apresenta em seus estudos preocupações tantas que vão além do gênero e da identidade. A pesquisadora põe à mesa os limites geográficos, o oriente como invenção do ocidente, a arte como representação da luta pelo poder, a vida psíquica como sub produto do discurso manipulador. Butler, entrega a sociedade ocidental uma significativa crítica sobre a visão monocular e suas implicações sobre a formação das identidades, sejam essas de gênero, sejam essas territoriais/geográficas. A Palestina é uma de suas preocupações, as imagens construídas sobre o judaísmo, também. Cabe ressaltar que o Judeu, como aquele que contraria a lógica do Europeu, é uma representação Queer. Os espiritualista, sua representação pela umbanda e candomblé, a dança afro são manifestos Queer. 

Mas para entender o que foi exposto acima, é preciso tomar consciência de si e compreender que Queer não é um termo restritivo, mas um conceito de libertação. E, talvez, por isso, provoque tanto espanto. Queer é o não binário ou além, sua essência provoca os sentidos e critica as dicotomias existentes. Portanto, a Arte Queer é aquela que dilui o gênero, as hegemonias, as crenças retrogradas, as construções euro-centradas, o poder de verdade patriarcal. A arte Queer é aquela que acolhe para si as Epistemologias do Sul, uma outra forma de conceber a verdade sobre o mundo. Nesse cenário, a Arte Queer, tem como intenção provocar reflexão sobre as proibições secularmente impostas. 

Contudo, o Sagrado na Arte Queer é mais antigo do que se imagina e retoma o cosmos anterior as concepções de macho e fêmea. Por isso sua imagem, quase sempre é, subversiva. A Arte Queer, não é uma categoria a favor da diversidade, é o espírito do não tempo, da contra formação binária, do símbolo do não encaixado. A arte Queer entra em cena para representar os excluídos, as outridades e um outro tempo. Contudo, como quem mais se irrita com a Arte Queer são os denominados cristãos tradicionais, ou os “homens” que se auto intitulam “de bem”, esses que protestaram contra performances e obras, quando a exposição Queermuseu tentou rodar o Brasil. Vale dizer que esses, são os mais desinformados sobre Arte e o Sagrado. Não obstante, como explicado por Friedrich Nietzsche, o cristianismo brotou de um terreno tão corrompido que nele toda a natureza, todo valor moral, toda a realidade se opunham aos instintos mais profundos; cresceu como uma espécie de guerra de morte contra a realidade. Seu povo, definido como “sagrado” adotou os valores da cultura sacerdotal para todas as suas palavras e coisas e rejeitou tudo o que era próprio da terra. O próprio da terra considerou como profano, mundano e pecaminoso (2012). Mas o próprio da terra é a vida antes das intervenções político culturais produzidas em escala industrial. O próprio da terra é a liberdade. Portanto, o Sagrado na Arte Queer, é o objeto odiado pela tradição porque contradiz o nascimento do poder euro-centrado. Nesse cenário, ainda que rejeitada, a arte cumpre o seu papel político e reflexivo porque incomoda o olhar monocular e monocromático inventado pela tradição. Sua dimensão política e seu teor simbólico, necessita de retórica abastada para que seus observadores não a reduza a representação de categoria social, mas compreenda seu conteúdo crítico, sagrado, consagrado e reflexivo. A Arte Queer denúncia o ser humano e suas ações como objetificado pelo sistema que o captura. Afinal, quem sente nojo ao vir pênis e vaginas printados ou colados numa tela, escultura ou performance, esconde em si o ódio sobre seu próprio corpo. O ódio elevado, simbolicamente, a condição de pecado e proibido.  

Referência:

AGAMBEN, Giorgio. Opus Dei. São Paulo, SP: Boitempo, 2013.

BUTLER, Judith. A vida psíquica do poder. Belo Horizonte, MG: Autêntica, 2017.          

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, RJ: Lexicon, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo. São Paulo, SP: Martin Claret, 2012.

RIZOLLI, Marcos. Artista, Cultura, Linguagem. Campinas, SP: Akademika, 2005. 

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