Bloco Samba do Peleja, foto: Mídia Ninja

O carnaval da resistência

Solange I. Engelmann*

Do Global Sustentável

Se você acha que carnaval não combina com luta política, ativismo social e protestos contra a opressão à classe trabalhadora? Olhe para as fantasias e ouça as marchinhas dos diversos blocos de rua espalhados pelo país e verá, que se enganou! 

O carnaval é uma das principais festas da cultura popular brasileira, que em movimento constante. Para Hall (2003) o termo “popular”, representa o elemento da cultura popular que se desenvolve baseado na luta desigual e irregular entre a classe dominada e a classe dominante (ou seja, entre os trabalhadores e a burguesia), que procura criar mecanismos para desorganizar e destruir a organização popular dos trabalhadores.

Nesse sentido, a festa popular carnavalesca, aquela capaz de transgredir e questionar o show institucionalizado das escolas de sambas e dos blocos pagos, se insere no campo de disputa dialético dos segmentos populares, que a partir de ações e práticas de questionamento transformam a cultural em um espaço de “batalha” subjetivo permanente. Trata-se da constante resistência e embate à cultura dominante, que impossibilita conquistas e vitórias permanentes de dominação popular.

Por isso, o carnaval da cultura popular, principalmente no Brasil, torna-se um espaço que reflete estratégias e práticas irreverentes, que são reinventadas e resignificadas, mediante a mudança da conjuntura política e da correlação de forças dos grupos populares.

Pelos vários cantos, ruas, vielas e becos os blocos arrastam multidões de foliões protestam contra a política de repressão que vem sendo imposta às trabalhadoras e trabalhadores pelo “desgoverno” Bolsonaro.

Para o jornalista e integrante do bloco do ‘Samba do Peleja’, de Brasília, Marcos Urupá, o carnaval é uma forma de liberdade de expressão. Um momento usado para que as pessoas, a partir da irreverência de suas fantasias e atitudes, externem seu protesto.

“É necessário que existam blocos de resistências no carnaval. Inclusive, é importante observar como o carnaval se tornou um polo de resistência. A cultura de uma maneira geral, sempre foi resistente”, observa Urupá.

Em governos repressores a cultura, geralmente é um dos primeiros elementos que sofre ataques, a exemplo do Brasil, em que Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura, alegando necessidade de corte de despesas. Ou seja, o estimulo à cultura é somente visto como gasto.

Por outro lado, Lira Alli, integrante do bloco Vai Quem Qué e membro do coletivo Arrastão dos Blocos, de São Paulo, pondera que carnaval e democracia tem tudo a ver, pois a luta política influencia o carnaval e reflete na qualidade das democracias.

“Só num ambiente com as liberdades democráticas garantidas que se consegue fazer carnaval de rua, com a liberdade que o carnaval merece”, constata Lira.

O estudante de teatro e servidor público, integrante do bloco “Doido é Doido”, de João Pessoa-PB, Marcos de Araújo, considera isso um avanço e também chama atenção para algumas escolas de sambas que tem atuado na ressonância da luta popular, como é o caso da Paraíso do Tuiuti do Rio de Janeiro, que no desfile de 2018 denunciou o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff e os ataques aos direitos trabalhistas.

O carnaval também é parte da cultura negra brasileira e funciona como instrumento de resistência e mudança social. A ativista cultural e integrante do bloco Afro Angola Janga, de Belo Horizonte-MG, Nayara Garófalo, argumenta que desde que foi criado a proposta do grupo voltou-se para a luta contra o racismo.

“Nosso objetivo, continua o mesmo desde a fundação: unir as pessoas numa luta antirracista e por políticas de igualdade racial, de gênero, de sexualidade, de classe”, afirma Nayara.

Assim, os blocos de rua, brincam o carnaval questionando a cultura de uma elite dominante, que procura transformar a festa popular em um show de corpos para atrair “gringos”. De forma irreverente e divertida, o carnaval de rua traduz as angustias e revoltas de um povo em fantasias e marchinhas!

Quando a arte e a cultura popular são associadas à organização popular e a luta da classe trabalhadora a busca pela retomada da democracia pode ter um gosto mais doce!

Bom carnaval a todas e todos os trabalhadores!

* Doutora em Comunicação e Informação, mestra em Ciência Sociais, jornalista, professora e militante de esquerda. Originalmente escrito para a página do MST.

Referências

HALL, S. Notas sobre a desconstrução do “popular”. In: HALL, S.; SOVIK, Liv (Org.). Da diáspora: identidades e mediações sociais. Belo Horizonte: UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 2003. p. 247- 264.

Arrastão dos Blocos, foto: Sérgio Silva
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