Ainda que eu não seja um especialista em sustentabilidade, acho pouco provável pensar em critérios sustentáveis sem falar em inclusão social, um tema tão abrangente e, infelizmente, atualíssimo em nosso país. Desconfio que um dos mecanismos de manutenção de algumas desigualdades & privilégios em nossa sociedade passa, também, pela marginalização de narrativas, quase que tornando invisíveis (inexistentes?) histórias, culturas e subjetividades.
Assim, me arrisco a estreiar esse espaço, a convite da Sarah Tempesta, mostrando um pouco de um trabalho muito bonito que conheci — e fotografei — em 2017, sobre música e inclusão, projeto da minha amiga Lina Noronha.
A Lina é musicista, professora, feminista e mãe de um adolescente. Desde 2016 que ela dá aula de música — e não musicoterapia, como gosta de frisar — na UEPA, uma escola particular da capital paulista, para alunos com grave deficiência física. Pela nossa amizade, por curiosidade e identificação com o tema, me propus a fotografar sua aula e seus alunos. Como é um assunto delicado e um tanto complexo pra mim, pedi, por fim, uma entrevista com a Lina, onde ela explica onde começou essa ideia, o que ensina, o que aprende e o que o feminismo tem a ver com tudo isso. Como ela mesmo avisa: “as pessoas ditas normais, em geral, não sabem nada sobre os deficientes, sobre o próprio preconceito, sobre como desconstruir essa maneira torta de enxergar o outro.”

Quando e por que surgiu a ideia de dar aula de música para alunos considerados deficientes físicos graves? 

Eu comecei por um acaso. Como tenho um filho deficiente e sou musicista, a diretora da escola especial em que meu filho sempre estudou me chamou para ajudá-la a achar um professor de música. Eu me propus a ajudar e, para tal, pedi para ir um dia fazer alguma brincadeira musical com eles, com o intuito de conhecê-los e poder indicar alguém. Foi algo tão impactante que saí de lá e fiquei achando que a pessoa que poderia fazer aquele trabalho era eu mesma. Achei que, com a minha bagagem de professora de música e de mãe de um deficiente, eu aprenderia como lidar com esses alunos. Eu havia passado anos procurando um jeito de meu filho estudar música. Nunca consegui encontrar um professor para ele. Mas, nessa busca, fui conhecendo e aprendendo muitas coisas. E, naquele momento da experiência com os colegas do meu filho, eu me vi como a pessoa certa para aquele lugar. E disse isso para a diretora que me aceitou para a vaga. E assim eu comecei essa nova experiência na minha vida profissional. Isso foi em 2016.

 

Essa prática já existia em outros lugares do Brasil ou do mundo?

Eu sei que existe porque leio sobre isso, mas nunca vi. Conheço uma professora especializada em ensino de música para deficientes, mas o trabalho dela que tenho contato é o de formação de professores para a inclusão e os textos sobre pedagogia musical e deficiência. Converso com ela às vezes para pedir alguma orientação, dica, opinião.

Como as pessoas veem esse projeto?

As pessoas veem com bons olhos. Mas elas acham, quase sempre, que o que eu faço é musicoterapia. Não é. Não sou da área da saúde e não faço terapia nenhuma. Só ensino música mesmo, do ponto de vista artístico, estético.

O que muda no modo como você dava aula depois que começou a ensinar teus alunos com deficiência?

Há muitos anos eu ensino regularmente em cursos de graduação e de pós-graduação. A diferença já começa daí: a aula que faço na escola especial é voltada para a musicalização. A diferença seria em relação aos recursos e às adaptações que preciso fazer, assim como ao resultado que eu posso esperar e buscar. Mas o conteúdo seria o mesmo. A maneira como os trato também. São alunos. Estão ali para aprender. Gostam de música. O que mudou, com esses alunos, foi a minha maneira de fazer música. Ficou mais abrangente, mais livre. Porque, a minha prática, como instrumentista de orquestra, sempre foi muito tradicional e conservadora.

Como os alunos respondem a aula?

A resposta dos alunos foi um ponto central na minha decisão de encarar esse trabalho. Eles amam. Acho que nunca tive alunos que gostassem tanto das minhas aulas. É sempre muita alegria. Acho que tem vários aspectos que colaboram com isso.

Primeiro: todo mundo gosta de música e aula de música é sempre um prazer.

Segundo: eu os trato como meus alunos. Ensino o conteúdo que deve ter uma aula de musicalização. Não os considero incapazes. Foco nas capacidades deles. Eles sempre me surpreendem me dando mais do que eu espero. Dou lição, faço perguntas sobre o que foi estudado, dou prova, nota.

Terceiro: como pessoa, eu os levo à sério e falo com eles de igual para igual. Não os trato como pessoas inferiores a mim. É a prática da aceitação da diferença, sem se achar pior, nem melhor.

Quarto: eu dou instrumentos para eles tocarem. Como eles são muito comprometidos do ponto de vista motor, a maioria nunca teve a chance de ter um instrumento nas mãos. E eu parto do princípio de que tocar é bom para todo mundo, da maneira possível a cada um. Eles me mostram que isso é verdadeiro. Eu dou a eles o direito de se tornarem sujeitos do fazer musical. Isso vale muito para eles. Normalmente, são só espectadores, em tudo.

Quinto: a gente faz apresentação musical para os pais, como em qualquer escola. Eles ganham o “palco”. Isso é muito difícil para eles. Ficam muito felizes. Levam muito a sério. Ficam nervosos, ansiosos. Os pais se emocionam. É muito bom. Eles se sentem importantes, como qualquer pessoa nessa situação.

A mudança que eu percebo é a alegria que eles têm em poderem ter um pouco do que qualquer pessoa tem naturalmente e não chega para eles com facilidade. Ficam muito felizes, se sentem incluídos de fato. Aliás, a resposta de alegria que me dão foi algo que me emocionou no primeiro dia e me fez querer ficar. Eles entraram na sala de aula sérios e desconfiados. Saíram diferentes: soltos, sorridentes, felizes com a atividade experimental de música. Naquela primeira vez, eu chorei. Me surpreendi com a diferença que consegui proporcionar em uma aula.

 

O que você gostaria de dizer sobre esse tema que é pouco falado nas mídias tradicionais?

A mudança que existe, da minha parte, é no aspecto humano, de visão de mundo, de olhar o outro de maneira diferente. Acho que essa é a mudança primordial para que se possa fazer um trabalho com deficientes. Não é o aprendizado do conteúdo. Isso é coisa que se estuda e pronto. O aspecto humano, subjetivo, das relações com o diferente, é que é o mais difícil de ser ensinado. As pessoas ditas normais, em geral, não sabem nada sobre os deficientes, sobre o próprio preconceito, sobre como desconstruir essa maneira torta de enxergar o outro. Isso exige uma mudança interna muito grande e um longo aprendizado. Tento passar isso para as pessoas quando ensino em cursos, palestras, qualquer atividade de formação de professores. As pessoas querem saber. É difícil encontrar quem as ensine. É algo muito incipiente ainda. Na verdade, a gente precisa desse aprendizado na sociedade. Sem isso, não existirá inclusão de fato. Mas essa mudança tem que começar na escola. E essa questão não passa ao largo da política. É colocar em prática a “Pedagogia do oprimido”, do Paulo Freire.  Você está tratando de cidadania, de minorias, de direitos humanos. A questão do direito do deficiente é decorrente do avanço do feminismo. E, se o feminismo ainda está longe do ideal, a questão do deficiente nem chegou ao zero. Está no negativo. O caminho é muito longo, mas a gente tem que dar ao menos um passinho.

 

Qual a relação do feminismo com a questão do deficiente físico?

Sobre a questão do feminismo, é algo que eu tenho refletido e discutido. Preciso ler mais. A primeira geração dos deficientes que lutaram por inclusão eram homens e tinham mentalidade capitalista: bastava a sociedade se adaptar que eles passariam a fazer parte do mercado de trabalho. Com as mulheres, esse pensamento cai por terra. É uma concepção decorrente do feminismo que bate de frente com o capitalismo, inclusive. Quem disse que só vale quem se insere no modo de produção capitalista? A pessoa vale pelo que ela é, independente de ter capacidade de trabalho. A mulher faz trabalho não remunerado nessa sociedade patriarcal. É por isso que ela não vale enquanto não se insere no mercado de trabalho. E, nesse universo regido pelo capital e por homens, as mulheres é que ficam com a função de cuidar.


Por Rafael Stedile (@rafinhastedile)
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