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Mulheres do Sertão!

 

Mulheres do Sertão!

Eu sinto saudade dessas mulheres… sinto mesmo de verdade!
Três irmãs, Anastacia, Joaquina e Virgulina, e um fardo que eu nunca teria carregado… o fardo arrebentou no meio do caminho, era fardo pesado que corroeu o algodão puído. Antes um bom fardo a gente carregava sem reclamar. Mas os fardos ficaram pesados, pesados demasiado.
Um dia a Anastácia me escreve uma carta me dizendo bem assim: – “… amiga minha estou escrevendo para dizer que a Joaquina e a Virgulina conseguiram o diploma do colégio e já está colocado, aqui na parede da sala, vou fazer uma comida cheia de pimenta e fazer a comemoração, venha!…”
A carta me fez refletir sobre a força das sertanejas. Fortes como rocha, insistentes como a terra e preparadas para a vida assim como o céu do sertão espera a chuva!

Anastácia era a irmã mais velha de uma família de muitas mulheres, mulheres de todo o tipo: mulher meiga, mulher farta, mulher sofredora e mulher rendeira… tinha tanta mulher que mais da metade havia morrido.
Anastácia carregou as duas irmãs mais novas até onde pode e fez de um tudo por elas, de um tudo mesmo, lavou roupa para as comadres, fez doce de casca de mamão para vender e puxou linha até de madrugada para bordar vestido de menina moça, e assim sustentava a casa com conforto, e mandava as irmãs para a escola com folga de tempo e afazeres. A vida ia indo desse jeitinho, a vida estava calma e bastante previsível,
Anastacia, tinha a sabedoria de uma irmã mais velha pois fazia tudo pela casa e conseguia ser amiga do futuro.
A irmã mais velha lutou como pode, e finalmente que as irmãs mais novas trouxessem o diploma da escola e orgulhosa passou pano com álcool e pendurou na parede da sala e bem em cima do sofá de visita,
Anastacia pensava em tudo!
Um dia Damião o primo de Everaldo e sobrinho da Zeulita veio correndo avisar a Anastacia do ocorrido:
Damião aflito com pau de pastor na mão disse:
– Dona Anastácia a senhora tem de ser firme, o caminhão da água passou em cima da Joaquina e da Virgulina o prefeito já levou as duas para a capital e ouvi dizer que as pernas já não servem vai virar comida de urubu!
Anastacia como sempre soberba pegou seu terço e uma foto da sua falecida mãe e pôs se na estrada a caminho do ponto de ônibus, ninguém entendeu tamanha desenvoltura da mulher.
Anastácia trouxe as irmãs para casa, sem as pernas, duas cadeiras de roda e muitos panos para cobrir as partes das moças que já não existiam, a irmã mais velha estava orgulhosa das duas pois as irmãs bordavam o dia todo na varanda e cantavam sem parar, assim os dias foram de sobrevivência e bem aventurados.
Certo dia um presente para todos, muitas crianças na varanda de Anastácia, Joaquina e Virgulina.
Anastácia preparando bolo de fubá e as irmãs que eram das letras do colégio lustraram o diploma mais uma vez, contavam histórias uma atrás da outra para as crianças e todas elas se colocavam como se fosse uma sala de aula com muito silêncio e atenção… eram boas as histórias!
E a vida seguiu, a vida seguiu seu curso no sertão com essas e tantas mulheres que insistem em sobreviver e insistem pela sobrevivência de suas famílias!

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