Sociedade Sustentabilidade

Muita calma nesta hora

Por: Marcio Sales
A morte de Maria Eduarda (13 anos) dentro de uma escola pública no Rio de Janeiro (bairro Acari) é mais um dado desesperador da guerra civil na cidade. A ação de dois policiais executando – eu suponho – dois criminosos deitados chocou todas as pessoas que ainda tem sensibilidade, respeito pela vida e pelas normas do estado de direito democrático.
Silvia Ramos, uma especialista no assunto, alerta-nos que a ação brutal de policiais está concentrada em alguns batalhões do Rio e não cabe fazermos generalizações precipitadas. Nem todos os policiais agem dessa forma. A maioria está trabalhando sob condições precárias de vida, por vezes com salários atrasados e ameaçados pelo fantasma da morte que, a qualquer momento, pode irromper. No Rio, diariamente morrem policiais. É chocante o desarrimo desses profissionais e seus familiares.
Na outra ponta, temos uma sociedade em pânico e nenhum rivotril está conseguindo fazer com que o carioca volte a circular em paz pelas ruas da cidade. Diante do terror causado pela estúpida guerra às drogas, muitos pedem a morte dos criminosos. Alguns chegam a se regozijar diante das cenas de execução. O terreno está aberto para a manipulação emocional de políticos fascistas e populistas.
Não existe solução fácil e rápida. É preciso mudar a instituição policial com novo currículo, treinamento adequado, salários justos, acompanhamento psíquico e desmilitarização. Do outro lado, combater a política de execução, a mentalidade de extermínio que tem respaldo em amplos setores da sociedade e não somente entre policiais.
Outro assunto que incomoda, mas que deve ser analisado com calma e racionalidade, é a legalização do comércio e uso de drogas. Somente assim colocaremos um fim ao narcotráfico enquanto organização altamente armada e com controle territorial. A legalização das drogas não acaba com o tráfico, mas acaba com a guerra, com o controle geoespacial. Quem quiser usar maconha e cocaína que use (liberdade individual), da mesma forma que alguns gostam de usar cigarro e bebida alcoólica (cabe as políticas públicas de saúde orientar!), mas não precisa, tal como é hoje, alimentar com seu consumo uma rede criminosa que se sustenta na ilegalidade, corrompe as instituições e espalha o pavor e a criminalidade na ex-cidade maravilhosa.
Maria Eduarda simboliza cada um de nós que assistimos bestializados essa guerra insana. Bala perdida ou mais uma execução? Ainda não sabemos, mas somos nós enquanto sociedade que estamos perfurados por três tiros. Até quando?
Marcio Sales Saraiva é cientista político.
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