Artigos

Militância afirmativa

São tempos de mudanças e muitas dessas mudanças estão acontecendo ora mais rápidas, ora mais lentas, mas nenhuma do dia pra noite. São tempos de muitos questionamentos e repensar comportamentos que até então eram tidos como o normal, o convencional, o comum na sociedade, mas não, nem tudo que é “normal” é o certo, o correto e justo. Grande parte desses debates de comportamento e consciência social vem sendo travados e alavancados por movimentos feministas e, meu muito obrigada para todas as mulheres que se mobilizam, se juntam, se somam e se comprometem com a causa, onde, ao meu entender, feminismo nada mais é do que a igualdade entre os gêneros. É a mulher ter seus direitos garantidos por lei e reconhecidos pela sociedade. É a mulher tomando as rédeas da sua vida e ela, somente ela, ser protagonista nas suas decisões, escolhas, quereres e não quereres e ser, acima de tudo e qualquer coisa, ser respeitada.

Eu, mulher, indígena, bissexual, mãe solo, técnica em enfermagem de saúde indígena, moradora da etnia Pankararu, não poderia não me nomear feminista. Eu, que não participo de coletivo nenhum, movimento nenhum, grupos e rodas de conversa são bem fora da minha realidade e com a logística de vida corrida que eu tenho, quem é mãe vai saber do que eu estou falando, é bem difícil me manter ligada em tudo o tempo todo. E por morar em um lugar tão remoto também é difícil contextualizar e absorver mais conhecimento com outras mulheres e trocarmos, agregarmos, acrescentarmos umas as outras. Acontece que dentro dos próprios movimentos e coletivos, das mais diversas vertentes de feminismos, existe uma certa hostilidade com aquelas mulheres que não militam igualmente e não estão de acordo como a maioria. Existe sim um “senta lá, Cláudia” atrás de um discurso de empatia e sororidade. Já fui oprimida, inclusive por uma mulher tão oprimida quanto eu, por não ser uma estudiosa e não estar no seu nível de debate da causa. Muitos “você não tem a menor noção do que está falando” quando eu só queria falar da minha vida e das minhas vivências enquanto mulher que sou! Essas atitudes e palavras de segregação num espaço onde deveria ser mais pautada a união e solidariedade entre as mulheres acabam afastando tantas outras como eu de militar ainda mais na causa, mas, é bom salientar que nem todos os movimentos e coletivos são assim, tão separatistas, mas que tem segregação da pesada, tem! Acabei não mais tentando fazer parte de nenhuma vertente, de nenhuma bandeira. A minha causa é ser respeitada enquanto mulher e ter os meus direitos reconhecidos e respeitados aqui, na minha casa, na minha família, no meu ciclo social e, assim, poder levar essa consciência pra minha mãe, minhas amigas, minhas vizinhas e para as mulheres que fazem parte da minha vida.

Mas é militância quando eu saio de casa em casa fazendo o meu trabalho, que é orientar e prevenir, e me deparo com um caso de violência doméstica e tenho uma hora de conversa com essa mulher sobre os seus direitos e que ela não é obrigada a suportar nada baseada em uma convenção social e manter um relacionamento abusivo, violento e que agride toda uma família, não só ela enquanto mulher, esposa e cidadã, mas os filhos e os entes próximos também são afetados. Milito quando digo que se ela quiser romper com essa situação, ela é capaz, existem medidas legais para isso, ela está certa, ela é quem decide e que se precisar de ajuda, pode conta comigo. É militância quando eu descido gerar, parir, criar o meu filho independente de acompanhada ou não do pai. Quando eu descido brigar que o pai do meu filho arque com o mínimo da sua responsabilidade que é pagar uma pensão justa e em dia (o que ainda me dá muita dor de cabeça). Afinal, não fiz essa criança sozinha. Nós dois temos a mesma responsabilidade, fizemos juntos, independente de ser um casamento, um namoro ou uma noite casual. Uma criança é feita por dois. Não é justo que apenas a mãe carregue sobre as costas toda a responsabilidade, como acontece e muito nessa sociedade que dá o direito para que o homem se isente da paternidade, que escolha ser ou não pai, que aborte um filho vivo e essa mesma sociedade condena a mulher quando não quer ser mãe, a mulher que cobra e vai atrás dos direitos, não da mulher, mas da criança. Sociedade essa que ainda não entendeu que a única pessoa que pode decidir ser mãe ou não é a própria mulher, afinal, o corpo é só dela, a vida que ela vive e quer viver é só dela. Milito quando falo dessas coisas aqui mesmo, sem sair da aldeia.

Não deixa de ser militância quando eu vivo a minha sexualidade ativamente, sem armários, sem meias palavras, mas como muito respeito a quem está a minha volta, pois se quero tanto ser respeitada, o começo é respeitar as vivências e a cultura dos que estão a minha volta. Não vou me privar de ter uma vida sexual saudável porque hoje eu tenho um filho e viver sob os olhares e comentários preconceituosos de tanta gente ainda tão ignorante, principalmente num lugar que ainda tem tanta mente fechadinha quanto aqui, no sertão de Pernambuco. As pessoas que estão a minha volta sabem e respeitam que se eu um dia posso decidir dividir a minha vida, seja com um homem ou com uma mulher, eu serei feliz e isso que importa. Apenas isso que deve importar. Venho militando um pouco todo dia, sejam em palavras, em atitudes ou só pelo simples fato de ser quem eu sou sem me deixar oprimir pelo preconceito e pela maldade das pessoas que prezam mais ser “uma pessoa de bem” do que ser uma pessoa feliz. Se isso não é ser feminista, não sei mais o que pode ser. 

Acredito que as coisas vão mudar com uma rapidez e uma veracidade mais sólida quando deixarmos de questionar tanto as posturas, palavras e atitudes dos outros e nos policiarmos mais, repensar e agir de acordo com o que falamos. A sociedade só vai mudar quando conseguirmos colocar no poder quem de fato queira um bem comum, e não para um individual, ou para um pequeno grupo, quando as crenças particulares não forem base para discursos e ações que terão efeitos coletivos. Sim, falo de leis e programas sociais igualitários, dando espaço de voz e de participação para todos. É uma pena cada dia mais constatar que estamos em um país “laico” apenas num papel pouco valorizado e levado a sério como é a constituição brasileira. E, por fim, acredito que a sociedade só vai mudar mesmo quando nos preocuparmos mais com a nossa casa do que com a casa do vizinho. Minha casa está bem, obrigada. E a sua?

 
Bia Pankararu, 23 anos, natural de Tacaratu/PE. Filha de mãe indígena e pai descendente de italianos, passou parte da vida entre São Paulo capital e a aldeia.  Atualmente reside na Aldeia Agreste, dentro da reserva indígena Pankararu, sertão de Pernambuco. Técnica em enfermagem de saúde indígena, também atua no movimento cultural local, como no resgate e preservação dos grupos tradicionais de pífano. Indígena atuante nas tradições do seu povo, faz questão de preservar e manter aquelas tradições que os caracterizam enquanto povo tradicional, como a crença e culto  aos Encantados e tudo que isso envolve. 
Views All Time
Views All Time
831
Views Today
Views Today
1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *