Mao

São Paulo, outubro de 1996, calor intenso e  uma Bienal de Artes inesquecível.

Eu mal sabia o que era uma Bienal de Artes, mas arte sempre foi fundamental na minha vida. Era adolescente, pouco ou quase nada de dinheiro, mas economizei absurdamente parcos recursos que tinha para ir à São Paulo, ver a Bienal do ano 1996. Acredito que tenha sido a maior e melhor Bienal, a pluralidade e a quantidade de pessoas que por ali passaram foi algo impressionante, as pessoas gostam de arte.

Em cada canto, um susto, um absurdo de emoções limitadas por setas em labirintos extraordinariamente pensados para a visitação da Bienal, fundamental foi aquele dia na vida de todos que foram, o mês era outubro, mas o dia eu já não lembro, me lembro que era quase um ato de coragem  ir à São Paulo, porque era aterrorizante estar em São Paulo, mas para ver a Bienal, talvez uma coragem brotasse e desvendaria uma São Paulo poética, ou foi só a impressão naquele ano de 1996.

Estávamos em três, os três amigos completamente em encantamento com os quadros, esculturas e instalações, um silêncio, por incrível que pareça um silêncio, como se fosse um ato sagrado parar frente uma obra de arte, e ali o mundo se calou, essa é a arte em estado sobrenatural, a que cala as pessoas.

Me perdi de meus amigos, propositalmente. Queria caminhar e entender o motivo de estar ali, tão longe de casa em um dia tão quente, em uma cidade tão grande em uma Bienal que mais parecia um outro planeta, acho que seria possível viver ali pra todo o resto da vida.

Percorrendo vagarosamente alguns corredores, percebei que Andy Warhol, estava ali. Frente um quadro que Mao Tse Tung, colorido e ameno, fiquei paralisada por minutos que pareceram uma eternidade, olhei para o lado um guri estava perplexo também, perguntei:

– É o Mao da China?

O guri sorriu e disse:

 – Talvez!

Eu disse:

– Quadro bonito, mas sabe eu tenho do medo do Mao! Por causa do filme…

O guri respondeu:

– Um cineasta, nunca governou uma nação, você deveria ter medo das bobagens daqueles que não governam, os que não governam sempre serão aqueles que querem o poder e nunca ser um líder!

Foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, obviamente me apaixonei por Mao, e pelo guri também!    

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