Diga Sim ao Talento Trans!
Nós artistas Trans (Travestis, mulheres e homens Trans e pessoas Trans não-binárias), organizados, vimos através deste manifesto buscar pela representatividade e por oportunidades de emprego por meio da redistribuição da produção artística na TV, no teatro e no cinema.
O Brasil é o país que mais mata Travestis e Transexuais no mundo. Nossa segunda causa de morte é o suicídio. A vida média de uma pessoa Trans é de apenas 35 anos. Somos, quase todes, expulses de casa muito cedo, às vezes com apenas 12 ou 14 anos de idade. Mais de 90% da nossa população está na prostituição, pois o mercado de trabalho não nos aceita. Somos privades de família, educação, trabalho, moradia, saúde e afeto.
Precisamos lutar para ter direito ao nome social, usar banheiros de acordo com nossa identidade de gênero e para e por ela sermos reconhecides e tratades. As instituições de ensino estão começando agora a permitir nossa presença. Muites só ingressaram nas universidades graças a projetos como o Transcidadania, em São Paulo, o Prepara Nem, no Rio, e o Transenem em Belo Horizonte. Direitos básicos nos são negados diariamente.
Em uma sociedade pautada por corpos e suas corporeidades, o corpo trans é abjeto, excluído e marginalizado.
Lutamos pela humanização dos nossos corpos, das nossas identidades, e pela naturalização das nossas presenças nos mais diversos espaços da sociedade.
Durante décadas fomos publicamente censuradas pelo Estado por operações como “Tarântula” e “Comando de caça aos gays”, que perseguiam, prendiam, torturavam, espancavam e assassinavam as travestis, que não podiam nem ao menos andar pelas ruas; presas, eram obrigadas a se mutilarem para serem libertas. Era proibido mencionar a palavra Travesti em qualquer meio de comunicação.
Claudia Celeste, em 1977, foi retirada do elenco da novela “Espelho Mágico”, na Globo. Voltou à cena só em 1988 como Dinorá, na novela “Olho por Olho”, da extinta TV Manchete, sendo a única travesti até hoje a fazer uma novela inteira.
Rogéria, em seu livro “Rogéria uma mulher e mais um pouco”, diz: “A censura na televisão é muito estranha”. Ela nos conta sobre esta censura desde a TV Excelsior, quando seu programa “Quem tem medo de Rogéria?”, foi retirado do ar sem explicações, e de quando outras participações foram canceladas ou vetadas. E estamos falando de Rogéria, um caso raro de visibilidade na nossa comunidade.
Em 2001, a atriz e travesti Thelma Lipp, depois de ensaiar e fazer laboratórios por dois meses com a equipe do filme “Carandiru”, foi substituída pelo ator cisgênero Rodrigo Santoro por “questões de marketing”. Thelma, que foi a resposta paulista a outro fenômeno de beleza, Roberta Close, não agüentou o baque. Acabou voltando às drogas, sofrendo depressão e terminando a vida como Deodoro.
Em uma entrevista feita em 2002, Claudia Wonder, também atriz e Travesti, conta que ela e Thelma Lipp planejavam realizar um trabalho junto ao Sindicato dos Artistas, para que papéis de pessoas Trans fossem preferencialmente oferecidos a artistas Trans.
Na década de 70 nasceu a militância LGBT no Brasil, impulsionada pelas travestis organizadas que saíram às ruas para reivindicarem e garantirem o seu direito à vida. Desde então, diversos grupos sociais marginalizados vêm lutando por seus direitos à igualdade, à representatividade, e buscando seus espaços na sociedade.
Essa luta acontece também nas artes e hoje nós, artistas Trans, resolvemos nos unir.
Há séculos atrás, só homens cisgêneros podiam atuar no teatro, sendo assim, os papéis femininos eram representados por eles através do uso de máscaras e vestimentas “femininas”. Somente a partir do século XVII, mulheres cisgêneras passaram a dividir o palco e poder estar em cena.
Mais tarde atrizes e atores negros começaram a questionar por quê personagens negros eram interpretados por artistas brancos satirizando-os, pintando suas caras para representá-los – o conhecido Black Face.
Nós nos perguntamos:
Por que temos que aceitar que atores e atrizes cisgêneros interpretem personagens Trans?
Por que não chamam artistas Trans para interpretar um personagem Trans?
Por que não convidam artistas Trans também para escrever/produzir/trabalhar/ colaborar/participar dessa história/estória, produção, grupos e coletivos artísticos/ Sets/camarins/estúdios?
Primeiro, porque o corpo trans é sistematicamente estigmatizado, hiper-sexualizado, caricaturado, fetichizado, zootificado, desumanizado e risível. Precisamos conversar como somos retratades pela grande mídia, pelos coletivos e pelos grupos artísticos; no cinema, nos canais do Youtube, que, na sua grande maioria, nos trata de forma preconceituosa/transfóbica/errônea/caricatural/sexualizada/fetichizada, que muitas vezes só reforça mais estereótipos contribuindo ainda mais para a exclusão dos nossos corpos Trans.
Segundo, não acreditam no nosso potencial e nas nossas técnicas como artistas. Mesmo que a maioria dos personagens Trans sejam cheios de aptidões e talento, nós artistas Trans nunca temos talento suficiente para interpretá-los, não somos “Trans suficientes”. Sim, vários artistas Trans já perderam papéis de personagens Trans para um ator/atriz cis. Por acreditarem que não somos capazes de humanizar aquela história/estória/personagem, restando apenas pequenas participações e personagens.
Terceiro, interpretar um personagem Trans muitas vezes alavanca a carreira do ator/atriz cis acarretando indicações e prêmios.
Quarto, muitos artistas acreditam que apenas falar/mencionar/tratar do tema fortalece a nossa população Trans, mas visibilidade não nos tira da marginalidade. Precisamos de redistribuição financeira, precisamos de emprego; do contrário, continuam sendo tirados, muitas vezes, nossos lugares/espaços de fala nos processos artísticos, assim contribuindo para nossa marginalização.
Quinto, muitos artistas/coletivos/grupos/mídias não estavam atentos a esse tema, até desconheciam essas realidades, pois não se falava sobre. Os artistas cisgêneros de 2018 precisam repensar seu fazer artístico.
REPRESENTATIVIDADE é o ato de estarmos PRESENTES.
Não existe meia representatividade.
Ou se tem ou não se tem.
Precisamos ser vistas e vistos, reconhecides através de referências concretas, da presença dos nossos corpos, que carregam nossas histórias.
Para a maioria da população Trans jovem ou “não-assumida” é nos filmes e na televisão a primeira, senão a única vez, que se vêem representades.
Será que as pessoas cisgêneras e brancas sabem o que é crescer e passar toda uma vida sem entender quem você é ou o que está acontecendo com você por falta de modelos ou referências que dêem sentido para suas vidas e experiências?
E a liberdade artística? E sobre o ator não ter sexo?
Nós artistas Trans gostaríamos de conhecer de perto essa tal liberdade artística…
No dia em que não for mais preciso separar ou diferenciar artistas cis de artistas Trans, no dia em que formos ao teatro, ao cinema ou mesmo ligarmos a televisão e virmos artistas Trans interpretando personagens cis naturalmente, nesse dia poderemos conversar sobre liberdade artística e dizer que o ator não tem sexo.
No momento, estamos tentando ter o direito de entrar, estar, pertencer e permanecer na arte e no mercado de arte, sendo reconhecides pelos trabalho que criamos e recebendo financeiramente por eles, pois não adianta reconhecimento sem redistribuição financeira.
Será que a exclusão não fere a liberdade artística também?
Nós, artistas Trans, entendemos a liberdade artística como expressão sem interdições, sem barreiras e sem fronteiras. Também entendemos a arte como instrumento libertador, questionador, símbolo de luta e de resistência.
E para que serve o artista, senão para refletir, questionar e falar do seu tempo?
Muitas vezes não nos convidam a trabalhar, porque o personagem em questão começa com um gênero e transiciona para o outro gênero no decorrer da história. Então querem nos convencer de que é possível colocar um peito no Rodrigo Santoro ou uma prótese de mandíbula na Carolina Ferraz, ou que ainda podem envelhecer drasticamente Regina Duarte ou transformar Vera Holtz em uma pessoa obesa, mas que nós não podemos reconstituir o que nós já vivemos e conhecemos antes da nossa transição. E ainda, será que sabem que existem atores e atrizes que estão em transição? Alguns inclusive sem nenhum procedimento cirúrgico…
Mas isso não vai “limitar” um artista Trans para que só faça personagens Trans?
Um/a atriz/ator cis “limita-se” interpretando apenas personagens femininos/masculinos?
Mas existem artistas Trans? Mas estão preparados? Ou ainda: Eu já procurei artistas Trans e não achei.
Pois sim, sempre estivemos nas artes. Além des artistas já citades, tivemos Phedra de Córdoba, Divina Valéria, Margot Minelli, Jane di Castro e tantes, tantes outres.
Sabe o que separa um artista cisgênero de um artista Trans?
AS OPORTUNIDADES.
Como podemos existir sem a inclusão? Sem oportunidades?
O ator Jeffrey Tambor, que interpreta a protagonista Trans Maura Pfeffermann na série ”Transparent”, ao receber o prêmio Emmy de melhor ator disse:
“Seria diferente se as pessoas Trans tivessem contado suas histórias há centenas de anos, mas não puderam. É um problema de verdade… espero que apareçam mais oportunidades para o talento dos Transgêneros… eu gostaria muito de ser o último cisgênero interpretando uma personagem Transgênero. Acho que já chegamos a esse ponto”.
Na mesma noite, Laverne Cox, atriz e mulher trans (indicada ao Emmy de melhor atriz pela série “Orange is the new Black”) disse:
”Quero ecoar o que Jeffrey Tambor disse hoje à noite. Dêem uma chance ao talento Trans. Eu não estaria aqui hoje se alguém não tivesse me dado uma chance”. Essa mesma atriz, só protagonizou “Rocky Horror Picture Show” porque o ator Adam Lambert recusou fazer o papel de protagonista alegando:
“Eu senti que, em 2016, ser cisgênero e fazer um personagem Trans é inapropriado. Nos anos 70 era diferente, mas agora há uma ótima conversa sobre Trans e gênero no mundo”.
Nós estamos aqui e existimos. Chega de Trans Fake.
Cansamos de servir apenas como experimentos exóticos para teatro, cinema, televisão e trabalhos acadêmicos.
Queremos e precisamos de oportunidades, de empregos.
Convidamos as pessoas cisgêneras a olhar/conhecer nossos trabalhos de perto. Sem as pessoas cisgêneras como nossos aliadas, não conseguimos acessar os espaços da arte, pois esses espaços foram estruturados para que nós não estivéssemos neles. Nós, artistas, podemos questionar opiniões, mudar essa visão transfóbica estrutural, abrir corações e mentes. Precisamos de empatia.
Este manifesto visa sensibilizar e conscientizar: autores, escritores, dramaturgos, diretores, produtores, cineastas, assistentes, equipes técnicas, produtoras, agências de atores, SATED, publicitários, grupos, associações, coletivos artísticos, atores e atrizes cisgêneros.
Resistiremos e Lutaremos!
Juntes somos muito mais fortes.
Assinado: Movimento Nacional de Artistas Trans
Manifesto REPRESENTATIVIDADE TRANS, JÁ!
Diga SIM ao Talento Trans
Chega de Trans Fake.

Fortalecem este manifesto: Coletivo TA Revolta da LâmpadaSatyrosPessoal do FaroesteTeatro KunynO ColetivoGrupo XIX de Teatro Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, CAIS – Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e TransexuaisProjeto TransarteCursinho Popular TransformaçãoTransenem BHFrente Autônoma LGBTFrente BiTransVest,  AstraABGLT , Academia TransLiteráriaLaboratório de Técnica Dramática , Transrevolução , Drag Queen Curso – DQCTransdiárioRExistência Não Binária
*se seu coletivo/grupo/instituição/associação fortalece esse movimento deixe nos comentários.

Quer fortalecer mais ainda: Tire uma foto com as # e marque nosso insta: @representatividadetrans

#representativdadetrans
#digasimaotalentotrans
#chegadetransfake

Nota: esse Manifesto utiliza a linguagem neutra, trocando marcações de gênero das palavras ,“e”; o “x” não é por ser ilegível, nesse contexto de marcação de gênero, pelos computadores programados para pessoas com deficiência visual.

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