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Mais amor, por favor!

Por Jobson Camargo

Vivemos numa sociedade que está sofrendo de uma onda conservadora, fundamentalista. Militar pelos direitos humanos e pela diversidade, vem se tornando uma tarefa extremamente difícil a cada momento. Uns dizem que defendemos bandidos e outros que queremos privilégios. As vezes dizem as duas coisas. E as vezes quem nos fala Isso é algum bandido (de colarinho branco) ou alguém que tem privilégios (liderança religiosa).

Os conservadores estão a cada dia mais fortes, influentes e ocupando até mesmo os nossos poucos espaços políticos. Espaços que são nosso fio de esperança para dar guarida a aqueles que sofrem preconceito diariamente. Que sofrem pressão pra se manter no anonimato (armário), agressões físicas e psicológicas dentro da própria casa ou no meio da rua. Há casos que são expostos pela mídia, mas os piores, acredite, são aqueles que não são.

Políticos que dão declaração de que a mulher tem de ser submissa ao homem, que acreditam na cura gay, que tratam o sagrado deles como obrigatoriedade, acima até mesmo de outras religiões, e não como perspectiva, estão assumindo (pasmem!!!) comissões de direitos humanos nas câmaras municipais e assembléias estaduais por esse Brasil.

Eu sempre me pego questionando sobre o nosso futuro. Sempre me pergunto no que posso contribuir para que este futuro não seja tão mais doloroso que o nosso presente. O que nossos filhos, sobrinhos, afilhados vão receber de resultados da nossa militância?

Vejo casos de assassinato por motivação de ódio, homofobia (sim, ela existe) todas as semanas.

Já perdi pessoas próximas.

Já vi amigos chorarem por perderem pessoas próximas.

Já tornei próxima pessoas que foram mortas tão brutalmente que me fizeram chorar e me colocar no lugar delas.

Eu já fui, e durante muitos anos de minha vida, uma pessoa religiosa. Hoje, graças a deus, não sou mais (risos). E confesso que tenho um certo “bloqueio espiritual”, principalmente pelos ditos protestantes/cristãos/evangélicos. Muito pela oportunidade de fazer parte da “cúpula da igreja”. Tinha um programa de rádio. Viajei boa parte desse país para evangelizar. Já falei pra algumas milhares de pessoas em algumas “cruzadas evangelística”. Já sentei a mesa dos que hoje são nossos “inimigos”. Vi de perto o modo como os mercadores da fé tratavam a religião e os que a seguem. Mas não sou de generalizar. Como eles mesmo dizem, temos que separar o joio do trigo.

E quero até pedir licença a esses que tenho bloqueio para usar um trecho do livro sagrado deles. Quero usar esse trecho pra chamar a atenção de nós, LGBTi, para algo que muito me incomoda nesses anos de militância.

Em um de seus sermões, Jesus disse: “Tira a trave do teu olho para depois tirar o argueiro do olho do seu irmão”.

Quero trazer essa mensagem para nossa reflexão.

Os conservadores, fundamentalistas só estão aonde estão por serem organizados e acharam um ponto final em comum (e não é Jesus).

Não adianta lutar sem unidade, solidariedade e respeito entre nós.

Temos uma sigla (que as vezes tenho a impressão que chegaremos na letra Z) e muitos esquecem o que ela significa. Cada um que fique “puxando sardinha” pro lado que lhe interessa (?). E assim não se chega a lugar nenhum.

A normatividade existe e está cada vez mais forte entre nós. Mas só conseguimos ver normatividade lá fora.

Como vamos combater o machista que ao ver um casal de lésbicas acha que é falta de homem no meio, se somos preconceituosos com os gays afeminados?

Como vamos combater o preconceito contra trans e travestis, se no próprio meio há um preconceito que reduz estas a marginalidade, e se até entre si, há uma dificuldade de adaptação quando se vem tentar a sorte no sudeste e sul do país por muitas delas “mangarem” do sotaque nordestino?

Como vamos acabar com a nossa invisibilidade se não conseguimos colocar na cabeça que o “B” da nossa sigla não é de Beyoncé, é de Bissexuais e eles existem?

O que falar da gordofobia presente entre nós?

O que falar dos que já estão na terceira idade e são, muitas vezes, ridicularizados até mesmo por gente do movimento devido as suas preferências?

Citei só esses exemplos de nossa normatividade enrustida. Poderia citar muitos outros, mas podemos começar a refletir a partir daí.

Jamais vamos conseguir alcançar nossos objetivos enquanto pessoas de luta, se a energia que deveria ser gasta nas ruas está sendo gasta numa batalha mesquinha travada entre nós.

Vamos nos unir!

Vamos pegar todas as frases de efeito que usamos pra fora da bolha e começar a impactar por dentro.

Precisamos sair da bolha que criamos, sair do comodismo!

Vamos cair na realidade de que só somos o centro do nosso universo particular.

É com esse pensamento que venho militando no Partido Verde. Precisamos derrubar essas barreiras partidárias e nos unir em prol da nossa causa. Nosso símbolo é um arco íris, não uma bandeira de uma única cor.

Vamos a luta… Eu, você, lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, travestis, interssexuais… Todes juntes, de mãos dadas!

Sozinhos só fazemos barulho, mas unidos podemos derrubar qualquer fundamentalista que se colocar a nossa frente.

Eles não passarão, e nós passarinhos (seremos livres)!

Jobson Camargo, 26 anos, natural de Recife/PE. Atualmente reside na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Formado em Turismo com pós graduação em Gestão ambiental. Ativista ambiental, direitos humanos e diversidade. Trabalha como consultor ambiental e articulador político. É membro da juventude e do núcleo de direitos humanos e diversidade do Partido Verde/RJ.

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