Hoje é um dia de saudade. Comemora-se um ano que Mãe Beata de Yemonjá, Yalorixá do Rio de Janeiro, foi para o outro lado do rio. Mãe Beata é a mãe de santo do meu Babalawo, o sacerdote da casa onde frequento, portanto, é minha avó de santo. E no dia de hoje, não posso deixar de escrever sobre ela e sobre a importância dessa mulher na luta feminista e contra a intolerância religiosa.

A menina Beatriz, no recôncavo baiano, viu sua mãe apanhar de seu pai. Naquele dia, ela pegou o machadinho e defendeu sua mãe: “Nela você não coloca mais as mãos”, esbravejou a menina. Mãe Beata afirma que esse foi o despertar de sua luta contra o sexismo. “Não ia deixar minha mãe, essa lutadora e guerreira, apanhar mais uma vez!”. Em seu terreiro, o Ile Asé Omijuarô, não existe distinção de gêneros e sexualidade: são todos iguais. Não há predominância feminina ou masculina nos cargos de liderança. O terreiro, para Yá, sempre foi um lugar de acolhimento. Dizem nos bastidores que quem continuará o sacerdócio de seu Ile será o Babalorixá Pai Adaiton, seu filho carnal e também um venerável ativista. E Pai Adaiton é o ojobó (altar) vivo de sua mãe: Recebeu pelas mãos de Mariele, quando viva, algumas homenagens e tem sido um dos principais líderes pela sobrevivência dos terreiros no Brasil, dando continuidade a luta contra intolerância religiosa, iniciada por sua mãe e filhos de santo, quando o assunto ainda era velado.

Quem pensa que Beatriz sempre esteve nas funções do axé de sua Mãe de Santo, Dona Olga do Alaketu, está muito enganado: Mãe Beata estudou em colégio de freira, foi catequizada, crismada e, mesmo enquanto sacerdotiza, foi devota de Nossa Senhora da Aparecida. Para ela, as religiões podem ser sincréticas, se a favor da igualdade, da paz e da cura.

Em 1969 se divorcia, época de golpe militar. O divórcio também era assunto delicado e calado, portanto, com seus filhos e para fugir do autoritarismo do ex-marido, resolve ir para o Rio de Janeiro reconstruir a vida. Foi empregada doméstica, atriz figurante de televisão, costureira, manicure e artesã. A matriarca que nunca deixara seus filhos na fome e miséria. E em 1985, funda o Ile Ase Omijuarô, tradicional terreiro localizado em Miguel Couto, Rio de Janeiro.

Mãe Beata sempre viu no terreiro, um lugar para se exaltar o papel da mulher e para discutir política. Fundou e presidiu a ONG Criola, onde lutava incessantemente contra o sexismo, racismo e racismo religioso. Ganhou centenas de prêmios ao longo da vida, resultado de seu trabalho de impulsionamento do empoderamento juvenil, educação ambiental, lutas pelas minorias, saúde da população em situação de pobreza. O Omijuarô sediou dezenas de congressos, fóruns e seminários, sempre ligados à luta pelos direitos humanos. Publicou livros, viajou o Brasil e se tornou o símbolo. Trouxe à tona a discussão do afro-centrismo brasileiro ao país.

A conheci num palanque político de mulheres em apoio à Ex-Presidenta Dilma Roussef, em 2014, no segundo turno. Há pouco, passara pela minha primeira experiência concreta dentro de um terreiro e essa mulher me abraçou, disse palavras bonitas (pois estava ali contra a minha agremiação política). Quando aquela senhora segurou o microfone, seu tamanho parecia não caber naquele palco.

Hoje, tenho a honra de carregar esta mulher na minha vida e Ori (cabeça), cultuada sempre para que eu resgate a memória das grandes mulheres que fizeram com que eu estivesse aqui hoje. Diz um provérbio Yorubá que Mãe é maior que Orixá, portanto, Mãe é Deus(a). E esse respeito à mulher está no dia a dia, mas posso ter a certeza que não estou num espaço de fé patriarcal. Terreiro é lugar de igualdade entre homens e mulheres. Se não é assim, está errado.

Escrever sobre ela, sempre será pouco. Escrever sobre Mãe Beata, é exaltar a Senhora Feminista Negra do Brasil.

Minha mãe brinca que estou “pregando” o rito africano sempre que posso, já que ela não é da religião. Até chega a me comparar com pessoas de religiões cristãs, dada a ênfase da fala. Mas é impossível, como feminista, não me orgulhar em acreditar em divindades que foram Reis e Rainhas. E mais, em divindades femininas que possuem a força da guerra, da criação, da menstruação, do amar, do transformar-se, da inocência, do mar, das cachoeiras, da fertilidade e da vida.

A morte para quem tem a cosmovisão africana é feliz, pois o Orun (céu) fica em festa quando chegamos lá e nos é dado o título de ancestral. Yá Nlá, Mãe Beata, com certeza estará sempre lutando contra o patriarcado e as desigualdades, onde ela estiver. Fez um ano hoje de sua passagem. Ela era guerreira demais para descansar. Por isso, me espere do outro lado do Rio, Vó…

“Quem não conhece sua raiz, não chega ao topo”. Mãe Beata de Yemonjá.

 

(Ainda em tempo, quem puder ajudar financeiramente nossa reconstrução do Ile Asé Olorunfunmi, que passou por um incêndio acidental, é só acessar nossa página do facebook www.facebook.com/babaifaotubela ou diretamente nos links abaixo para saber mais:)

Vaquinha (doações a partir de 20,00)

Rifa 

 

Fonte: Reprodução / Facebook

 

Bibliografia e Memória:

www.facebook.com/marianaperin

www.facebook.com/babaifaotubela

www.ileomijuaro.com.br

http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/mae-beata-de-iemanja

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mãe_Beata_de_Iemanjá

http://www.afreaka.com.br/notas/mae-beata-de-yemonja-e-forca-da-representatividade-feminina/

http://www.palmares.gov.br/personalidades-negras-mae-beata-de-iemanja

https://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2615751

 

Foto: Reprodução / Facebook.

 

Mariana Perin

A louca dos Buldogues Franceses, Yawo de Oya, feminista, dividindo seu tempo entre política e produção cultural.

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