Laerte, fez os traços e esse é o motivo que nos fez continuar o desenho da vida!
Eu fui uma pré adolescente no final dos anos 80! Que privilégio! Os loucos anos 80, aconteceu de tudo, menos a internet. E mesmo assim éramos inteligentes, buscávamos referências em tudo, moda, comportamento, filmes, discos de vinil, cinema e quadrinhos. Eu já trabalhava nessa época, meio período e isso era meio comum, a gente ia pra escola e depois do almoço ia trabalhar, eu ganhava pouquíssimo, quase nada e gastava tudo em discos na Savarin Discos ( Curitiba), e em revistas, Bizz e Chiclete com Banana. Além de comprar os fanzines dos amigos da escola ( fanzine = pequena revista em papel branco e desenhos feitos com nanquim), tudo era informação, era tudo divertido, era tudo novidade e complexo!
As revistas Chiclete com Banana se bem me lembro eram bimestrais, quando não tinha recorria as revistas Mad, do meu irmão mais velho e também os gibis da Mônica, eram leitura de volta para casa no Inter Bairros 2 ( um ônibus que percorre quase toda Curitiba, pelos bairros.), e walkman com fitas k7 e fones que eram maior que as nossas cabeças, meias coloridas, moletom velho e as tocas dos peruanos da Rua XV. Ressaltando que as camisetas do Ramones eram as originais. O All Star, era falsificado. Coisas paraguaias, usávamos porque éramos pobres. Mas todos nós conseguimos entrar em uma faculdade, um milagre nos anos 90! Um milagre! Nós começávamos à ingressar na faculdade nos anos de 95, 98 e 2000. Reafirmo um milagre, mas os jovens brasileiros são incríveis. As nossas provas de vestibular da UFPR duravam 4 dias, pois é! Passamos nos formamos e alguns até fizeram outras graduações. Qual a razão? Respirávamos cultura: Dalton Trevisan, Laerte, Cervantes, Marcos Prado, Mário Quintana e José Lins do Rêgo. E procurávamos Suzan desesperadamente! ( o filme da Madonna que ninguém viu, mas nós vimos!).
E todos liam muito, esse é um legado dessa geração, os livros. Eu li tudo, até Camões. Os livros preenchiam as nossas vidas, e os quadrinhos nos divertiam, mas traziam uma profunda reflexão, sim nós éramos profundos.
Então comecei a ler atentamente Os Piratas do Tietê, então Laerte torna-se o nosso referencial e me lembro que trocávamos entre nós ( eu e a gurizada da escola, escola pública Cristo Rei), as tirinhas do jornal as quais Laerte fazia ou a Revista Chiclete com Banana, e muitos domingos na praia gelada de Pontal do Paraná, divagávamos sobre Brasil, e pontualmente Laerte estava ali Prince e David Bowie também tocando (nossa trilha sonora preferida de praia na época),em um rádio enorme, que eu não sei como conseguíamos carregar aquilo.
Ela, Laerte, já era a minha rainha e rainha de todos nós, desenhávamos e ficávamos imaginando se algum dia os desenhos chegariam até ela. Nunca chegou, mas tenho certeza que Laerte foi determinante na minha vida e de outros leitores. Eu gostava da Laerte como cartunista, mas por vezes via um pouco de Tv Pirata, afinal ela foi roteirista, mas eu gostava do The Kids in The Hall. De todo modo foram os Piratas do Tietê que me divertiram , obrigado Laerte!

Tive a honra de conversar um pouco com a Laerte, realizei meu sonho e dos meus amigos. Segue a entrevista com a nossa querida Laerte:
Sarah Lincoln: Laerte, eu chegava da escola fazia as lições e imediatamente recorria a minha Chiclete com Banana, você sabia que nós adolescentes estávamos entendendo e refletindo o Brasil através do seu trabalho?

Laerte: A gente (estou incluindo o Angeli e o Glauco sem autorização de ninguém…) fazia as revistas – Chiclete com Banana, Geraldão, Piratas do Tietê – sem muitos cálculos.
Queríamos que as pessoas nos lessem, claro.
Mas achávamos que éramos parte dessas reflexões, mais do que guias ou referências delas.

Sarah Lincol: Piratas do Tietê eram meus ídolos, eles eram uma mensagem anárquica ou apenas entretenimento?

Laerte: “Apenas entretenimento” certamente não – a minha pretensão era maior, pelo menos.
Descobri que a pirataria, como era representada no século 19, podia produzir enredos interessantes na sociedade moderna, brasileira, paulista.
Não achava que fosse apologia de uma conduta.
Ainda não acho.

Sarah Lincoln: A vida só tem sentido quando inventamos e reinventando algo por nós mesmos nos sentimos quase inteiros, o que você inventou e reinventou? Qual a sua construção de vida?

Laerte: Não sei se entendi sua pergunta, Sarah.
Se entendi, preciso falar sobre o que entendo por inventar ou reinventar.
Acho que eu crio a partir de outras criações, sempre.
Há graus de originalidade, que variam segundo milhões de coisas.
Tenho uma preocupação em dizer o que “nunca foi dito”, mas sei que isso é bem difícil, se não impossível!
De resto, não acho que o fato de uma coisa “nunca ter sido dita” é critério suficiente para que o seja…
O que tenho feito são descobertas, que me parecem originais para a minha vida.
Tento levar a sério essas descobertas.

Sarah Lincoln : O Paolo Sorrentino fez um filme chamado Aqui é o Meu Lugar, fiquei dias pensando em você e na sua obra , e te entendi mais como artista e mulher, apesar dos referenciais do filme serem muito distantes de coisas de Brasil, qual é o lugar da Laerte? A arte é um lugar confortável ou desafiador?

Laerte: Vi esse filme.
Se entendi bem, acho frustrante quando ele “resolve” a transgeneridade da personagem através daquela leitura freudiana.
A arte – ou essa forma de arte com que eu trabalho – é onde me expresso e onde proponho meus auto-desafios.
Há momentos em que “sossego” e a deixo fluir na zona de conforto, e há outros em que preciso descobrir e resolver questões.
Como na feira de Acari, tem de tudo.

Sarah Lincoln : Laerte , você sente saudade do Glauco? Você sente saudade de pessoas e de fases da vida ou sua prioridade é o agora?

Laerte: De novo, não sei se entendi a pergunta.
Saudade é mais algo que se sente em função de uma possibilidade de volta, não? Pelo menos, é como entendo – sinto saudade de gente que ainda vai ou pode voltar; ou de situações que podem ser recuperadas.
Não de pessoas que morreram ou fases que passaram.
Minha vida me traz lembranças boas e ruins…
Tento lidar de modo saudável com elas.
Ou aprendendo ou entendendo.

Laerte, Foto Crédito: Cláudia Ferreira.

 

Laerte, Foto Crédito: Sofia Colucci.

Views All Time
Views All Time
1017
Views Today
Views Today
1


Posts relacionados

A VOZ DAS URNAS conversa com Pedro Fernandes (PDT)

“Queria que fosse simplesmente humano…” Che Moais.

A VOZ DAS URNAS conversa com: Leonardo Giordano (PC do B)

A VOZ DAS URNAS conversa com: Márcia Tiburi (PT)

Evandro Santo, os anos 80 estão entre nós! Um dia de cada vez…

Eu me defino como livre! Por Indianare Sophia.