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Jaime Spitzcovsky, um jornalista que escreveu e conheceu, o mundo!

Jaime Spitzcovsky

Jaime Spitzcovsky ,nasceu em São Paulo (SP) em 1966. Estudou Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP) e se formou em 1986.

Foi editor de Internacional da Folha de S. Paulo (SP) entre 1988 e 1990 e entre 1997 e 2000. Além disso, foi correspondente do jornal em Moscou (Rússia), de 1990 a 1994, e em Pequim (China), de 1994 a 1997. Realizou coberturas jornalísticas em mais de 40 países, com destaque para regiões como a ex-União Soviética, o Extremo Oriente e o Oriente Médio.

Trabalhou para a Folha quase 13 anos, realizando coberturas como a desintegração da URSS, a libertação de Nelson Mandela, a morte do líder chinês Deng Xiaoping e a devolução de Hong Kong à China. Em maio de 2000 quando era um dos responsáveis pelo site Prima Tech, lançou o Prima Página, site de conteúdo jornalístico que prioriza a nova economia e a globalização.

Entre essas atividades, colaborou e colabora regularmente com a TV Cultura (SP), com as revistas Morashá (SP) e Tribuna Judaica (SP), com os jornais Diário de Notícias (Portugal), Haaretz (Israel), El Mercurio (Chile), com o serviço português da BBC e com as rádios Jovem Pan (SP) Rádio Suíça Internacional. Hoje, é sócio diretor da Prima Pagina (produtora de conteúdo jornalístico). e escreve, no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo e revista Folha de São Paulo.

Escreveu o livro A Nova Guerra do Vietnã (Ática, 1995), onde descreve suas primeiras impressões ao desembarcar no Vietnã e fala da economia capitalista atual do país, passando pelo general Giap, personagem importante na guerra com os EUA. O título se refere ao desafio para superar a pobreza que  vive o país asiático.

Segue abaixo a entrevista que Jaime Spitzcovsky nos concedeu:

Jaime Spitzcovsky

              

Sarah Tempesta:  Um jornalista deve ou deveria ter um contato crítico com a realidade, contato propriamente dito, no sentido que um jornalista também tem uma bagagem de vida, sentimentos e ressentimentos, como todos nós. Qual a bagagem russa da sua experiência por ter vivido lá que foi a mais transformadora, e o que os russos gostariam de ter como bagagem brasileira?

Jaime Spitzcovsky: Viver na Rússia foi uma experiência de importância singular em minha vida, nos planos profissional e pessoal. Profissionalmente, porque no início dos anos 1990, quando cheguei a Moscou, a cidade representava o centro jornalístico mais intenso do cenário internacional, com implantação da glasnost e perestroika, na esteira da queda do Muro de Berlim, do fim da Guerra Fria, da desintegração do bloco soviético na Europa oriental e de tantas mudanças responsáveis pelo final de uma era histórica.  Cheguei a Moscou em 1990, com 25 anos. Aprendi muito sobre o trabalho jornalístico e sobre as especificidades do trabalho de um correspondente internacional. No plano pessoal, foi uma vivência importante porque meus avós paternos eram judeus que imigraram ao Brasil de regiões da Europa oriental, portanto eu tinha, desde a infância, muitas referências sobre essa parte do planeta. Acompanhado de meus pais, fiz também pesquisas genealógicas, visitei os locais onde viveram meus antepassados, o que, sem dúvida, foi muito emocionante.

Sarah Tempesta:  O senhor tem passagem pela China, um país que nos causa interesse e receio. O Brasil tem semelhanças com a China? É uma pergunta pedagógica, mas faz sentido porque tenho a impressão que estamos muito próximos deles. Os chineses estão próximos do Brasil?

Spitzcovsky Jaime: Brasil e China são distantes geográfica e culturalmente, embora sejamos um país de imigrantes e aqui tenhamos contribuições de todas as correntes migratórias, incluindo a chinesa. Mas, em termos numéricos, a imigração chinesa ao Brasil não é muito ampla. Somos um país, ainda que bastante  caleidoscópico, influenciado basicamente pelas culturas indígena, africana e ibérica. E, do mundo asiático, chegaram ao Brasil historicamente mais japoneses, do que chineses.

Sarah Tempesta: Um jornalista está sempre pronto para ir embora? Morar em países diferentes? Porque os jornalistas brasileiros conhecem tão pouco o Brasil?

Jaime Spitzcovsky: Um jornalista deve ter como norte básico a curiosidade, permanente e intensa. Claro que morar em países diferentes é uma experiência atraente, mas nem sempre viável. E hoje em dia, com a internet, conhecer outras culturas e realidades ficou mais acessível, embora não substitua inteiramente a vivência in loco.

Sarah Tempesta:  Voltando a Rússia e China, observando os respectivos fatores econômicos e sociais, esses países estão preparados para a Sustentabilidade? Eles pensam, fazem, praticam ou buscam alternativas sustentáveis para as suas ações econômicas e produtivas?

Jaime Spitzcovsky: Vamos falar da China. O impressionante desenvolvimento econômico chinês, iniciado em 1978, foi responsável por tirar milhões de pessoas da pobreza, modernizou o país, mas provocou enorme déficit ambiental, trazendo poluição, desmatamento, entre outras conseqüências graves. O Partido Comunista, no poder desde 1949 e responsável por arquitetar e implementar as reformas econômicas, percebeu a gravidade da situação ambiental e passou a destacar preocupação com o tema da sustentabilidade. Os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, por exemplo, foram chamados de “os jogos verdes”, porque o governo chinês usou a visibilidade de uma olimpíada para tentar mostrar suas políticas de meio ambiente. Embora o governo reconheça a importância do tema sustentabilidade, ainda há muito a ser feito para enfrentar os efeitos negativos, no meio ambiente, da intensa expansão econômica das últimas décadas.

Sarah Tempesta:  Lemos a literatura russa, e em nossa previsível  arrogância, acreditamos que sabemos tudo sobre a Rússia. Em síntese, por que somos tão fascinados por aquele país?

Jaime Spitzcovsky: A Rússia é um país com história e cultura muito densas e profundas, com influência além de suas fronteiras e que despertam enorme atração e curiosidade. Foi um dos maiores impérios da história, com momentos trágicos e sangrentos. Foi palco da Revolução de 1917 e da implantação, pela primeira vez na história da humanidade, de um regime comunista em larga escala, que também foi responsável por momentos trágicos e sangrentos. Na Segunda Guerra Mundial, os russos tiveram papel fundamental na derrota do nazismo. Depois, na Guerra Fria, a União Soviética foi protagonista, ao lado dos EUA. Ou seja, a Rússia coleciona uma trajetória muito importante na história. E sua influência na cultura é global, devido a grandes nomes na literatura, dança, música, artes plásticas, entre outras expressões artísticas.

Sarah Tempesta: Os intelectuais brasileiros são muito distantes de nós, o povo. Na Rússia e na China, existe uma classe intelectual próxima deles, que consigam dialogar com o povo?

Jaime Spitzcovsky: Importante lembrar que a China tem um regime político totalmente controlado pelo Partido Comunista, portanto a interlocução entre intelectuais e população é essencialmente conduzida pelo governo. Na Rússia, existe um regime autoritário, que tenta controlar o diálogo entre intelectuais e população, e consegue fazê-lo em grande medida, embora haja iniciativas de intelectuais de oposição,  muitas vezes sediados fora do país, que buscam dialogar com a opinião pública por meio da internet ou por meio de poucos canais não controlados pelo Kremlin. Importante notar que na China, há um intenso controle da web pelo governo, enquanto na Rússia há um grau maior de liberdade na internet.

Sarah Tempesta:  O senhor acredita que o Brasil possa em breve, estar próximo de países desenvolvidos ou que estejam se desenvolvendo? Tomando por base sua experiência em outros países, onde cabe investimento eficaz? Educação? Petróleo? Tecnologia? Ciência ou em um primeiro cenário “outro crescimento” de uma classe média e desenvolvimento de políticas públicas para estruturas básicas sociais, como o senhor definiria o maior desafio do Brasil? 

Jaime Spitzcovsky: O Brasil é um país de gigantesco potencial, há poucas nações no planeta com tantos recursos naturais e humanos como nós. Precisamos investir mais em educação, diminuir as desigualdades e fortalecer a democracia. É um caminho trabalhoso, mas não há atalhos. Países desenvolvidos não nasceram nessa condição, foram construindo seus sistemas ao longo de séculos ou décadas.

Sarah Tempesta:  Atualmente no Brasil, todos são filósofos, pensadores, escritores, ideólogos, sociólogos e marqueteiros digitais, obviamente a internet não é culpada por esse processo arrogante de auto afirmação, mas o preocupante é a falta de um “caminho do meio”, um debate público plural, diverso e consciente para um processo de construção de país. Onde estamos errando? 

Jaime Spitzcovsky: O erro, a meu ver, está na polarização excessiva e na idéia de que uma determinada corrente política tem todas as respostas certas para todos os problemas. A história mostra que nenhuma ideologia ou corrente política tem resposta adequada a todos os desafios. Democracia pressupõe negociação, compromisso, aceitar visões diferentes e não tratar seu oponente político como inimigo. Vivemos todos no mesmo país, estamos fadados a conviver e precisamos construir um projeto de nação, não um projeto de poder ou de partido.

SarahTempesta:  Qual tem sido a sua contribuição no debate público? Quando o senhor estuda e distribui conhecimento sobre geopolítica, o senhor se preocupa com Sustentabilidade?

Jaime Spitzcovsky: Preocupo-me muito com o tema da sustentabilidade. Certamente poderia fazer mais e melhor sobre isso em meu trabalho.

Jaime Spitzcovsky

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