Sociedade

Indigenismo: em busca das identidades brasileiras

Por Dougas Nascimento
Foto: Ricardo Stuckert

As inúmeras crises contemporâneas que presenciamos em nosso Brasil é resultante de uma crônica crise de identidade de seu povo. Somos um país com várias nações interagindo entre si e, concomitantemente, criando-se um entrelaçamento sócio-cultural extremamente complexo e heterogêneo. Esse intrincado mosaico étnico demonstra-se um campo riquíssimo, entretanto, marcado por erosões culturais profundas causadas pelo desconhecimento e, até mesmo, aversão às suas próprias raízes culturais.

Por diversas vezes, tentou-se forjar uma identidade nacional artificial. Foram poucas as vezes que movimentos culturais e com exito,  se basearam nas essências brasileiras a fim de se propor uma construção de sentimento coletivo compatível com  a nossa exuberante vivência e saga. Percebe-se que tais movimentos inspiraram-se e foram capazes de plasmar o espírito dos diversos povos que constituem nosso capital humano, especialmente, as diversas etnias indígenas que habitaram e resistentes sobrevivem sobre as, outrora, férteis terras brasileiras, morada de biomas, que, por sua vez, encontram-se extremamente ameaçados e vulneráveis pelo avanço frenético das atividades agrícolas, pecuária, madeireira, mineração, que se comportam de forma parasitária e predatória.

Proporcionalmente a esse avanço, percebe-se o acirramento de conflitos por terra no campo, lugar, muitas vezes, desprovido do império da lei. A exemplo desses sérios desrespeitos aos direitos humanos, devemos recordar-nos dos recorrentes assassinatos de indígenas da etnia guarani-kaiowá, no Mato Grosso do Sul, que reivindicam a ocupação de terras pertencentes aos seus antepassados. Enquanto isso, um Congresso Nacional extremamente retrógado abriga intensas articulações das poderosas bancadas ruralista e mineradora, que, sistematicamente, urdem aprovação da PEC 215/2000, texto capaz de retardar e prejudicar significativamente o processo demarcação de terras indígenas, pois, transferir-se-á a este mesmo Congresso a competência de fazê-la. Lembrando que este já é responsável pela concessão de autorização para exploração das riquezas hídricas e minerais contidas em terras indígenas (Art. 49, XVI, CF/88).

Ressalta-se que os povos indígenas brasileiros são compostos de 305 etnias, detentoras de 274 línguas, segundo dados divulgados pelo IBGE, representando um fascinante universo humano, que devemos observar e inspirar-nos para que descubramos, através da investigação e imersão nessas múltiplas etnias (desde que nisso não represente risco aos seus integrantes) para sermos de projetar e concretizar nossa autodeterminação como um país detentor de várias nações.

No que diz respeito a essa busca pela percepção do que realmente somos como povo, diversos movimentos sociais e culturais empenharam-se nessa fantástica saga, como o romantismo do escritor José de Alencar com o destemido guerreiro Peri em “O Guarani”, a bela índia tabajara idealizada em “Iracema”, a Semana de Arte Moderna de 22, em que artistas como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Mário de Andrade, concretizaram a tentativa de construção de uma expressão de vanguarda inspirada nos povos originários brasileiros.  No Tropicalismo, movimento de reação a Ditadura Militar, ícones como Caetano Veloso e Gilberto Gil mergulharam em nossa complexa realidade, expondo o Brasil indígena como força ativa de nossa sociedade.

Darcy Ribeiro, outro icônico brasileiro, foi importantíssimo na produção de conhecimento antropológico sobre os nativos brasileiros. Conviveu com os tupinambás, descreveu que admirava seu modo de vida pautado por uma responsabilização coletiva da tribo sobre a educação das crianças, disse nunca ter visto um tupinambá dar agredir outro da mesma tribo, chamavam-lhe atenção a dedicação e o cuidado com que teciam seus vasos, que eram uma forma como imprimiam sua personalidade e essência como povo, sua auto-organização era outra característica descrita.

Logo, podemos nos questionar a motivação de movimentos com esse viés, que foram relevantes à história da cultural nacional, apropriaram-se de seus símbolos e hábitos nativos, ainda que o país demonstrasse, em determinados momentos, um êxodo rural substancial e crescente processo de industrialização. A resposta talvez esteja nessa busca pelo autodescobrimento (pois a essência indígena encontra-se impregnada em nosso espírito). O sentimento intuitivo e prático que transcende temporalidade, extrapola a cidade de concreto armado e nos diz que nossa plenitude como brasileiros está em nas raízes que originaram os troncos e as folhas da imensa árvore a que, factualmente, somos parte.

Buscamos soluções e respostas para problemas nacionais em um ambiente externo, em culturas incompatíveis com nossa realidade como povo, e nos esquecemos que a diversidade, que nos é inerente e singular. deve ser a chave para a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, como descreve e sonha nossa Carta Magna.

Enfim, neste momento, torna-se urgente que nossos olhos e ouvidos voltem-se às sabedorias indígenas, que, por sua vez, nos mostrarão um caminho alternativo e seguro para que, assim, saiamos desse pântano em que estamos imersos e, muitas vezes, inertes. Entretanto, devemos nos empenhar a isso com devido relativismo cultural para alcançarmos um novo patamar em nossa construção social.

Que consideremos valores que permitam admirar e absorver a relação de mutualismo e sustentabilidade que esses povos alcançaram com o meio ambiente, suas ritualísticas e ensinamentos orais e práticos, para nos realinharmos às nossas identidades e, simultaneamente, através do exercício da empatia e identificação, possamos auxiliar no fortalecimento da causa indígena em nosso tecido social, influenciando as decisões nos organismos institucionais.

Douglas Nascimento, adepto do Veganismo, funcionário público em uma empresa estatal do Distrito Federal, graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário UDF.

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