Brasil

Guilherme Boulos, por Annelize Tozetto

 

Você já ouviu falar de Guilherme Boulos?

Por, Annelize Tozetto

São Paulo, 10 de dezembro de 2017.

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) comemora 20 anos de (r)existência e luta. Uma multidão quase sem fim lota o Largo do Batata, na capital paulista. Além das 30 mil pessoas ocupantes do Largo, outras carinhas conhecidas deram as caras na capital paulista: Sônia Guajajara, Marcelo Freixo, Péricles, Maria Gadú, Caetano Veloso, Criolo e, como não poderia deixar de ser, ele: Guilherme Boulos.

Nascido na década de 80, o paulista de 35 anos é um dos Coordenadores Nacionais do MTST e da Frente Povo Sem Medo (frente unitária de movimentos sociais que busca realizar amplas mobilizações populares). Nos últimos meses, Boulos também tem participado e ajudado a construir a Plataforma Vamos – que propõe a pensar um programa para o Brasil e que contou com 55 debates presenciais em 24 cidades, nas cinco regiões do país. Formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e especialista em psicologia, começou a participar do movimento estudantil na juventude e em 2002 ingressou no MTST (quando o movimento tinha já 5 anos de existência).

No ano de 2003, Guilherme Boulos ficou conhecido nacionalmente quando ajudou na ocupação de um terreno da Volkswagen, em São Bernardo do Campo. Em 2014 , seu rosto voltaria a estampar a imprensa por conta das mobilizações sociais em torno da Copa do Mundo – especialmente por conta da Ocupação Copa do Povo, realizada pelo MTST, em maio daquele ano, no bairro de Itaquera, Zona Leste de São Paulo. Ao todo, 5 mil famílias protagonizaram na época inúmeros protestos por moradia na região.

O Sem Teto no Brasil, diz Boulos, tem cara, tem rosto, tem cor, tem classe social e são pessoas reais. “São 6 milhões de famílias sem moradia no Brasil. Ao mesmo tempo são 7 milhões e 200 mil imóveis vazios. Na prática não precisa construir nenhuma casa nova, bastava desapropriar e distribuir aquelas que estão ociosas. Esse é um problema brutal de distribuição e faz com que que agravem os conflitos, agravem as tensões e que as pessoas sejam levadas necessariamente a ocupar”, afirma em um vídeo publicado no Mídia Ninja.

A esquerda precisa se reinventar

No 23º Curso Anual de Comunicação Popular realizado pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), no Rio de Janeiro, entre os dias 22 e 26 de novembro de 2017, Boulos participou da mesa “A classe trabalhadora no século 21” e afirmou que os sindicatos e a esquerda precisaram se repensar no próximos anos. “Como vai organizar o trabalhador intermitente? Que condições ele terá para fazer greve? Com que empresa?”, questionou. O coordenador nacional do MTST lembrou que o capitalismo segregou as cidades e que isso de alguma forma fez com que a classe trabalhadora se organizasse em movimentos baseados na territorialidade. “O público que está na maior parte das ocupações urbanas de luta por moradia é uma população essencialmente trabalhadora, que não consegue de maneira geral não consegue pagar seu aluguel no final do mês, cada vez menos quando aumenta o desemprego e se reduz a renda”. E completa: “Nas ocupações o povo se reúne como uma forma de luta contra a negação desse direito”.

Ainda durante sua fala lembrou que a dita apatia da classe tem inúmeros motivos e que um deles é a perda de capacidade de disposição da nossa esquerda de ter mantido uma pactuação com a classe trabalhadora – pactuação, inclusive, que daria lastro pra qualquer projeto político. “A opção foi uma opção essencialmente eleitoral. Fazer trabalho de base de quatro em quatro anos para pedir votos. Isso tem suas ciladas – o processo eleitoral importante, que é um momento de disputa, que não deve ser negado. Mas o processo eleitoral descolado de um lastro social de classe na melhor das hipóteses – de vitória – nos deixa reféns de quem controla desde sempre o estado”, afirma.

Boulos lembrou que não existe espaço vazio na vida. “A esquerda deixou de fazer trabalho de base nas periferias e as igrejas neopentecostais tomaram esse espaço”. Para o coordenador do MTST, temos um grande desafio reconstruir um lastro social na classe para os projetos que a gente defende. “Isso se faz com o enraizamento social e popular das nossas organizações e dos nossos projetos. Ganhar eleição não resolve muita coisa se não tem base social”.

Boulos e 2018

Guilherme Boulos tem tido seu nome cotado para ser candidato à presidência pelo Partido Socialismo e Liberdade – PSOL. Apesar da aproximação com o partido da e ida ao VI Congresso do PSOL, ocorrido no primeiro final de dezembro em Luziânia (GO) para fazer uma fala de saudação do MTST, Boulos ainda não é filiado à sigla e prefere deixar para fazer debates de eleições apenas em 2018.

“Não haverá solução mágica em 2018. Vivemos numa ofensiva conservadora e numa regressão em termos de direitos sem precedentes. O principal foco agora, em um cenário como esse tem que ser com a direita, com os retrocessos, com o projeto do golpe e do Temer. ”, afirmou Boulos em sua fala de encerramento do NPC.

* Annelize Tozetto é jornalista formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa,fotógrafa formada pelo Centro Europeu e especialista em jornalismo literário pelaAssociação Brasileira de Jornalismo Literário / FAVI. Faz parte da Revista Vírus, do Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta e constrói a Frente Povo Sem Medo em Curitiba.

Views All Time
Views All Time
1012
Views Today
Views Today
1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *