Entre os dias 18 e 21 de Março Brasília sediou o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA). O FAMA foi constituído por Movimentos Sociais, Universidades, ONGs e entidades de classe comprometidas com o debate sobre a questão hídrica a partir da garantia do direito humano e animal de acesso à água, dos direitos da mãe natureza de manter-se viva e do compromisso com a sustentabilidade em todas as suas dimensões. Tal encontro se deu em paralelo ao Fórum Mundial da Água, encontro marcado pelo lobby e pela influência de grandes corporações interessadas em explorar os a água apenas como recurso econômico ou, nos próprios termos utilizados durante o evento, como “capital natural”. Seguindo a lógica da acumulação de capital, ainda que isto represente escassez e violação contra a população, nascentes, rios, animais e natureza em geral, o Fórum Mundial da Água se distancia de qualquer encaminhamento real e transformador sobre a questão hídrica.

Enquanto corporações como a Coca-Cola e a Nestlé ditavam os rumos do Fórum Mundial da Água, no FAMA foram ministrados, na Universidade de Brasília, atividades autogestionadas, com inscrições abertas e conduzidas pelos mais diversos coletivos ou indivíduos. Povos indígenas, ribeirinhos, trabalhadoras(es) rurais, urbanistas, engenheiras(os) sanitaristas, professoras(es) e ativistas pela sustentabilidade propiciaram um rico momento de encontro, trocas e construção de conhecimento.


Atividade Autogestionada
Foto: Raphael Sebba


Atividade Autogestionada
Foto: Raphael Sebba

Segunda e Terça foram marcadas por grandes plenárias temáticas, que culminaram em uma grande marcha que passou pelo Parque da Cidade de Brasília, W3 Sul e Norte, chegando até a esplanada dos ministérios na quinta-feira, dia 22 de março de 2018. Além da passeata, a manifestação contou com um grande vazo sanitário inflável, representando a poluição das regiões amazônicas.

O MULHERES da Serrinha do Lago Paranoá, de Brasília, fizeram o seguinte relato sobre a marcha:

Hoje, 22/03/18, Dia Internacional das Águas, o Fórum Alternativo Mundial da Água – FAMA, realizou a Marcha pela Água.

Estavam presentes campesinos, crianças, indígenas, movimentos sociais, sindicatos, professores, etc. Foi muito forte o protesto contra a mercantilização e a contaminação das águas e contra tudo que têm sofrido os povos brasileiros devido ao nosso modelo de “desenvolvimento” a todo custo: insensível e predatório. Mas o trajeto foi muito restrito, fazendo com que o alcance do ato fosse mínimo. Seguimos pelo Parque da Cidade, fomos até a sede do canal de televisão golpista e a marcha retornou. A maior parte do tempo nos deixaram entre as grades do Parque. Perguntamos: não teve permissão para seguir até o Fórum Mundial da Água – FMA, o “Fórum oficial das corporações”, que acontece ao lado do estádio de Brasília? Ou o módico trajeto foi programado pelo FAMA? Dificuldade em confiar em qualquer coisa nesses tempos temerosos em que vivemos…

*A polícia – uma imensidão de policiais, a pé, motorizados, montados – para um número relativamente pequeno de pessoas, uma marcha absolutamente pacífica!!!!

Sentimos muito incômodo por não podermos denunciar e mostrar aos envolvidos no movimento de intenção de privatização de nossas águas – e que nos excluem -, que os povos do Brasil têm a Água como sagrada e que a Água deve ser acessível a todos!

Então decidimos expressar nossa verdade, apenas dois corações banhados pela chuva, em silêncio, mas com muita força de vontade, de bem querer, e disposição para ser um canal de novas possibilidades de consciência para a valorização e cuidado com a vida!

Assim, paradas de frente para a entrada principal do FMA, com os cartazes dizendo ”NOSSAS ÁGUAS SÃO SAGRADAS” e “ÁGUA NÃO É MERCADORIA”, chamamos a atenção de muitas pessoas que nos olhavam, perguntavam, fotografavam. E, com muita tristeza, observamos que as pessoas simples que chegavam na porta eram imediatamente barradas: ‘o seu lugar não é aqui, anda mais um bom bocado pra lá’! Afinal, para entrar no espaço onde as “negociações” estão acontecendo tem um custo diário de R$400,00.

Fórum pra quem? Fórum pra quê mesmo?

Silenciosas, incomodamos. Os policiais militares receberam ordens para nos tirar de lá pois estávamos chamando muita atenção e protestos não eram permitidos!!!!!! Eles foram gentis e se disseram concordantes com nossa mensagem, mas recebiam ordens e nos pediram que colaborássemos com o trabalho deles. Não concordamos em sair e eles falaram sobre um decreto que regulamenta o evento não permitindo manifestações. Que então descêssemos a escada, mas que ali em cima não podíamos ficar. E nós, gentilmente também, pedimos para ver o decreto pois queríamos saber de nossos direitos. “Vocês vão nos prender?” Então foram buscar a informação, saíram e não voltaram mais.

Vários participantes do FMA nos agradeceram, nos apoiariam, deram “joinhas” e sorrisos discretos, outros tiraram fotos da gente, e com a gente, dizendo que estávamos lhes representando…

Um rapaz simpático veio conversar conosco sobre um projeto das águas de uma ONG Colombiana desenvolvido em países da África e perguntamos se ele também tinha apresentado a experiência no FAMA, pois seria de grande inspiração para nossas ONGs Brasileiras. Ele nos perguntou o que era o FAMA pois ninguém havia falado disso ali no FMA.

Alguém nos falou que o evento lá dentro era “alto nível”, até mesmo com champagne servido.

E assim é: se não trocamos informações, ensinamos, aprendemos, seguimos nossos corações, apoiamos e cuidamos uns dos outros e de nossa bela morada, ficamos isolados, fracos, alienados, somos usados e enganados… Ficaremos sem água. E água é vida! E a vida é demasiadamente preciosa para se desperdiçar. Vamos cuidar! Força!

“Nós somos aqueles por quem estávamos esperando” – Sabedoria dos Índios Hopi


Foto: Conferência da Família Franciscana do Brasil

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