Sustentabilidade

Evangelho e Direitos Humanos

Hennrique Vieira
Pastor, cientista social, militante de direitos humanos

O fundamentalismo religioso significa um obstáculo à democracia e aos direitos humanos. A lógica fundamentalista opera na defesa de uma verdade absoluta e inquestionável, pois não aceita o diálogo, o questionamento e a revisitação da doutrina. Esta verdade ganha fortes contornos de formatação comportamental e afirmações doutrinárias. Dessa forma se cria imediatamente a imagem do “outro”, aquele que deve ser convertido ou será visto como inimigo. Esta experiência religiosa se pauta na definição rígida e institucional de bem e mal, sagrado e profano, certo e errado, verdade e mentira, caminho certo e desvio. O fundamentalismo tende a ser totalitário, ou seja, impor à totalidade da sociedade a forma de vida que julga ser ideal, inquestionável e absoluta.
Existe um segmento evangélico no Brasil – com poder econômico, midiático e político – que  expressa essa experiência fundamentalista. Este grupo busca monopolizar o sentido de ser evangélico; ataca centralmente a pauta das mulheres e  LGBTS; fortalece a dinâmica racista que promove a intolerância contra as religiões de matriz africana. A partir de uma leitura patriarcal, racista, heteronormativa, literalista, seletiva e dogmática da bíblia, produz uma verdade excessivamente doutrinária e comportamental, com quase nenhuma abertura ao diálogo.
Como exemplo, é possível citar a Teologia da Prosperidade. Esta narrativa apresenta a crença em Deus como trampolim para o sucesso material. O sinal da benção divina é a solução dos problemas financeiros. Este discurso justifica uma sociedade desigual,  favorece a meritocracia e não lança luz sobre as estruturas de desigualdade e exploração. É, portanto, a justificativa teológica para uma sociedade estruturalmente injusta e desigual.
Outro exemplo é o determinismo teológico. Nesta abordagem tudo que acontece na vida de uma pessoa é a manifestação da vontade de Deus. Da mesma forma, as estruturas políticas, econômicas e sociais passam longe da preocupação religiosa e toda realidade é consequência da soberania e do propósito de Deus. Não deve, portanto, ser questionada.
Contudo, é preciso verificar que este segmento não representa a totalidade da experiência evangélica no Brasil e se afasta das raízes populares, acolhedoras e generosas do Evangelho.

É nesse sentido que se faz urgente apontar a relação entre Evangelho e direitos humanos. Tal apontamento serve para denunciar o fundamentalismo e disputar a narrativa do que significa ser evangélico. Segundo a memória bíblica do Novo Testamento, Jesus foi um homem pobre, da periferia e que andou com os oprimidos e estigmatizados de sua sociedade. Jesus de Nazaré denunciou a opressão do Império Romano e do Templo sobre  o povo. A espiritualidade de Jesus superava os preconceitos históricos e culturais, acolhia as pessoas maltratadas e excluídas. Jesus foi visto como herege, aquele “outro” que podia e devia ser contido, enquadrado, ajustado e eliminado. Por essa razão Jesus foi preso, torturado e assassinado. O homem de Nazaré (região periférica) sofreu a morte mais brutal e violenta da época. Sendo assim, o endereço histórico do Evangelho é popular e vítima da violência. O sentido do Evangelho, atualizado e contextualizado para nosso tempo, aponta para a defesa da vida plena para todas as pessoas, para a denúncia da lógica de violência que criminaliza e ataca os pobres. É evidente a íntima relação do Evangelho com uma perspectiva ampla  e radical de direitos humanos. Assim, o sentido mais genuíno do Evangelho é incompatível e irreconciliável com discursos de ódio, lógicas de vingança, apatia diante da violência do Estado contra os pobres, indiferença diante do genocídio contra a população jovem e negra, insensibilidade diante da violência permanente contra LGBTS e silêncio diante do ataque sistêmico aos sem terra e indígenas.

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