Pois é, uma coluna sobre feminismo que começa com esse título. Infelizmente, cresci em um ambiente machista. Por mais empoderada que minha mãe seja, quem nasceu até a década de 90, conviveu com esse tipo de criação. Modelos patriarcais. Lembro da minha avó paterna deixar sempre claro que limpeza da casa, em especial da cozinha, era função de neta mulher (mas no fundo, ela sempre nos mimou e as louças ficavam com ela mesma, enquanto todxs brincávamos de brinquedos sem distinção de gênero!).

Quando criança, fui menina moleca. Gostava de carrinhos. Em certo natal, pedi uma “super máquina” de presente. Minha mãe nunca se importou. Mas havia um certo olhar, em cima da menina masculinizada por suas roupas e adereços. Muitas pessoas se preocupavam com a minha sexualidade. Como se minhas escolhas, naquele momento, fossem interferir em quem eu me tornaria e com quem eu viria a me relacionar na adolescência e juventude.

Cresci acreditando que não deveria transar no primeiro encontro, nem sair com mais de um garoto da mesma turma, padrões desconstruídos há pouco menos de 10 anos, em contato com pessoas envolvidas com artes, em contato com outras culturas, outros países, outros estados, outras literaturas. Sou branca, de classe média, faço parte da parcela privilegiada da sociedade. Porém, o despertar feminista trouxe à tona a ancestralidade: mulheres fortes existentes há gerações na minha família, empoderadas, guerreiras, que me transformaram numa máquina em defesa pela igualdade de gênero. Hoje, sem dúvidas e com mais de 15 anos de envolvimento e bagagem político-partidária, sei que essa é a minha bandeira e meu lugar de fala.

Fui convidada para escrever sobre feminismo e integrar este coletivo, logo na semana em que assassinaram uma vereadora negra, lésbica e atuante no movimento de direitos humanos, na cidade do Rio de Janeiro. Na mesma semana em que sentei em uma mesa para falar sobre desconstrução do machismo nos partidos políticos, em um evento com público em sua maioria homens e brancos. Mesmo evento em que minha fala foi criticada somente por homens, julgada como “radical” e “rude”. Os mesmos homens que fazem piadas de mal gosto e interrompem nossas falas. Os mesmos homens que não abrem espaço para participação feminina. Os mesmos homens que preferem contratar outros homens.

Só atingiremos uma política democrática com desenvolvimento sustentável e social, com igualdade de gêneros nas câmaras legislativas em todas esferas. Só podemos nos considerar militantes “verdes”, se pregarmos e respeitarmos a igualdade de gênero. Não podemos mais ser coniventes com o machismo. Nem na mesa de bar, nem nas nossas casas, nem em grupos de whatsapp da família.

Contei um pouquinho sobre mim, para que a partir desse momento, possamos trocar experiências e defender, cada vez mais, que tenhamos os mesmos direitos. Falaremos sobre saúde da mulher, sobre a relação da mulher e do meio ambiente, sobre direito ao próprio corpo, sobre mercado de trabalho. Sou Mariana Perin, atriz e gestora cultural, yawo de Oyá, apaixonada pelo meu coletor menstrual e militante por igualdade e representatividade de gêneros. Sigo desconstruindo o machismo por aí e dentro de mim.

Marielle. Presente!

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Mariana Perin

A louca dos Buldogues Franceses, Yawo de Oya, feminista, dividindo seu tempo entre política e produção cultural.

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