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Escravizando a Água

Por Marcello Mello – CRBio 48.285/02

Do Aqueduto do Carioca construído em 1723 que captava água no alto de Santa Tereza para o Arco da Lapa, onde havia um chafariz em que os escravos recolhiam água para a casa de seus senhores, ao surgimento da CEDAE em 1975 da fusão do Estado da Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro. Parecia que a universalização da água era real e que todos os habitantes fluminenses receberiam um saneamento digno de primeiro mundo, mas a realidade é outra.

O Sucateamento promovido pela má gestão política onde investimentos bilionários foram desviados, embolsados e corrompidos causou a desvalorização de uma empresa que a princípio vinha realizando um bom trabalho. Não é à toa que a Estação de Tratamento de Águas Guandu é uma das mais respeitadas internacionalmente, considerada uma das principais obras do século 20 no Brasil e ganhando a certificação do Guinness como a maior estação de tratamento de água do mundo. Palmas para os nossos técnicos que, apesar das adversidades conseguiram abastecer boa parte da Cidade do Rio de janeiro e mais nove cidades da baixada com uma água de boa qualidade, estimasse que 89% dos fluminenses recebam agua tratada, entretanto não podemos falar o mesmo do sistema de esgotamento sanitário do Estado.

Hoje mergulhar em nossas lindas praias tornou-se uma aventura, lagoas nem pensar, a qualidade das águas que banham o Rio de Janeiro está péssima. Diversas doenças se acumulam no corpo dos banhistas, micoses, desinteria, hepatite, dioxinas, metais pesados, algas hepatotóxicas, etc. A Baia de Guanabara sucumbe ao despejo de esgoto sanitário e industrial somados aos constantes vazamentos de óleo provenientes das embarcações que ali transitam. Em 2000, um vazamento de óleo em grandes proporções foi responsável por mudar o cenário da Baía da Guanabara. Um problema nas tubulações da Refinaria Duque de Caxias, causou o derramamento de cerca de 1,3 milhões de litros de óleo cru na Baía. A mancha de óleo se estendeu por uma faixa superior a 50 quilômetros quadrados, atingindo o manguezal da área de proteção ambiental de Guapimirim e diversas praias que são banhadas pela baía de Guanabara, os pescadores estão até hoje sem pescado.

O Boto Cinza, habitante da Baia e símbolo da Cidade, representado em seu brasão por dois indivíduos suportando a coroa, está ameaçado. Na década de 80 o número de botos chegava a 400, hoje apenas 33 vivem, em sua maioria doentes. Os cavalos marinhos que antes eram abundantes tornaram-se raros e correm o risco de desaparecer, a população de tartarugas também diminui muito, quase não se vê mais, diversos outros organismos marinhos podem desaparecer ou já não existem mais.

Não foi por falta de investimento que a poluição dominou. Na década de 90, o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) foi prorrogado por sete vezes e continua inacabado. Ao todo, foram investidos 1,17 bilhões de dólares, oriundos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A última parcela que seria repassada pelo BID foi cancelada devido aos atrasos no cronograma e à falta da contrapartida do governo do estado, já sabemos que parte deste investimento sumiu, provavelmente engordando as contas ocultas de Cabral e sua gangue.

Em 2009, um dos acordos acertados com o COI para que o Rio ganhasse o direito de sediar as olimpíadas era o de despoluir em até 80% a Baia de Guanabara, não chegaram nem a metade disso. Também prometeram a despoluição das lagoas da cidade, mas nada foi feito, fomos enganados mais uma vez.

Percebemos que o uso da água, há muito tempo não está sendo respeitado, o acesso a água é um direito fundamental a dignidade da pessoa humana. Disputada e maltratada ela vem sendo palco de uma batalha nas ruas da cidade, os nossos algozes da administração pública fluminense estão privatizando este bem essencial a vida. Membros da quadrilha do ex-governador, hoje encarcerado determinam o destino do elemento que compõe 70% do corpo humano. As elites, sócias dos chefes aplaudem, o acesso a substância será para poucos, se deixarmos em breve iremos carregar a água do chafariz para nossos donos.

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