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Escola pra quê?

Por Rogério Godinho

Escola pra quê?

Quase ninguém gosta de estudar. Mas tudo bem, escola não funciona mesmo. As duas afirmações valem para praticamente o mundo inteiro e no Brasil não é diferente. O sinal de término da aula provoca o sentimento de alegria; o período de férias é motivo para comemoração. Se não para todos o tempo todo, ao menos para a maioria. O resultado está nos números, que não podem ser explicados somente pela desigualdade social e a pobreza econômica. Em 2014, o Ministério da Educação divulgou que 54,73% dos alunos liam muito mal. Mantido o ritmo atual, deve levar 76 anos para o estudantes brasileiros do terceiro ano serem bons leitores.
Apesar das estatísticas serem recentes, a raiz do problema está em uma divergência antiga e clássica entre os educadores: qual a melhor maneira de educar?
A resposta divide grandes mentes há milênios. De um lado, trabalho duro, de outro prazer. É a distinção entre transmitir (impor, como alguns preferem) um conteúdo considerado fundamental ou dar os meios para o aluno descobrir por si mesmo. É crer que o motor do aprendizado é o interesse extrínseco (se aprender, terá ganhos futuros) ou o intrínseco (aprender porque é prazeroso). Não se trata de optar 100% por um ou outro, mas a ênfase faz toda a diferença.
Curiosamente, escola vem do grego “schole”, que significa lazer, o aprendizado em um momento de ócio e contemplação. Mas quase nunca foi assim. Por quase toda a história da civilização, educação sempre esteve relacionada ao castigo físico. Dos gregos e romanos até as escolas inglesas do século 19, chegando às carteiras escolares brasileiras até não muito tempo atrás.
Com o castigo físico rejeitado, restou a ideia de que aprender exige trabalho duro, que há muito esforço envolvido. E dor, se não física, ao menos psicológica. Uma abordagem questionada por grandes pensadores, de Platão a Rousseau. Que se tornou ainda mais difícil de ser implementada no mundo moderno, no qual o cidadão é particularmente reativo a postergar sua satisfação. Se impor o conteúdo naturalmente provoca desinteresse, disputar a atenção entre tantas seduções de entretenimento se torna quase impossível. O argumento da recompensa extrínseco, externo ao indivíduo e que virá muitos anos depois do estudo, simplesmente não é suficiente.
Mesmo com toda essa oposição, desinteresse e resultados ruins, o modelo persiste. Em parte, porque o esforço tem seu mérito e é mesmo parte inseparável do processo de aprender. Em parte, porque a alternativa ainda não foi inteiramente dominada, a despeito de milhares de teorias e escolas experimentais. Assim, o poder público há séculos insiste no mesmo sistema, incapaz de revolucionar a educação.
Essa divisão deriva em outra. É o confronto entre aqueles que defendem um conteúdo prático e os que preferem ampliar a compreensão do aluno sobre o mundo que o cerca. Ou seja, a educação deve preparar o indivíduo para ter um ofício ou para ser um cidadão crítico? A resposta óbvia é ambos. Mas, novamente, a ênfase faz toda a diferença.
Além do que a circunstância social brasileira acentua a necessidade da educação como forma de melhorar a renda de cada um. O resultado é que as escolas se tornaram fábricas de profissionais, simples linhas de montagem, destinadas a transmitir informação e produzir indivíduos dentro de um mesmo formato. Um processo que ganhou grande impulso em países como EUA, Prússia e Inglaterra na segunda metade do século 19, quando a educação se tornou compulsória. Uma medida positiva, sem dúvida. O modelo de transmissão unilateral era melhor do que a ausência de educação. E a violência de uma época diferente provocava traumas, mas trazia resultados diversos, de melhoria da condição de vida até o melhor desempenho desses países em guerras.
No século 20, ciência e engenharia tomaram o lugar do conteúdo clássico no currículo e a semelhança e vínculo com as fábricas se tornou explícita. O modelo foi extensamente utilizado, e com sucesso, em todos os países desenvolvidos, dos liberais aos desenvolvimentistas.
Embora questionado por pesquisadores, o efeito da educação prática no aumento da renda é aceito quase universalmente na esfera política. Em um país desigual como o Brasil, cria um dilema: investir na educação profissional e reduzir os contrastes econômicos ou desenvolver o pensamento crítico e cidadãos participativos.
A despeito de possíveis resultados parciais, o modelo vigente produz um cidadão desconectado da comunidade e centrado no desejo de consumo. A educação é um meio, não um fim. A crítica fundamental é que a educação prática ensina a ler, mas não dá ferramentas para que se decida o que vale a pena ler. Mostra como efetuar cálculos, mas não explica a importância daqueles procedimentos na civilização. Como resultado, o cidadão médio respeita livros, mas os odeia na prática. Talvez ainda pior, ele considera a fórmula de Bháskara uma inutilidade, sem compreender que ela faz parte de um conhecimento que tornou possível cada momento de sua vida moderna.
O mundo ao seu redor se torna mágica, não há conexão lógica entre os acontecimentos. O cidadão se torna presa de charlatões, seja no negócios, na religião ou na política.
Aqui se exige uma reflexão sobre o que foi definido como objetivo de educar, como o alerta de Aristóteles, lembrando que quando não se educa, a constituição sofre. Ou nosso Paulo Freire, afirmando que uma sociedade realmente aberta e democrática exige que seus cidadãos sejam capazes de interpretar a política.
Sem capacidade crítica, falta ao indivíduo o que o escritor Ernest Hemingway chamava de “detector de bobagens”. Essa ideia é o centro da abordagem de um dos maiores filósofos americanos, o psicólogo e educador John Dewey. Ele também fazia a distinção entre informação e conhecimento. E, embora concordasse que transmitir o primeiro é importante, a ênfase deveria estar no segundo. Quando visitou a China no início do século 20, Dewey foi aclamado como o Confúcio americano. Quem conhece a cultura asiática entende o calibre desse elogio.
Transmitir unilateralmente a informação provoca outros efeitos adversos. Sigmund Freud e Wilhelm Reich alertaram que a imposição da autoridade leva ao medo e à inibição da expressão da criança. Cedo ou tarde, de um modo ou de outro, esse medo vai se manifestar. O resultado é uma relação pouco saudável com a informação, o que não contribui para produzir conhecimento. O indivíduo acaba por se apegar com fervor a crenças adquiridas. Quando contrariado, sente angústia e medo. Isso ocorre porque a descrença é processada pelas mesmas partes do cérebro que relatam sensações viscerais como dor e nojo.
Dessa forma, o ser humano ama acreditar em algo e odeia quando questionado. No decorrer da vida, aceita com paixão fórmulas fáceis, pois ficou saturado de receber informação imposta. O meme de internet faz sucesso porque simultaneamente simplifica o mundo, diverte e provoca prazer. Refletir sobre ele com ideias fora do conjunto de crenças e experiências adquirido provoca desconforto.
A ineficácia do modelo educacional atual pode ser demonstrada pela preferências políticas, mesmo entre faixas de renda maiores. Afinal, uma grande parcela dos eleitores ainda parece não compreender os conceitos de homofobia, machismo e civilidade. Por exemplo, Jair Bolsonaro, que representa esse conjunto de atributos negativos é favorito entre aqueles com renda familiar mensal acima de dois salários mínimos.
Precisamos de um modelo que reverta isso. Que ajude o aluno a compreender e interagir com o mundo, em vez de somente caminhar de forma cega e passiva por ele. Se educar fosse comparado ao ato de pintar o quadro, o sistema vigente estaria preocupado somente em escolher a tela e um número limitado de tintas. Preto e branco, talvez cinza.
Muito se pode fazer para mudar tudo isso. Por exemplo, adicionar novas opções de material. Como ensinar retórica em um mundo tão focado na comunicação oral. Não somente para falar melhor, mas para compreender as técnicas das quais ele é vítima.
Ou que lide com conceitos da antropologia, ajudando a desvendar nossa conexão com outras pessoas e povos. E direitos humanos, meio ambiente, consciência corporal e global, ética e habilidades como empatia, habilidade para negociação e colaboração.
Entretanto, definir o material para pintar é o de menos. A questão é como se usa esse material. Professores e alunos podem dispor de telas e tintas mil diante de si e ainda assim criar uma paisagem sem graça.
Muito mais do que o conteúdo, a educação precisa valorizar a descoberta, desenvolver o poder de observação e demonstrar como o conhecimento se aplica à realidade. Deve integrar trabalho duro e prazer. Ser prática para formar profissionais, mas capaz de demonstrar como o conhecimento acumulado pela civilização ajudou a construí-la. Sem esse cuidado essencial não há conhecimento, somente informações destituídas de valor.
Como ensinou Paulo Freire, o aluno precisa conectar a informação com o mundo real. Por exemplo, utilizando a ideia do educador americano Jerome Bruner e seu currículo espiral, sugerindo começar a partir do que o aluno sabe e conhece e a partir daí construir o seu conhecimento. Ou a observação sobre formas de aprender do especialista americano em inovação, Clayton M. Christensen. Cada um, ele afirma, absorve o conhecimento de maneira diferente. O aluno que vai mal em matemática pode estar sendo ensinado da maneira errada. Talvez seja auditivo, visual ou cinestésico ou disponha ainda de outros canais de entendimento. Vastos talentos podem ser descobertos se ajustarmos à forma de cada um aprender.
É urgente uma revolução para que a escola deixe de ser um local do qual se quer fugir. É urgente colocar o ensino no centro de nossa relação com o mundo.
Senão, escola pra quê?

Rogério Godinho é escritor e palestrante. Em novembro, lança seu quarto livro: “Para sonhar com política”.

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