Educação

Educação e Sustentabilidade! ( e muita fé e trabalho, para educar…)

EDUCAÇÃO E SUSTENTABILIDADE

 Por,  Jane Maria Vilas Bôas

Tratar da relação de dois temas tão amplos nos recomenda fazer um acordo de entendimento mínimo sobre o que compreendemos que seja cada um deles. Temos aqui duas ideias muito amplas, com interpretações muito variadas em torno de um núcleo conceitual comum. Embora possa ficar didático e aborrecido, é mais seguro do ponto de vista da comunicação, fazer esse esforço inicial. O risco do aborrecimento é menos grave do que o do desentendimento e da polêmica falsa.
A Educação, reputo ser a mais importante política pública que um governo pode desenvolver para que um país possa ter vida digna para todos os seus habitantes. Com a política educacional podemos reduzir diretamente problemas de saúde e de segurança pública e ainda qualificar imensamente a economia.
Para nós cristãos, a educação e o ensino são entendidos como um desígnio de Deus, pela distribuição do dom de ensinar. Para exemplificar, embora haja muitas, cito apenas duas passagens bíblicas. Na carta de Paulo aos romanos, no capítulo 12, versículo 7, está dito que se ensinar é nosso dom, devemos fazê-lo. Em Êxodo, capítulo 35, versículo 34, está registrado que Aoliabe tem o dom de ensinar. Há um interessante registro bíblico também de que o ensino é uma responsabilidade compartilhada, pois a Igreja é um agente educacional. Em Gálatas, capítulo 4, versículo 19, Paulo fala que está em dores de parto até que Cristo se forme “em vocês”. Trata-se de gerar pelo ensino, um mundo, um universo, uma forma de ser. A Bíblia também atribui autoridade educacional aos pais, exortando os filhos a acolherem as instruções do pai e o ensino da mãe, como está no Livro de Provérbios, capítulo 1, versículo 18. Há ainda muitas passagens que nos informam que a principal atividade cotidiana de Jesus, quando assumiu seu Ministério, era pregar “e ensinar”, como está na passagem do Evangelho de Mateus, capítulo 11, versículo 1, reportando as atividades de Jesus nas cidades da Galiléia.
A Educação é o processo transmissivo da identidade cultural de qualquer pessoa. A história, a memória, os valores, as ideias, os conhecimentos acumuladosna comunidade em que nascemos,nos são veiculados por processos pedagógicos, desenvolvidos de forma sistemática ou aleatória, ao longo de nossa formação, pela ação de várias pessoas e instituições. O Pastor Ariovaldo Ramos usa uma expressão hermeneuticamente muito potente para falar da formação de um novo ser humano: “ser gente, como gente tem que ser”. A aprendizagem é, portanto, a absorção de conteúdos históricos e culturais, ordenados por uma cosmovisão que resulta da abordagem filosófica da vida.
O processo educativo, formal e informal, vai nos oferecer pessoas com direitos e deveres ou com deveres e direitos. Esse binômio e sua ordem de precedência na nossa mentalidade definem grandemente que tipo de gente teremos em uma comunidade, em uma cidade, em um país. Os deveres nos remetem à coletividade, ao outro, à República. Os direitos, por sua vez, são referidos ao indivíduo, suas possiblidades sociais, seus espaços de desenvolvimento, a proteção de seus interesses. O que colocamos antes como valor educativo?
Essa é apenas uma das muitas questões fulcrais da vida humana e da vida em geral, que tem na educação seu locusde definições fundamentais. Quais os conteúdos éticos, cívicos, filosóficos, morais e quais valores sociais e espirituais que estarão no conteúdo a ser passado no processo de formação da gente nova que chega ao mundo?
Ao longo do tempo, estudando nossa história, vemos a especialização profissional da atividade de ensinar. A análise das técnicas didáticas e o estudo da epistemologia de modelos pedagógicos nos revelam que essa atividade e seu arcabouço teórico foram dialogando com as épocas e se configurando de forma a entender seu tempo e a atender as aspirações educacionais das famílias contemporâneas. Da observação e imitação de adultos, que era a forma de transmissão de saberes, hábitos e visão de mundo das famílias nobres do período medieval, às instituições de ensino dos dias atuais há um universo de ideias, iniciativas, interpretações do mundo que postos juntos nos dariam um painel sobre como se fez, ao lado da reprodução biológica, a reprodução cultural dos homens e mulheres que habitaram o planeta nesse período histórico.
Nosso tempo, este início de século, o primeiro do terceiro milênio de nossa civilização ocidental, nos trás desafios muito grandes para formar e ensinar pessoas. Desafios que associam a sobrevivência da humanidade à sobrevivência do próprio planeta. A população cresceu, usou modelos de produção e consumo tão descuidados ambientalmente, que causaram uma devastação além e acima da resiliência dos sistemas ecológicos que constituem nossa bolinha azul flutuante numa das vias do espaço sideral.
A Educação de nosso tempo está sendo chamada a refazer cosmovisões, superar paradigmas científicos estabelecidos, encontrar formas de reparar o dano planetário ao meio ambiente e a injustiça social em escala mundial pela imensa concentração global da riqueza.
Por outro lado, o que diz respeito à ideia de sustentabilidade, também temos transição e desafios a enfrentar. A visão de mundo orientada pela lógica linear, aquela que coloca as explicações das coisas como uma relação de uma causa com um efeito, não resolve mais nossos problemas complexos. É preciso entender, como propõe o conceito de sustentabilidade, que as coisas são sistemas e se movem em processos sistêmicos. Para dar um exemplo claro de aplicação da lógica sistêmica, tomemos uma hipotética crise hídrica no Nordeste. A falta de água pode ser enfrentada com a dessalinização da água do mar. Mas essa é uma atividade de uso intensivo de energia. Se usarmos usinas de energia termelétricas para produzir essa água potável, estaremos resolvendo a crise hídrica com a emissão de carbono, gás de efeito estufa, que agrava a crise hídrica. O pensamento sistêmico aplicaria energia eólica, abundante no Nordeste, ou solar, para dessalinizar a água do mar e não causar impactos poluentes em outros elementos do escossitema. Outro exemplo muito claro é possível termos na agricultura. O discurso do agronegócio é que o modelo de produção que alimenta o planeta é a agricultura de commodities, com valor cotado em Bolsa de Valores. Para essa produção retiram toda a biodiversidade vegetal – um imenso campo de pesquisa de princípios ativos que a medicina, a perfumaria, a cosmética, a culinária poderiam explorar, além da utilização de madeira – e colocam monocultura, com irrigação intensiva em alguns casos, exportando nossa água sem cobrar por isso, empobrecendo o solo. A solução que ultimamente vem ganhando investimentos em pesquisa e tecnologia e significa a aplicação da lógica sistêmica é a agroecologia, que mantém a capacidade produtiva do solo, os ativos ambientais do território permanecem disponíveis, explora-se os ciclos de muitas culturas simultaneamente e mantém-se a floresta em pé, prestando os serviços ambientais como proteger o ciclo hidrológico da região, regular o clima e produzir conforto térmico.
O uso de novas formas de produzir, consumir com consciência crítica sobre o que faz mal ao planeta, saber como funcionam os ecossistemas que sustentam a vida na terra, desenvolver uma ciência com tecnologias de proteção ao meio ambiente de forma que seus ciclos possam ser respeitados e sustentar a produção de alimentos saudáveis para as gerações futuras, são itens de uma esforço educativo para mudar a visão antropocêntrica dos seres humanos para uma visão com lógica sistêmica. Trata-se da necessidade de uma mudança tão profunda que vai atingir até a forma como significamos o lugar da espécie humana da Criação. Aqui se explicita o encontro dos dois temas, educação e sustentabilidade e a importância desse encontro para a nossa civilização.
Temos que repensar toda a nossa forma de viver. Ser humano significa atualmente encontrar o caminho da paz que permita que o movimento migratório das populações do globo terrestre não seja para fugir do terrorismo, das guerras étnicas, da opressão política de seus próprios governos. Ser humano quer dizer ser capaz de interpretar de forma inteligente as urgências civilizacionais hoje postas e dar respostas éticas a essas urgências que foram tratadas com cinismo por muitos séculos.
Ser humano, para os cristãos, é finalmente compreender o que é solidariedade interespécies, o que significa cuidar do planeta, o que quer dizer estrangeiro, viúva e órfão no plano da justiça social pregada por Jesus, é se dedicar a compreender que a terra é um sistema de vida, com a presença de tudo que a vida precisa para ser plena para todas as gerações e para todos os povos presentes em todos os continentes.
Jesus usava a pedagogia das parábolas para ensinar. Era chamado de Mestre, não de engenheiro, advogado, médico, piloto, cientista, etc. Era chamado simplesmente de Mestre. As parábolas que ele utilizava apresentavam os problemas de forma multidimensional, a vida acontecendo em todas as suas implicações. Das situações reais e vivenciadas, do mundo em pleno funcionamento, ele retirava as lições que queria passar. E as retirava não de sua narrativa, mas pelas perguntas que fazia, as retirava do próprio entendimento e conclusões de quem o ouvia. Jesus buscava acionar a capacidade de pensar das pessoas. A interpretação tinha um papel fundamental no exercício intelectual que ele buscava colocar em andamento. Pois bem, uma pesquisa recente, feita pelo Instituto Ipso Mori e divulgada pela Folha de São Paulo, que foi intitulada “Os perigos da Percepção”, coloca o Brasil como o país em que as pessoas mais erram ao interpretar a realidade porque sua percepção dessa realidade é equivocada, falta-lhes ferramentas e conhecimentos para uma boa interpretação. Isso nos aponta que estamos com uma crise, dentre outras, da Educação.
Assim, este seria um bom momento para refletir sobre conteúdos, métodos e didáticas da educação nacional, além de seu financiamento e prioridade dentre as políticas públicas que bancamos com nossos impostos.
É impreterível alinhar nossas diretrizes de Educação com o conceito de sustentabilidade, considerando uma troca da lógica linear que nos guiou até aqui esgotou seu potencial de nos ajudar a conhecer e interpretar o mundo por uma lógica adequada à complexidade da realidade que nossa história produziu. O estado do planeta nos pede a adoção de uma lógica sistêmica de agora em diante.
Em 1997 a ONU criou um Comitê redator internacional para processar uma consulta que havia sido feito em todos os países para estabelecer os princípios do desenvolvimento sustentável no planeta. Esse trabalho foi concluído e em 2000, foi aprovada, na sede da UNESCO em Paris, a versão final do documento que foi chamado de Carta da Terra. Ali, como fontes de inspiração, estão a ciência contemporânea, as leis internacionais, os conhecimentos dos povos tradicionais, a sabedoria das grandes religiões, as tradições filosóficas e os valores elevados de todas as culturas humanas. Incorpora também as declarações das Sete Conferências da ONU feitas em relatórios de seus encontros realizados na década de 90. É uma síntese do que a humanidade consegue pensar e propor para os sistemas da vida na biosfera. É preciso agora que existam cidadãos, especialmente aqueles com a cidadania vinculada ao que transcende nossa compreensão, para praticar esses princípios e valores.
Para continuarmos existindo como espécie, para cumprirmos o mandato cultural expresso em Gênesis 2:15, para exercermos os talentos e dons que recebemos, é preciso passar a pensar com lógica sistêmica, e ensinar gente a ser gente com base nos princípios da sustentabilidade.

 

Jane Maria Vilas Bôas, Presidente na Empresa IBRAM – Instituto Brasília Ambiental. 

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