Sim, temos a impressão que a eleição não acabou, na verdade essa sensação vem desde 2014. Conversando um dia desses com um grande amigo, tivemos a noção de que o país vive em para as eleições e não o contrário. Depois do pleito do ano passado e seu resultado, muitos agentes políticos trilharam estratégias para o ano de 2020. Porém, com o início do governo até o momento em que estamos, as estratégias estão sendo reanalisadas. Em outubro de 2018, na noite eleitoral do primeiro turno um candidato vitorioso me dizia ao telefone que o próximo pleito estava no papo. Óbvio que a euforia estava pautada na boa votação de Bolsonaro e sua popularidade daquele momento, que já não foi o mesmo 20 dias depois, na votação do segundo turno. Com o princípio do governo e sua desorganização, Coaf, laranjas, proposta para a Reforma da Previdência e corte na Educação, a euforia diminuiu consideravelmente, perceptível na última ligação. E se as coisas mudaram em cinco meses, serão outras totalmente diferentes em outubro de 2020. Mas nem todo mundo entendeu isso, e mantém seus planos para 2020 intocáveis, como se a política fosse uma linha reta.

Conseguimos facilmente perceber nas Redes Sociais que muitos utilizam um caminho claro, se aproveitar da onda conservadora que tomou conta das eleições passadas. Contudo, existem algumas coisas que necessitam de reflexão. Primeiro que o movimento conservador não é bem orgânico, ele é uma moda, principalmente porque ele foi utilizado dentro de um contexto eleitoral e só. Muitas das pessoas que se dizem assim, de fato não são, e a grande maioria nem sabe o que significa. Se escondem atrás da pauta e nem a vivem de verdade, hipócritas na realidade, mas se utilizam do discurso para agradar o status quo de suas comunidades. Segundo ponto a ser levado em consideração, é que essa curva conservadora já vem se mostrando em declínio, ela não começou em 2018 e sim em 2016, nas eleições municipais daquele momento. Como toda curva, existe um final. Não estou dizendo que vai acabar, mas seu ápice sim. Em um mundo globalizado vivemos também a influência das correntes que assistimos pelo mundo. Estamos atrasados nesse sentido de dois a três anos com relação ao Estados Unidos e suas ondas. Só que a curva por lá está em plena mudança, e tudo indica que ano que vem ela começará um novo ciclo.

Outros fatores precisam ser levados em conta para 2020. Vamos a alguns. Eleições municipais nem sempre, quase nunca, retratam os sentimentos nacionais. Os partidos não são de levar adiante rixas nacionais, como não lembrar de Alagoas nas eleições de 2016, onde PC do B e PSC, de Bolsonaro na época, caminharam juntos em Maceió. As alianças nos municípios não seguem os mesmos ritos de outras esferas. A política municipal é diferente, sobretudo longe das capitais.

Não podemos esquecer e não levar em consideração a força das máquinas governamentais. Elas funcionam sempre com muita rapidez e agem direto nos problemas, maquiando três anos de inércia. Mas também, precisamos lembrar que as vidraças estão sempre mais suscetíveis às chuvas de pedras, algo comum durante um pleito.

Mesmo assim tem gente que aposta que as eleições de 2018 terão impacto decisivo no processo eleitoral do ano que vem, eu não concordo. Nas Redes Sociais conseguimos rapidamente constatar quem são. Isso se observa nas conexões e postagens, na tentativa de alcances e principalmente nas defesas cegas. Os que apoiam o governo partem para cima do conservadorismo e para a defesa de Bolsonaro de maneira cega, com a intenção clara de abocanhar esses votos no âmbito municipal. Se o governo federal mantiver sua impopularidade e sua atual caminhada, ser apoiado por ele pode não ser um bom negócio. A esquerda também comete seus erros, tentando repetir nas cidades o sucesso de alguns grupos na eleição passada, mas sem levar em conta a necessidade de penetração no eleitorado, que motivado pelas redes sociais, não analisa as propostas sem uma pitada considerável de contaminação.

Enfim, nas cidades tudo funciona diferente, o inimigo ideológico pode ser seu grande aliado, e mais do que em qualquer eleição, cada garrafa é importante. Com o fim das coligações proporcionais, essa eleição terá uma necessidade absurda de organização partidária. Para as cidades que tem tempo de TV, as coligações majoritárias continuam sendo importantes. Sobre isso, existem aqueles que apostam que no ano que vem, o efeito Bolsonaro vai se repetir. Só que as Redes Sociais de uma cidade não funcionam da mesma maneira que na esfera nacional. É tudo mais plural, e portanto, difícil de concentrar a briga.

Não podemos nos iludir para 2020. Ela será de suma importância para 2022 e o governo sabe disso. Necessitando alimentar seus seguidores com o ódio ao fantasma do comunismo, Bolsonaro precisa ganhar terreno. A esquerda por sua vez sabe que precisa ganhar voz nos municípios para poder manter força de discurso, mas não dará, para nenhum dos lados, ignorar o cenário específico de cada município, achando que 2018 se repetirá em 2020. A tendência a meu ver, é que as coisas vão começar a voltar para o seu lugar, e sai na frente àquele que tiver habilidade para conversar, com todos. Porque a conversa faz parte da política, do poder e dos projetos. Não achem que a política acabou, ou que se inaugurou uma Nova Política, tudo mentira. Ela continua a mesma.

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Samuel Marques

Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.

Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.



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