Deu Errado
Por Raphael Sebba

A “brincadeira” do Se Nada Der Certo é o reflexo de uma sociedade que dá errado todos os dias.Os adolescentes que se fantasiaram não são monstros, não são exceções ou pessoas de caráter desviante. São a consequência de um mundo que massacra, subjuga e ofende pessoas cotidianamente. São a adequação perfeita aos valores vendidos todos os dias em filmes e livros, a adequação perfeita à estrutura de um país feito de privilégios.
Sucesso? Dar certo? É ser diferente de quem te serve. E por uma coincidência estatística surpreendente, o mérito sempre se concentra nos filhos da mesma gente. Quase que por acaso, praticamente todos os fantasiados vão “dar certo”. Mesmos os mais limitados, preguiçosos, desinteressados vão ver surgir oportunidades, convites, condições que os livrem de “dar errado”.
Afinal, já existe um exército que nunca poderá dar certo, por mais inteligente, disposto e valoroso que seja. Um exército de gente que serve, carrega, gira e faz a vida dos que “deram certo” ser possível e cada vez mais bem sucedida. Que limpam sua sujeira, preparam sua comida, abastecem seus carros…
Sem precisar trabalhar, estes adolescentes poderão aprender línguas. Sem se preocupar com dinheiro, poderão se dedicar aos estudos. Sem terem maiores obrigações, terão lazer, cinema, viagens que lhe darão maior quantidade de assuntos a jogar fora com quem, amanhã ou depois, lhe abrirá portas e oportunidades. Afinal, ao longo da vida terão a “sorte” de criar vínculos com o dono da maior imobiliária da cidade, com o filho do prefeito, com o primo do editor chefe do jornal e com uma meia dúzia de gente importante, amigos de seus pais ou ex-colegas de escola.
É sempre tentador concentrar os horrores coletivos em indivíduos específicos. A sociedade é violenta cotidianamente, de forma física ou simbólica. Mas são sobre determinados indivíduos, que tem cor e classe, que recai o estigma do “ser violento”. Assim, também, é fácil fechar os olhos ao sistema de privilégios que se manifesta na boçalidade de adolescentes que desrespeitam quem trabalha. É fácil ficar chocado como se fosse uma crueldade desconectada da própria vida, o horror de uma turma ou uma escola. Difícil é reconhecer a verdade que esse ato escancara: a verdade de uma sociedade de castas.
Mais surpreendente e violento do que o ato destes adolescentes é o ato de quem usa a fantasia da meritocracia em uma sociedade como a brasileira. Menos grave é expor o privilégio de forma escancarada, sem disfarces. A fantasia de trabalhador expõe a tranquilidade de quem já nasce com o papel de chefe, quase como um direito natural. Afinal, não é exatamente assim que as coisas acontecem?
Se indignar com a brincadeira é justo, é o mínimo. Mas só deixa de legitimar a fantasia quem é capaz de ir além, de se indignar com o dia-a-dia.

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