Sustentabilidade

Desenvolvimento Sustentável não é simplesmente salvar Baleias!

Marcio Sales Saraiva

O Brasil é um país continental, já sabemos disso.

É a quinta maior área do mundo e ocupa 47% do território da América do Sul com mais de 200 milhões de habitantes. Um gigante, sem dúvidas.

Sua economia é a 9ª do mundo, podendo voltar a ser a 8ª economia em 2017 de acordo com o próprio Fundo Monetário Internacional.
Não é pouca coisa.

Além disso, de acordo com a PWC, a economia de sete países tidos como “emergentes” (Brasil, China, Índia, Indonésia, México,Rússia e Turquia) pode crescer a um ritmo duas vezes maior do que as sete economias mais avançadas (Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Estados Unidos e Reino Unido).

Até 2050, o Brasil poderá ser a 5ª maior economia do mundo.

O que faremos disso? Quem irá ganhar?

Hoje sabemos que a dinâmica de nossa economia e sua distribuição territorial
é desigual.

Encontramos áreas de grande desenvolvimento econômico, regiões depreciadas e outras paupérrimas.

Na outra ponta do problema, a desigualdade social, a concentração da renda nas mãos de poucos e a falta de investimentos públicos em tecnologia, inovação e educação de alta qualidade é um gravíssimo redutor de crescimento sustentável no longo prazo, fazendo com que os ganhos econômicos de curto-médio prazo não se transformem em bem-estar para a maioria do povo brasileiro.

Antes do golpe civil-militar de 1964, o governo JK induziu uma nova geografia
econômica concentrada no eixo Rio-São Paulo.

Na época, de cada 100 novos empregos, 72 eram nessa região.

Depois disso, já na ditadura pós-64, os estados menos desenvolvidos passaram a ter um ritmo de crescimento da atividade econômica maior do que o eixo Rio-SP (1968-1980). Não por coincidência, a ditadura e seu partido de sustentação, a Arena/PDS, tinha nos “rincões” o seu nicho eleitoral contra o peso da oposição, o MDB, localizado na região sudeste.

Depois da inserção sem calibragens do Brasil no processo de intensa globalização da ordem do capital – em especial, nos governos Collor e FHC, na década de 1990 – foi imensa a valorização de diversos produtos intensivos de recursos naturais (como, por exemplo, minérios, metais, alimentos (o avanço do agronegócio, papel e celulose) encontrados em regiões de baixo desenvolvimento. É por isso que percebemos uma aceleração do crescimento econômico, mesmo que não se traduza em ganhos sociais para a população local, em áreas como o sudeste do Pará, o quadrilátero ferrífero de Minas, o centro-norte de Mato Grosso, o oeste da Bahia, o sul do Maranhão entre
outras.

O aquecimento da dinâmica econômica se localiza na periferia dos grandes centros tradicionais da economia nacional (afetados pela desindustrialização, ausência de financiamento , “custos sociais” imensos e carência de investimentos em tecnologia e inovação).

O problema que permanece é a exaustão em médio prazo dessas regiões de
aquecimento econômico. Em geral, percebe-se um boom de renda e emprego
acompanhado de um declínio violento.

A força de trabalho vai migrando, em busca de novas oportunidades e o capital, flexível, faz o mesmo, em busca de “novo ouro”. É frágil demais esse processo.

Não podemos depender apenas de exportações de minério de ferro, aço, soja e derivados, automóveis, cana-de-açúcar, aviões, carne bovina, café e carne de frango.

Diversificação é a questão e isso envolve investimentos em ciência e tecnologia, inovação e também, um forte mercado interno consumidor que possa reduzir nossa dependência extrema de commodities que oscilam de acordo com os ventos da economia mundializada.

Atualmente, temos na região norte enorme extrativismo vegetal de produtos
como madeira, látex, açaí e castanha.

A mineração também é muito forte na região, principalmente extração de ferro, cobre e ouro.
No nordeste a economia está se diversificando nos últimos anos, tendo por
base o turismo, indústrias importantes, agronegócio e exploração de petróleo.
A cana-de- açúcar é o seu principal produto agrícola. Já o centro-oeste gira em
torno da agropecuária (especialmente soja e milho), pecuária bovina e algumas
indústrias.

Na região sudeste temos o maior parque industrial do Brasil em crise, mas os
serviços e o comércio são sofisticados e diversificados, além de representarem
a principal atividade econômica desta região enquanto no sul encontramos
forte dependência dos setor de serviços, industrialização menor e forte
agropecuária.

Não há hoje uma visão de conjunto!

O Estado nacional que poderia desempenhar um papel indutor, coordenador e regulador – para que tais dinâmicas econômicas pudessem ser socialmente justas, ecologicamente
corretas e sustentáveis no longo prazo – em nome de uma ideologia de “livre-
mercado” (que nunca dispensa a mão visível do Estado com empréstimos
generosos aos amigos), permite a irracionalidade predatória de alto ganho em
curto prazo com baixa geração de empregos.

O setor terciário (setor econômico relacionado aos serviços) responde por 75% dos empregos brasileiros e metade do nosso PIB. O “agro” poderia ser “mais pop” com
investimento em agricultura familiar, cooperativas autogestionárias de trabalhadores rurais, dinâmicas econômicas solidárias, apoio à pequena propriedade rural e reforma agrária com crédito para quem produz.
Precisamos olhar com cuidado para novas elaborações econômicas que
enfatizam a cooperação (em detrimento da concorrência), a gravidade dos problemas ecológicos gerados pela anárquica ordem sócio metabólica do capital e as possibilidades de uma economia do dom, solidária, como contraponto da economia “clássica” de mercado.

Não é absurdo pensarmos em visões de mundo que enfatizem a simplicidade e o decrescimento em alguns setores econômicos (com busca criativa de alternativas), diante do desastre das visões obsessivas e poluentes de desenvolvimento econômico insustentável que se mostraram incapazes de gerar bem-estar para todo o planeta, mantendo a riqueza concentrada nos países do Norte com suas ativas baterias de sucção de recursos e mão-de- obra barata nos países do Sul.
Fica claro que, quando se fala seriamente em desenvolvimento sustentável,
não se trata de uma ingênua concepção de preservacionista e deslocada das
necessidades reais do povo brasileiro e desconectadas das potencialidades
regionais que temos.

O sustentável aqui envolve o cuidado do meio ambiente e dos nossos recursos
finitos para que sua exploração seja racional, socialmente inclusiva, rentável e
com condições de se manter no longo prazo, gerando desenvolvimento social,
econômico e cultural para toda a região, trazendo ganhos futuros e não uma
terra arrasada.

O enfrentamento da oposição do grande capital parece inevitável, o que coloca questões políticas que aqui não debatemos.
O que assistimos, em geral, é a desertificação dos investimentos depois de um
período de rápido crescimento predatório.

O capital desaparece, como fumaça, em busca de uma nova fonte de exploração e o povo fica abandonado, a região depreciada. Não há ganhos sustentáveis, posto que esta é uma característica destrutiva da modernidade líquida.

Pensar um país com uma economia dinâmica, diversificada e inclusiva,
reduzindo desemprego e aumentando renda, reduzindo desigualdades sociais-
econômicas e regionais, trazendo para o centro do debate o tema da sustentabilidade, é uma tarefa urgente para quem pensa numa nação grande, soberana, ambientalmente saudável e socialmente justa.

É possível, mas a sanha predatória do capital deverá ser regulada pelo Estado orientado pelo planejamento burocrático de longo prazo e redistributivo.

Como hoje o Estado está sendo “satanizado” pela grande mídia e pelo discurso hegemônico do neoliberalismo, nossas chances, no curto prazo, parecem reduzidas.

O fracasso das tentativas de se criar outro modelo de sociedade não significou, em si mesma, a derrota desta hipótese.

O conselho de Mao é “luta, fracasso, nova luta, novo fracasso, mais uma vez nova luta até a vitória” (Badiou, 2012,p.10).

Amanhã vai ser outro dia.

 

Referências:
“Atividades econômicas do Brasil” em
https://geografiacriticanaveia.wordpress.com/870-2/. Acesso em 06/09/2017.

BADIOU, Alain. “A hipótese comunista”. São Paulo : Boitempo, 2012.
CARVALHO, Diana dos Reis e VELOSO FILHO, Francisco de Assis.
“Geografia econômica: origem, perspectivas e temas relevantes”. Caderno de
Geografia, v.27, n.50, 2017.
HADDAD, Paulo Roberto. “A nova geografia econômica do Brasil” em
http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-nova- geografia-economica- do-
brasil,225917. Acesso em 05/09/2017.
MÉSZÁROS, István. “Para além do capital : rumo a uma teoria da transição.
1.ed. revista. – São Paulo : Bomtempo, 2011.

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