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CRIVELLA E SEUS DISCÍPULOS

 

Por Samuel Marques

 

No último dia 04 (quarta-feira), o Prefeito da cidade do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (PRB) fez uma reunião a portas fechadas com 250 pastores. A reunião não estava na agenda oficial, e só teve divulgação e posição por parte da Prefeitura depois que áudios da reunião já estavam na imprensa. Até aí, nada anormal, já que a Prefeitura do Rio tem sido corriqueiramente se transformado em uma espécie de Conselho de Pastores. Mas como a gestão do mesmo Prefeito tem se mostrado, o pior sempre está por vir. Crivella nessa reunião anunciou uma série de medidas a disposição de seus 250 amigos religiosos e suas igrejas. Colocou a disposição uma funcionária, chamada Márcia, que colocaria todo mundo que precisasse de uma cirurgia de catarata na fila de operação, assim como outros procedimentos. Prometeu de tudo, até ajuda em IPTU: “Igreja não pode pagar IPTU, nem em caso de salão alugado. Mas, se você não falar com o doutor Milton, esse processo pode demorar e demorar.”. Ainda ressaltou que o momento é de aproveitar a “benção” divina: “Nós temos que aproveitar que Deus nos deu a oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem. Temos que dar um fim nisso”. Duvido muito que se Deus votasse, teria votado no Crivella, mas continuemos. Crivella declara ainda que só os evangélicos podem mudar o país.

Crivella, que parece que ainda não tomou posse, ao lado dos seus 250 discípulos, vocifera suas besteiras habituais, e quando cita os evangélicos que podem mudar o país, se esquece da pífia atuação da bancada da bíblia no Congresso Nacional, que além de ser faltosa, adora andar junto com a bancada da bala e do boi. A maioria da bancada da bíblia responde algum processo judicial, e já paro por aqui. Crivella atua como um Pastor da Universal, vendo oportunidade de lucro em cima de coisas que não são suas.

Mas Crivella não fala sozinho, na verdade ele reflete, e afirmo isso com muita tristeza, a maioria esmagadora do pensamento do mundo “evangeliques”. Falo com muita propriedade, pois sou protestante, e como tal, não acredito no mundo dos “crentes”. Fui criado por um pai que é Pastor, mas sempre se negou enriquecer com a fé dos outros, e não é rico hoje. Aprendi com ele também que a Igreja não é dona do estado e se tem algo que concordamos em nossos debates por muitas vezes acalorados, é que Igreja tem que pagar imposto. Mas o mundo gospel atual, onde Jesus e seus ensinamentos passam longe, a linha de pensamento e raciocínio corroboram as falas de Marcelo Crivella. E para tal afirmação tenho tantos exemplos que terei que escolher.

A política se faz nos municípios, e quem disse isso foi uma pessoa que já deve ter mudado de ideia quanto a essa frase, algo comum na vida política da autora. Mas a afirmação está certa, e são nesses municípios que entendemos o que Crivella quis dizer. Nessas cidades aprendemos a observar as eleições municipais e as artimanhas para Vereadores e Prefeitos se elegerem, principalmente no campo religioso. Tudo vale, ônibus, sítio para festas e encontros, e até homenagens na Câmara Municipal, tudo em nome de Deus, e claro, de uma vantagem, que apesar de ser incorreta, pode ser perdoada com a autorização divina própria. O mundo evangeliques é tão estranho, que conheço gente que fala mal do PT o tempo todo, na rua, na fazenda, no facebook, ou na casinha de sapê, mas vota no vereador do PT, se esse lhe der um mimo, e quando interpelado sobre essa ação, a resposta é que o candidato é “irmão”. Em outra cidade, Vereador é eleito na linha de Crivella, colocando os irmãos na fila de exame e atendimento, tirando esse mesmo direito de outros, mesmo que esses outros tenham chegado de madrugada. Mas tudo bem, no domingo, senta-se na igreja como se a justiça de Deus fosse algo que se vivesse todos os dias. Prefeitos são eleitos através de interesses de líderes religiosos. Meu pai e eu descobrimos certa vez, que uma igreja no interior tinha sido toda feita com dinheiro público, e tudo com nota fria. Em um outro município, a volta é outra, já que um certo membro da Igreja foi eleito pela própria instituição para defender os interesses imagina de quem? E como tal, tem criado feriados maravilhosos, além de praças com nomes bíblicos.

Ouvi de um líder religioso a poucos dias, pelas redes sociais, que o Estado deve proteger a família Cristã, e acredito que nem Cristo concordou com isso. Conheço um monte desses muitos do mundo “Evangélico” que se dizem de bem, que dizem prezar pela moral e bons costumes, mas pasmem, uma pesquisa de 2016 da Universidade Presbiteriana Mackenzie a partir de relatos colhidos por Ong’s, revelou que 40% de mulheres agredidas são evangélicas, e que muitas das vítimas se sentem coagidas por seus líderes religiosos a não denunciarem seus agressores.

Existe uma sensação em comum, por parte das pessoas que apesar de não nomeá-las, citei-as. É a sensação de donas do Estado. Crivella diz que tem que se aproveitar o momento de estar na Prefeitura para melhorar suas igrejas, e isso não é diferente dos exemplos que me referi acima. E essa melhora pode ser em detrimento do resto da população, ou seja, sua grande e esmagadora maioria. Viraram, donos do Estado, donos do poder, que para eles não foi revestido pelo voto, e sim por Deus. Um pensamento medieval em um momento em que vivemos em uma sociedade beirando ao medievalismo. E o pior, não é esse o ensinamento de Cristo, que nos primórdios, nos tempos de um Cristianismo puro e simples, o coletivo era muito importante. Mas vivemos em outros tempos, em tempos em que Pastores como Malafaia fazem acordos com Deus e o diabo na terra do sol, em tempos onde as igrejas não sabem o significado de um estado laico, e a tolerância não é algo que se fala em púlpito. Vivemos em tempos difíceis, em tempos de Crivella Prefeito, que se elegeu com mentiras, e por falar nisso, o pai da mentira é o diabo. Tem algo errado aí. Pai, perdoa-os, apesar deles saberem o que fazem.

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Samuel Marques

Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.

Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.

Samuel Marques
Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.

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