Rogério Godinho é…

Escritor e jornalista com passagem pela Gazeta Mercantil, Forbes Brasil e colaborador do jornal Valor Econômico, IstoéDinheiro e Você S.A.
Autor das biografias O Filho da Crise, Nunca na solidão e Tente Outra Vez – O Caminho de Nathalia Blagevitch em uma Sociedade Deficiente.
Atualmente, está escrevendo uma nova biografia romanceada com entrevistas com diversas personalidades políticas brasileira, ministra cursos e palestras sobre ética, redação, sustentabilidade, nova política e o pensamento complexo.
Rogério Godinho estudou história global e globalização, em Harvard, e frequentou o Massachusetts Institute of Technology (MIT) como aluno visitante de filosofia.

Por Cristiano Ricardo

Para você, de onde surge a corrupção?

Rogéro Godinho: Primeiro, é fundamental distinguir os tipos. A rigor, a corrupção é a perversão de um processo. Mas o que nos interessa aqui é a corrupção na política, o uso do poder público para obter ganhos privados. Nesse caso, temos que analisar esse desejo. Basicamente, o ser humano valoriza aquilo que lhe faz ser percebido como alguém importante, digno do respeito e da atenção alheia.
Na nossa sociedade, o que é importante? Acima de tudo, riqueza. Perceba que, para ocorrer a corrupção, é necessário a existência de pessoas dotadas de uma grande necessidade de possuir. O ideal é que essa riqueza seja percebida como consequência do mérito individual, mas essa conclusão já é automática. Se há riqueza, então há mérito. Então basta obter a riqueza. E, quanto mais rápido melhor, assim o desejo é atendido.
Exceção feita aos casos de grande sorte, a forma mais rápida de obter uma grande riqueza é a corrupção. É tomar parte do público para si. Mesmo que signifique a regressão do fundamento democrático da igualdade de acesso à riqueza pública.

A corrupção é um problema cultural?
Rogério Godinho: A cultura influencia indiretamente, no sentido de que países em que parte da população com bom nível educacional tem capacidade de criar formas mais sofisticadas de corrupção. Mas este é um problema muito mais econômico do que cultural, isso é um consenso entre os especialistas. Quanto mais ricos e mais igualitários os países, menor é a corrupção. Quando mais pobres e desiguais, maior é a ocorrência de relações escusas e patrimonialistas.

Como seria possível instituir uma condução contra corrupção?
Rogério Godinho: Há filósofos que baseiam a sociedade no interesse pessoal de cada indivíduo. Mas mesmo esses insistem na necessidade de um arcabouço legal robusto que permita o bom funcionamento do país. Não se trata somente de leis, mas de reforçar mecanismos de controle, conferindo independência a quem fiscaliza. Precisamos aumentar a transparência das instituições. E incentivar e dar condições para a população fiscalizar os homens públicos. E, no caso do Brasil, temos que convencer uma parte do eleitorado que a corrupção é mesmo ruim, pois uma parte da população começa a achar que é aceitável.

Em sua opinião, quais são as diferenças dentro do Brasil quando falamos em corrupção?
Rogério Godinho: Os fatores fundamentais da nossa corrupção são a nossa desigualdade social e o baixo nível educacional dos cidadãos, o que torna mais difícil para a população fiscalizar os políticos. Nisso não somos diferentes de outros países na mesma condição. Mas a corrupção também é um fato histórico. A carta de Pero Vaz de Caminha já continha um pedido pessoal, pois o redator se sentia em condição de fazer uma pequena barganha. Queria que o genro fosse solto da prisão. É o nosso primeiro patrimonialismo, primeira uso do estado para ganho pessoal.
Claro, isso não era ilegal. Ao contrário, o patrimonialismo era a regra. É com a democracia que se criam as relações escusas modernas, não só para o enriquecimento pessoal imediato, mas para obter o poder, que traz uma riqueza com potencial para ser muito mais perene que a conta bancária no paraíso fiscal. Afirmar que um político não roubou para si é desconhecer esse mecanismo básico do desejo. Poder é riqueza, mesmo quando a conta bancária milionária não aparece.
Agora, você tem diferentes níveis de desenvolvimento da corrupção. O básico é o patrimonialismo na origem, em que o público é propriedade de uma aristocracia. Mas logo que a democracia aparece surge o desejo de fraudar o processo eleitoral, de desviar fundos para obter o poder e repassar dinheiro público a aliados.

Então na democracia a corrupção é sempre a mesma ou há diferentes formas?
Rogério Godinho: Ela evolui na forma. Na República Velha, a corrupção começava no voto de cabresto e terminava no coronel conseguindo obras públicas para a sua região. A seguir, temos Adhemar de Barros como o símbolo máximo de político corrupto, com grandes obras superfaturadas. O cofre do Adhemar é o primeiro e talvez ainda o maior símbolo de apropriação do público para o privado. A partir daquele exemplo, surgem na década de 50 as empreiteiras especializadas em corrupção e grandes obras públicas. Nessa época, o desenvolvimento de um sistema financeiro internacional mais sofisticado também facilita o envio de grandes remessas para exterior.
Há também o eterno uso do estado pelo sistema financeiro, o que torna quase impossível calcular o tamanho do patrimonialismo. A corrupção marcou cada governo desde então, mas temos uma evolução interessante do ponto de vista da organização e da centralização com o mensalão petista, o que permitiu um controle fino de um grande número de desvios e negociação de cargos públicos. É simplista e raso dizer que nunca se roubou tanto, visto que o patrimonialismo tem sido intrínseco ao modelo democrático, mas há aí uma diferença de estrutura. E essa estrutura depois evolui para uma proximidade muito grande com os agentes corruptores, principalmente as empreiteiras. Sem contar que pela primeira vez temos um modelo de corrupção endossado por parte do eleitorado, que diz que ele foi ou é necessário porque o sistema é assim. Nesse sentido, parte da sociedade, ainda que minoritária, vivencia uma enorme regressão. E outra parte se felicita de ver grandes corruptos, como os empreiteiros, pela primeira vez na cadeia. Resta saber se isso é temporário ou se realmente vai significar uma mudança estrutural.

Crédito Foto: Fotografo Irandi Ribas (A Tribuna).

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