Cultura de Direitos

Corpo-positividade e livre sexualidade para pessoas trans

Por Jaqueline Gomes de Jesus

Pra quem ainda não sabe, janeiro é o mês da visibilidade trans (29 de janeiro é Dia Nacional da Visibilidade Trans). Os temas em geral abordados envolvem a nossa saúde e a violência a que somos submetidas, visto que o Brasil e o país que mais mata pessoas trans no mundo, principalmente as travestis e as mulheres trans, configurando um feminicídio trans.

Neste meu texto para o Global Sustentável eu preferi falar para vocês, pessoas cisgênero, ou simplesmente cis (que não são trans), acerca de uma temática que aposto lhes é ignota: a valorização do corpo (corpo-positividade) e a sexualidade de pessoas trans.

Esta seria uma mensagem íntima para pessoas trans, portanto não teria muito o que dizer a vocês, pessoas cis, senão por intermédio das pessoas trans com as quais vocês eventualmente se relacionem afetivo-sexualmente. Porém, particularmente, acredito que vocês têm muito a aprender sobre a humanidade de pessoas trans ao começarem a compreender, neste que acredito ser seu primeiro contato não-estereotipado com a questão, as nossas particularidades e semelhanças com vocês.

A corpo-positividade e a livre-sexualidade são questões relevantes para o pensamento-ação transfeminista, novíssima linha do feminismo que muito se alimenta do feminismo negro para o enfrentamento à falaciosa comparação entre gênero e biologia e na perniciosa, e invisibilizadora, universalização das condições de vida e identidades de mulheres.

Como uma pauta política de gênero, é necessário abordamos mais os aspectos positivos de nossos corpos, sexualidades e relacionamentos afetivos.
A revolução das consciências está em reconhecermos que os corpos trans são belos e únicos (e portanto modificarmos o pensamento social transfóbico): entender que não precisamos idealizar e adotar acriticamente detalhes de corpos cis, porque os nossos já são maravilhosos por si sós.
Vale lembrar que ser especial não significa ser, necessariamente, revolucionário, ao contrário do senso comum. Posso lhes garantir que a população trans é sim extraordinária, no entanto não busca nada mais do que ter uma vida normal, sem a preocupação de ser violentada e excluída.
O problema é que o cissexismo (sexismo relacionado à generalização dos sujeitos cisgêneros como sujeitos “universais”) e a transfobia são eficientes e introjetados em nossa consciência coletiva, e se reproduz na desvalorização de nossos corpos e nossos afetos e sexualidades.

Essa não é uma questão, puerilmente posta, de “mudar a forma como se pensa”. É difícil se valorizar integralmente numa sociedade como a nossa, que nos desumaniza ao reduzir as nossas múltiplas identidades à nossa transgeneridade, que é apenas mais uma delas.
Como qualquer pessoa nesta sociedade, exploramos muito pouco nossos corpos, o que é lamentável. Esse é um ponto crucial: como parte da sociedade em que vivemos, não somos estimuladas a explorar nossos corpos e a nos comunicar adequadamente com nossos parceiros afetivo-sexuais, o que prejudica a plenitude dos relacionamentos.

Ficamos esperando. Ilusoriamente, que “o corpo fale naturalmente por si”, quando nós é que devemos tentar nos comunicar. Tudo a ver com vocês, pessoas cis…
Para as mulheres trans e as travestis que se reconhecem como mulheres, outro obstáculo é a luta que têm de enfrentar com a idealização enviesada da sociedade acerca do que seja “mulheridade”, a qual reitera conceitos discriminatórios, opressores, esdrúxulos e comumente repulsivos sobre a mulheridade trans.
Você sabe quais são, repense e supere eles. Nós mulheres trans somos tão “reais” ou “de verdade” quanto as mulheres cis, só temos nossas particularidades, como as próprias mulheres cis, que não são todas iguais nem vivem as mesmas questões, ao contrário do que apregoa o pensamento machista.
E em geral são homens cis transfóbicos querendo controlar e esmagar os corpos, mentes e corações de mulheres trans e travestis.
Como um sintoma, boa parte das pessoas trans ignora quantas dezenas de posições sexuais seu corpo lhes possibilita, porque se prendem aos estereótipos propagados pelo senso comum e pela mídia.

Ao longo de muito tempo, por nossa própria conta, nós temos enfrentado e desconstruído os rótulos que a cultura popular e os meios de comunicação desinformados tentam nos atribuir.

Como mulher trans heterossexual, posso falar mais precisamente sobre a feminilidade trans que me cabe, evitando extrapolá-la, indevidamente, para o contexto próprio das mulheres trans e travestis lésbicas e bissexuais. O fato de ser negra também é significativo, pois tenho plena ciência que as minhas experiências são diferentes das de mulheres brancas, mesmo que trans.

Lembro-lhes, ainda, que sou uma exceção ao padrão imposto pela transfobia brasileira, e minhas experiências podem ter muito a dizer para algumas mulheres trans, porém pouco para outras. O que eu alcancei na vida não pode ser aplicado, acriticamente, como o padrão de sucesso para outras pessoas trans. O fato de eu me adequar a certos ideários (ser heteronormativa, com aparência semelhante a de mulheres cis no meu padrão anatômico, altamente escolarizada, com emprego e renda estáveis e bem articulada) não me colocam como uma “meta” para outras mulheres trans e travestis, mesmo as negras.
Cada uma precisa encontrar seu próprio caminho, a partir de quem ela é e de sua realidade, demandando apoio mínimo para lidar com os hediondos óbices colocados para a nossa existência plena.
Algo que nos é impingido é que qualquer menção a nossa sexualidade é estereotipada como “pornografia”. Nossos belos corpos, quando não são ridicularizados, são apontados como objetos sexuais. Isso é bem comum, é cotidiano, e é muito violento e desumanizador.
Face a essa censura, somos instadas a falar honestamente sobre os nossos corpos, com a nossa linguagem, não só entre nós, mas também para vocês, pessoas cis. Como o fato de que, sendo mulheres com pênis (portanto tendo um pênis de mulher – ou um clitóris grande) ou homens com vagina (portanto tendo uma vagina de homem), nem todas “odiamos” nossa genitália, e lidamos com o que chamamos entre nós de eventual incômodo ou “disforia”, numa apropriação da linguagem médico-psiquiátrica, de formas diferentes umas das outras.

Não precisamos ficar nos explicando o tempo todo: podemos dar algumas orientações sobre nós, porém as pessoas trans não são obrigadas a serem sua Wikipédia. Deixe de preguiça e vá pesquisar um pouco sobre nós, não faltam materiais educativos bem construídos e fundamentados disponíveis pela internet, boa parte gratuitamente.

Pare de passar vergonha ao repetir anacronismos sobre nós, ou proferir discursos explicitamente transfóbicos, como se fossem mera opinião.
E nos relacionamentos afetivos mais próximos, sexuais ou não, pergunte-nos, e não suponha, o que nos dá prazer, onde queremos ser tocadas e onde não.
Conhecer a nossa anatomia ajuda muito, mais do que a maioria das pessoas imagina. Quem não conhece seu corpo, não pode valorizá-lo. Cada qual explorando seu corpo aprenderá muito sobre si. Sem deixar de cultivar sua imaginação, de inventar situações. Isso também é uma forma de amor: por quem você é, e nada é mais fundamentalmente poderoso do que amar a si mesmo(a).

Você, pessoa cis, tem muito a aprender com as pessoas trans. Primeiramente, a ser mais humana.

Views All Time
Views All Time
967
Views Today
Views Today
2

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *