Feminismo

Copa Feminista

Acordar todos os dias é um dilema quando se é mulher de luta. Há algumas semanas, entrei em uma discussão desnecessária virtualmente, sobre apropriação cultural. Sou filha de santo, como já assinei desde o meu primeiro texto por aqui, e discutimos sobre usar ou não termos em línguas nativas africanas. Alguns defendiam o uso exclusivo dentro dos terreiros, outros (e eu me incluo), defendo (e defendi!) que qualquer um que seja afrodescendente possa usar as expressões. Eu sou branca e cis, porém, de terreiro. Aquele não era meu lugar de fala. Embaixo do meu comentário, algumas mulheres começaram a me agredir verbalmente. E eu, me redimi ao meu lugar de fala, e apaguei meu comentário.

Aquele não é meu lugar de fala. Fato. Mas me doeu ser “ofendida” por mulheres. Me doeu a ponto de eu parar, ler e reler. Muitas vezes, meu companheiro brinca comigo quando falamos sobre feminismo: “Qualquer dia, você vai ser colocada no seu lugar numa fala sobre axé, e você vai entender o que eu sinto, quando você diz que não é meu lugar de fala”, afirmou ele.

É muito ruim não entender qual é o nosso papel nos ambientes de luta. Na semana passada, após a jornalista ter sido brutalmente assediada, durante a Copa do Mundo, por homens brasileiros na Russia, li em dezenas de postagens sobre o “mimimi” do feminismo. Ontem a noite, no debate do Roda Viva, a pré-candidata a presidência da República, Manuela D’Avila, foi vítima descarada de machismo em plena entrevista: Entrevistadorxs, não importa o gênero, interrompendo a fala de uma mulher e subestimando seus ideais, expectativas e formação acadêmica. A trataram como uma menininha que não sabe o que falava, e toda hora, Manuela precisava tirar do bolso suas patentes, para que ninguém duvidasse de sua capacidade. Em certo momento, ela abaixou a guarda e disse: Podemos pensar diferente, isso faz parte da democracia, porém, estou aqui para dizer o que penso. A frase não está ao pé da letra, mas ao ver também, mulheres subestimarem a candidata e tratá-la como uma “menina”, foi assistir a uma barbárie. Mulher infantilizar outra mulher também é um dos pontos onde podemos combater o sexismo no Brasil. Claro que o ponto alto da entrevista foram os vômitos intelectuais de certos entrevistadores, tentando fazê-la entrar em contradição, já que apoiam pré-candidatos da extrema direita. Uma falácia total. Erro do Roda Viva. Aprendam com isso, produção!

Expor mulheres a situações de ridículo também é machismo. O mundo pode estar mais chato sim, só que não podemos mais esconder o erro dos amigxs e abraçar teorias infundadas baseadas no sexismo. Se não, cometemos injustiças. E isso não pode acontecer. Ser feminista não é deixar de apontar os erros de mulheres, não é defender o indefensável, é apenas querer um mundo com iguais oportunidades de DIREITOS entre pessoas, não importa o gênero. Por isso, o feminismo é um aliado da luta aos direitos LGBTIs, e precisamos de empatia e união, para que todos sejam tratados como semelhantes.

Nessa mesma semana caótica, vejo uma postagem na timeline de uma pessoa, expondo uma briga entre um ex-casal em separação de bens, litígio e guarda da filha, onde o ex-marido comete gaslighting com sua ex. Foram coisas terríveis de se ler. Mas ao mesmo tempo, num universo micro da música underground, vejo as mesmas mulheres que apontam o dedo para esse canalha, não apontarem o dedo para outros canalhas semelhantes. Canalhas da mesma turma, do mesmo meio, canalhas que fizeram a mesma coisa ou pior, foram agressivos com suas parceiras, e essas mesmas pessoas pseudo corajosas, não tomam lado. No fundo, as pessoas tomam lado quando lhes convém.

Eu não deixo de apontar quando uma amiga está errada ou quando uma mulher pede minha opinião. Apoiar é diferente de ser omisso. Eu não posso permitir amiga chantagear parceiro, só porque ela é mulher. Do mesmo jeito que eu nunca apoiaria amigos fazendo o mesmo. Eu já fui contra relacionamentos violentos entre homossexuais, porque eu sou contra a violência em si. É muito difícil uma pessoa pacifista como eu, ter que estar armada para se defender o tempo todo. Eu detesto briga. Eu detesto violência. E infelizmente, a vida nos coloca em situações que temos que nos defender.

Uma pessoa muito próxima a mim parou de amamentar seu bebê aos 2 meses e meio, porque PRECISAVA voltar a trabalhar. É uma mulher independente e profissional liberal. A cria não aceitava mais o leite materno e as facilidades da mamadeira eram gigantescas. O leite secou. Não tinha mais o que fazer. Essa mesma mãe foi julgada brutalmente por outras mães que se dizem feministas. Sororidade não é só se auto-declarar feminista e levantar bandeira sobre empoderamento, é compreender as limitações do mundo moderno e sempre se colocar no lugar do outro.

Voltando para a política, vejo meu companheiro, que assim como eu, é das artes e do meio político. A forma como ele lida com a ex-mulher e como ele cria o filho, é de um respeito surreal, comparado aos homens do senso comum. Poucas vezes, o vejo em posições sexistas, e ele, o tempo todo, se esforça para desconstruir o machismo provindo do ambiente em que ele cresceu. Ele se chama Henrique, e até o último segundo, cuidou de sua mãe doente. É um homem para quem eu olho e penso: São homens assim que podem andar conosco nessa luta. Precisamos de aliados.

O episódio com a Manuela D’Avila não é atípico. Na própria esquerda, vejo milhares de amigxs preferindo apoiar o pré-candidato Boulos, do Psol. E muitas vezes, quando pergunto o porquê, as respostas são diversas. E por quê não Manu? Mais respostas ainda. E ai de mim se eu disser que eles são machistas. Mas isso bate e volta na minha cabeça o tempo todo. Há também Marina Silva, onde as pessoas colocam a pré-candidata sempre em posição de desistência, para assumir a vice de alguma candidatura de algum homem. Nossas duas pré-candidatas mulheres a presidência da república, o tempo todo, são desqualificadas pela classe política. É sempre uma luta diária.

Mesmo na lista da minha agremiação política, não li um elogio à postura de Manu no debate, vindo de um homem. É muito difícil elogiar mulher, ainda mais de outra agremiação política. Sinto isso inclusive nos ambientes mais diversos. Muitos amigos de outros partidos ainda dizem: “Ah, mas a Mariana não é “nossa”, o problema dela é estar no outro “grupo”. Difícil quem diga que somos todos importantes personagens na construção de um país plural, progressista e diverso.

As eleições estão aí. Você já pensou seriamente em votar em uma mulher para o legislativo? Somos menos de 7% de mulheres no congresso. Somos 52% da população brasileira. Você se sente representado em Brasília?

Precisamos estender as mãos. Especialmente para mulheres. Precisamos trazê-las para o nosso lado e construir caminhos de pacificação. Está nas nossas mãos, pés e ombros. Não dá mais para não se aliar. Não dá mais para se calar. Não dá para mulher ser machista. Não dá mais para mulher não enxergar outra mulher como parceira. Em todos os lugares, temos que lutar e nos reconectar.

E eu, sinceramente, só queria caminhar. Queria conversar, colocar flores lilás nas armas e acreditar que pode haver uma convergência de pactos sociais e multiculturais. Eu queria que dentro da minha família, as pessoas parassem de achar que é mimimi. Começa de dentro para fora. Porque não é mimimi. Lágrimas escorrem. Estou cansada, mas ainda há café para nos dar força. Por nós. Pela mana e pela mona. Sempre!

 

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Mariana Perin

A louca dos Buldogues Franceses, Yawo de Oya, feminista, dividindo seu tempo entre política e produção cultural.

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